Haddad defende candidatura própria de Gabriel Chalita, do PMDB, à Prefeitura de SP
Guilherme Balza
Do UOL Notícias <BR> Em São Paulo
"Seria bom o PMDB ter um candidato"; veja os melhores momentos da entrevista
Candidato favorito do ex-presidente Lula à Prefeitura de São Paulo, o ministro da Educação, Fernando Haddad (PT), defendeu, em entrevista ao UOL, a candidatura própria do deputado federal Gabriel Chalita, recém-ingresso no PMDB, para a disputa pela capital paulista em 2012.
Cauteloso, o ministro também não descartou a hipótese de ter o parlamentar como seu vice, mas afirmou não apostar numa coligação PT-PMDB.
“Gostaria de tê-lo disputando também. Acho que seria bom para São Paulo, que o PMDB possa ter um candidato e disputar as eleições. É um bom nome”, afirmou Haddad ao falar sobre a candidatura própria de Chalita.
Questionado se gostaria de tê-lo em sua chapa, disse: “Não creio nessa possibilidade. Pode ser que as coisas se desenvolvam nessa direção, mas hoje não vejo esse horizonte.”
Nos bastidores, Lula trabalha para atrair Chalita à candidatura de Haddad, sob o argumento de que é preciso unir os partidos governistas contra a hegemonia tucana no Estado de São Paulo. O deputado e o PMDB, no entanto, insistem na candidatura própria --possibilidade, aliás, que incentivou Chalita a deixar o PSB rumo ao novo partido.
Haddad e Chalita têm perfis parecidos em muitos aspectos, o que, em tese, os faria disputar o mesmo eleitorado: ambos são neófitos em eleições para cargos executivos, construíram carreira política na área da educação e são professores universitários.
As semelhanças param por aí. Enquanto Haddad é petista há quase 30 anos e tem formação acadêmica ligada ao marxismo, Chalita trocou de sigla por duas vezes em três anos (também foi do PSDB e do PSB) e se destacou por publicar dezenas de livros de auto-ajuda que analisam a educação pelo viés religioso.
“Ele tem um pensamento diferente do meu, não só na educação, mas na própria política. Eu respeito, é uma pessoa da base aliada da presidente”, diz. “Não posso deixar de reconhecer o mérito [de Chalita] nas eleições de 2010. Quando o nível da campanha estava baixando a um patamar nunca visto, ele teve um papel civilizatório, de afastar as calúnias que eram feitas à Dilma”, afirma o ministro.
Elogios à rival Marta
Para se firmar como candidato do PT, Haddad terá de se valorizar no partido e superar os também pré-candidatos Marta Suplicy, Eduardo Suplicy, Jilmar Tatto e Carlos Zaratini. Desde que Lula lhe convenceu a ser pré-candidato, em março, o ministro tem feito visitas semanais a bairros da periferia de São Paulo por meio das caravanas zonais do partido, oportunidades de Haddad se familiarizar com a militância petista.
As prévias para escolher o candidato estão marcadas para novembro, mas Lula trabalha junto a outras lideranças do PT para chegar à disputa com um consenso. Neste mês, Haddad conquistou apoio da tendência CNB (Construindo um Novo Brasil, antigo Campo Majoritário), majoritária no diretório nacional (60% da composição) e uma das mais importantes na capital paulista (cerca de 30% do diretório municipal).
Após a divulgação de pesquisa Datafolha, em que Haddad aparece com 2% das intenções de voto e Marta com quase um terço dos eleitores, a senadora atacou o ministro, dizendo que "sempre teve 30% e ele, 2%”. Antes, em agosto, Marta afirmou que “se não quiser ganhar, Lula vai com Haddad”.
O ministro também foi cutucado por Tatto, que disse que Haddad “não gosta de política”, e sim de “universidade”, e não teria a “vibração” que um candidato precisa.
Na entrevista ao UOL, o ministro evitou o confronto. “Eu gosto de política e de universidade. A Marta é muito aguerrida. Eu aprecio essa característica dela. É uma pessoa ousada. Espero contar com o apoio dela”, disse o ministro.
Votaria na senadora? “Não tenho dúvida. Se o PT a escolher, vamos todos unidos para o meio da rua defender a sua candidatura."
Taxa do lixo
Na gestão de Marta na capital (2001-2004), Haddad foi chefe de gabinete da Secretaria das Finanças, órgão que criou as taxas do lixo e da iluminação pública, medidas impopulares que causaram grande ônus político à senadora. Questionado na entrevista, o ministro não respondeu se participou da criação das taxas.
“Você responde pela administração em seu conjunto. Eu reputo a Marta Suplicy como uma das melhores prefeitas da história da cidade”, afirma. Questionado se criar as taxas foi um erro, Haddad diz que “a própria prefeita admitiu que talvez não o fizesse [se pudesse voltar atrás]". "Mas é preciso considerar o contexto em que a decisão foi tomada. O orçamento da cidade era um terço do atual."
Se classifica a gestão de Marta como “excelente”, Haddad avalia o governo de Kassab apenas como “regular”. “Precisamos recuperar em o ímpeto das nossas administrações.”
Conquistar a classe média
Caso supere os desafios partidários e seja escolhido para a disputa em São Paulo, Haddad terá que percorrer o mesmo caminho de Dilma em 2012 e se tornar figura conhecida da maioria da população. Além disso, terá que quebrar a resistência da classe média paulistana ao PT --que, aliás, já começa a se manifestar contra a candidatura do ministro em redes sociais.
Polido, mas sem modéstia, Haddad diz que pretende usar a seu favor a experiência na Secretaria de Finanças. Segundo ele, o cargo lhe permitiu uma visão “privilegiada” da cidade e os anos em Brasília lhe deram uma “visão do conjunto”. “É todo um projeto político e um conhecimento da gestão pública federal e local que eu penso que pode me credenciar junto aos paulistanos.”
Socialismo
Filho de comerciantes de origem libanesa, Haddad se formou em direito pela USP (Universidade de São Paulo), onde iniciou sua militância no tradicional Centro Acadêmico 11 de Agosto. Fez mestrado em economia e doutorado em filosofia também na USP, instituição a que se licenciou no início da década passada para assumir cargos na gestão pública.
Nas últimas obras acadêmicas, publicadas no final da década de 90, Haddad defende claramente o socialismo, modelo de sociedade que, segundo artigo seu de 1998, é “reino da justiça onde se exerce a liberdade”.
Questionado se continua socialista, Haddad se ameniza o discurso: “estamos construindo uma sociedade cada vez mais livre, mas infelizmente não tão igualitária como poderia ser. Nós temos que combater as desigualdades no mundo atual. E há também a questão da tolerância, da celebração da diferença, que são dois valores que vão nortear a minha vida e eu considero que são valores socialistas. Portanto, eu me considero uma pessoa que cultiva esse tipo de valor.”
Veja a íntegra da entrevista com Fernando Haddad
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