"Efeito Belo Monte" cria contraste de opiniões entre cidades de Tapajós

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias, em Santarém e Altamira (PA)

Em Santarém, o clima é de euforia e forte adesão à separação em relação ao Pará. Já em Altamira, parte da população se mostra indiferente ao projeto emancipador de Tapajós. As duas maiores cidades da região vivem ambientes bem diferentes na véspera do plebiscito deste domingo (11) que decidirá se o território paraense dará lugar a mais dois Estados (Carajás e Tapajós). Esse contraste pode ser creditado a dois fatores.

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Por um lado, a cidade de Altamira (por volta de 100 mil habitantes) vive as fortes mudanças e incertezas em torno da construção da vizinha usina hidrelétrica de Belo Monte, que irá alagar os bairros de palafitas, criados sobre os igarapés. Atualmente, há grande fluxo migratório, aumento da criminalidade e uma inflação local nos alimentos e aluguéis.

Por outro lado, Santarém, maior polo da região (com mais de 300 mil habitantes), é a principal candidata à capital tapajoense, apesar do tema ser tabu entre os líderes da campanha para não afugentar o apoio de cidades menores --há a hipótese ainda de a capital também ser criada em uma nova cidade, ao estilo de Palmas, no Tocantins.

A reportagem do UOL Notícias encontrou a manicure Claudeci Duarte levando duas crianças pela ponte de madeira que dá acesso às palafitas sobre o igarapé Altamira, no centro da cidade. O local será desocupado porque a água do lago será usada na hidrelétrica e atingirá o local. “Já estou acostumada com o Pará. Sou contra a divisão. Não adianta nada”, afirma Claudeci.

A manicure também se mostra receosa sobre o impacto de Belo Monte. Ela aluga um casebre montado sobre o igarapé e deve receber uma bolsa-aluguel durante os primeiros nove meses após o desalojamento. “Depois a gente tem que se virar. O pior é que o aluguel triplicou com a autorização da obra”, conta ela.

Prioridade dentro do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), a hidrelétrica de Belo Monte esteve parada por ações públicas e exigências do Ibama até julho. Com o início das obras, mais de 15 mil pessoas chegaram à localidade em busca de emprego ou para aproveitar as oportunidades de negócio e trabalho na região. Isso fez surgir uma inflação local.

“Eles vem aqui perguntam tudo e não respondem nada. A gente fica sem saber o que vai acontecer”, diz Claudeci sobre o cadastramento de moradores a serem retirados, feito pela Norte Energia, consórcio de empresas estatais e privadas que é a responsável pelo complexo hidrelétrico. Mesma situação de falta de informação, ela vive em relação ao plebiscito. “Eu vejo o horário político na TV, e eles não explicam nada e só ficam brigando um com o outro”, se queixa.

Sua vizinha Dione Santos também se mostra desconfiada tanto sobre Belo Monte quanto o Estado de Tapajós. “Quem tira vantagem com toda essa história são os políticos e os empresários. A gente vai continuar pobre aqui ou na casa que eles vão oferecer para a gente”, afirma a proprietária de duas palafitas no igarapé Altamira.

Entre os indígenas da região também existe uma resistência à criação do Estado, assim como um pé atrás com a empresa responsável pela hidrelétrica no rio Xingu. “Eu não me acostumo com essa história de mudar de Estado”, afirma Jair Caiapó, cacique da aldeia Kararaô que lista várias queixas sobre as promessas não cumpridas pela Norte Energia. “Nosso único elogio é a voadeira [barco a motor] que eles deram para nós. Mas o dinheiro que eles mandam para o combustível é muito pouco”, critica o cacique.

Outro grupo atingido por Belo Monte e que teme Tapajós é o dos pequenos agricultores. O micro proprietário Lucimar Barros, por exemplo, será desapropriado de seu sítio vizinho à hidrelétrica. “O Pará é pobre. E Tapajós vai ser pobre também. Não sei para que serve um novo Estado”, critica o agricultor que está negociando com a Norte Energia sua indenização pela saída da área.

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Entre os políticos de Altamira, o projeto de independência política é mais popular que o da hidrelétrica, que impulsionaria a economia local.

A prefeita Odileida Sampaio e a Câmara municipal estão em constante atrito com a Norte Energia nestes dias, cobrando a aceleração das condicionantes, obras e medidas para reduzir o impacto ambiental e social sobre a região (como a construção de postos de saúde, escolas e rede de esgotos).

Exceção na área, ameaçados por hidrelétrica de Marabá dizem "não" à Carajás

Não é só a hidrelétrica de Belo Monte que é alvo de protestos de comunidades ribeirinhas no Pará. No sudeste do Estado, milhares de famílias estão apreensivas com construção da usina de Marabá, no rio Tocantins.

Já em Santarém (PA) as pessoas estão mais convencidas da emancipação como forma de controle dos grandes projetos econômicos na região.

“O problema é que os projetos são na Amazônia, e não para a Amazônia”, resume o militante pró-Tapajós Edinaldo Rodrigues. “O Pará é um latifúndio político, é continental e tem várias realidades. Com o poder mais perto, teremos como fiscalizar mais e cobrar mais dessas empresas que vem para cá”, completa.

Por lá, o padre católico e ativista amazônico Edilberto Sena está mais preocupado com a criação de hidrelétricas no rio Tapajós, após Belo Monte virar realidade no rio Xingu. “O filé das riquezas do país está na Amazônia, por isso o governo está querendo construir tantas hidrelétricas por aqui”, diz Edilberto Sena, defensor da independência tapajoara.

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