Exceção na região, ameaçados por hidrelétrica de Marabá dizem "não" à Carajás

Guilherme Balza
Do UOL Notícias, em Marabá (PA)

"Efeito Belo Monte" cria contraste de opiniões em Tapajós

Em Santarém, o clima é de euforia e forte adesão à separação em relação ao Pará. Já em Altamira, parte da população se mostra indiferente ao projeto emancipador de Tapajós. As duas maiores cidades da região vivem ambientes bem diferentes na véspera do plebiscito deste domingo (11) que decidirá se o território paraense dará lugar a mais dois Estados (Carajás e Tapajós). Esse contraste pode ser creditado a dois fatores.


Não é só a hidrelétrica de Belo Monte que é alvo de protestos de comunidades ribeirinhas no Pará. No sudeste do Estado, milhares de famílias estão apreensivas com construção da usina de Marabá, no rio Tocantins, prevista para ficar pronta em 2018.

Entre os afetados estão os cerca de mil moradores da Vila Espírito Santo (a 30 km do centro de Marabá), comunidade tradicional que deverá ser alagada com a construção da hidrelétrica.

A vila foi o único lugar de todo o sudeste do Pará que a reportagem encontrou eleitores contrários à criação do Estado de Carajás. Na comunidade, a maioria dos moradores é “filho da região”, diferentemente do restante do sudeste paraense.

“Se dividir, vai piorar, principalmente para nós, que somos fracos. Quem vota ‘sim’ é porque tem alguma saída se a coisa der errada com a divisão. Agora, nós não temos para onde ir”, afirma o borracheiro e pescador Antonio Feitosa, 34, morador de uma ilha do rio Tocantins.

O mecânico industrial Wilson Almeida da Silva, 30, presidente da associação de moradores da vila, também desconfia da divisão. “Eu acho melhor ficar como está. Alguns dizem que a divisão trará mais verba para cá, mas isso não entra na minha cabeça”, diz.

Manoel Caetano de Jesus, 74, que deu as fazendas de gado aos filhos e foi morar na beira do rio Tocantins, defende a criação de Carajás. “Falavam que se dividisse Goiás, o Bico do Papagaio [extremo norte de Tocantins] não iria valer nada, mas não é que ficou bom lá?”, afirma o pecuarista, natural de Patos (MG).

40 mil atingidos

O que é consenso na vila é o temor quanto à construção da hidrelétrica, que, segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) irá afetar 40 mil pessoas em nove municípios do Pará, Maranhão e Tocantins, entre eles São João do Araguaia, cidade histórica que foi cenário da Guerrilha do Araguaia. A Eletronorte, responsável pela obra, afirma que não há como mensurar a quantidade de atingidos em razão de a obra estar na fase de estudos de viabilidade.

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Segundo dados do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), 19 assentamentos no Pará, sete no Maranhão e 26 no Tocantins serão afetados. A terra indígena Mãe Maria, em Bom Jesus do Tocantins (PA), que abriga três etnias, também será atingida pela obra. O curioso é que a reserva foi criada para abrigar índios afetados pela usina de Tucuruí.

Assim como os indígenas, os ribeirinhos da Vila Espírito Santo também serão atingidos pela segunda vez: no final da década de 70, com o fechamento das comportas de Tucuruí, as famílias que moravam bem próximas da margem do rio Tocantins tiveram que deixar o local, por conta da elevação do nível do rio e as constantes enchentes. Os ribeirinhos, então, decidiram montar suas casas mais distantes do leito, no local em que estão hoje.

Turismo e pesca comprometidos

Com mais de 80 anos, a Vila Espírito Santo é um dos povoados mais antigos de Marabá. Boa parte das famílias ali vivem da pesca ou do turismo, já que ao longo do rio Tocantins há praias fluviais que recebem visitantes em feriados e finais de semana. Em razão da proximidade do rio e da abundância de árvores, o clima na vila é mais ameno em comparação à Marabá, o que também atrai turistas.

ONDE FICA

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Com a construção da hidrelétrica, pesca e turismo serão diretamente comprometidos. Está prevista a construção de um grande dique ao longo do rio para evitar que a Estrada de Ferro Carajás seja afetada. Os moradores temem ainda não encontrar um lugar para viver caso deixem a área.

“Estamos vivendo em uma região inflacionada. Em Marabá, não há infraestrutura, mas o preço das casas está muito inflacionado”, afirma Jesus. “Para se ter uma ideia, um lote de invasão é vendido em Marabá por R$ 15 mil”, acrescenta o pescador e caseiro Edson da Silva Melo, 29.

“Eu torço para que essa hidrelétrica não venha, mas, se é para vir, que se reconheça o direito das pessoas e deem moradia digna a todos”, diz o presidente da associação de moradores. A Eletronorte diz que irá fazer audiências nas comunidades para tratar do destino das famílias e das indenizações.

A hidrelétrica terá capacidade de produção de 2.160 MW de Energia --cerca de um quinto do potencial de Belo Monte, que será a segunda maior usina exclusivamente brasileira --, está atrelada à construção da hidrovia Araguaia-Tocantins e viabilizará o funcionamento das eclusas de Tucuruí, recém-inauguradas. A área do reservatório será de 1.115 km² e o comprimento, 224 km.

Além de Belo Monte e Marabá, há sete projetos de hidrelétricas no Marabá. “Há tantas formas de se fazer energia, porque escolher barragem?”, questiona Wilson.

Na avaliação da Eletronorte, a energia hidrelétrica é a melhor matriz energética. "Nenhum país do mundo, tendo o potencial hidrelétrico a ser explorado, abriu mão da matriz hidráulica antes de partir para outras opções de fornecimento de energia. Isso porque é uma energia limpa, renovável e de menor custo para a sociedade", diz a estatal.

 

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