Pela terceira vez no julgamento do mensalão, ministros questionam defensor de réu

Do UOL, em São Paulo

Pela terceira vez no julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF), os ministros questionaram o defensor de um réu durante sua sustentação oral. A situação é considerada rara na história do Supremo.

Ministro relator do mensalão no STF questiona advogado

Nesta sexta-feira (10), vários fizeram questionamentos: os ministros Ayres Britto, Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso, Dias Toffoli, Celso de Mello e Joaquim Barbosa se manifestaram ao defensor público de Carlos Alberto Quaglia, ex-dono da empresa Natimar. Quaglia é apontado pela Procuradoria como um dos responsáveis pela lavagem de dinheiro para o Partido Progressista no chamado esquema do mensalão. Ele é acusado de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

A defesa diz que a Natimar era apenas uma cliente da corretora Bônus-Banval e nega ter participado de negociações.

Os questionamentos começaram depois que o defensor público fez um pedido de preliminar aos ministros para que o processo dê uma "marcha à ré" porque, com a mudança de advogado do réu, houve um prejuízo a ele, já que as testemunhas que o envolveram no caso não tiveram o seu depoimento colhido na presença do advogado do réu, e que isso aconteceu antes de a Defensoria Pública assumir o caso.

Os ministros, então, perguntaram detalhes sobre a condição do réu, entra elas em que momento o réu trocou de advogado ou quando um novo defensor foi constituído.

O presidente da Corte, ministro Ayres Britto, disse que o pedido de nulidade do defensor vai ser analisado pelo relator Joaquim Barbosa no momento do voto. 

Após as perguntas, o advogado teve descontando o período dos questionamentos em seu tempo máximo de uma hora de sustentação oral.

O julgamento do mensalão no STF
O julgamento do mensalão no STF

Outros dias

Ontem, o relator do processo, o ministro Joaquim Barbosa, questionou o advogado de Henrique Pizzolato --que é ex-diretor de marketing do Banco do Brasil e membro do PT-- antes que ele concluísse sua apresentação. Barbosa fez três perguntas e lançou dúvidas sobre os argumentos do advogado: quis saber se o Banco do Brasil destinava recursos ao fundo Visanet, qual a origem do dinheiro e qual o papel de Pizzolato na liberação desses recursos.

De acordo com a Procuradoria, Pizzolato recebeu R$ 336 mil do valerioduto e autorizou um adiantamento de R$ 73 milhões do fundo Visanet para a DNA, a agência de Marcos Valério que tinha contrato de publicidade com o BB.

Lobato reafirmou sua tese, alegando que Pizzolato não tinha poderes para definir o destino do dinheiro e que o banco não aportava diretamente recursos no fundo Visanet.

Já na quarta-feira (8), ao final da argumentação da defesa de Vinicius Samarane, dirigente do Banco Rural, o ministro José Antonio Dias Toffoli questionou se no período da denúncia o banco se socorreu de um fundo garantidor de crédito. O advogado disse que sim.

Análise

Para o advogado e jurista Marcelo Figueiredo, diretor da Faculdade de Direito da PUC-SP e professor de direito constitucional, que comenta na redação do UOL a sessão do STF desta sexta-feira (10), os fatos não são mesmo comuns.

"Não é comum, mas não é fato inusitado o juiz perguntar ou questionar o que fala o advogado. Não é comum porque, em geral, tudo está muito bem esclarecido nos autos do processo. O problema é que esse processo é muito longo, tem muitos réus, é um processo complexo, com muitos fatos, muitas relações, muitas testemunhas. Assim é normal que hajam ajustes --perguntas e respostas-- entre os ministros e os advogados para esclarecer exatamente o que se está dizendo”, avalia. 

Entenda o mensalão

O caso do mensalão, denunciado em 2005, foi o maior escândalo do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. O processo tem 38 réus, incluindo membros da alta cúpula do PT, como o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil). No total, são acusados 14 políticos, entre ex-ministros, dirigentes de partido e antigos e atuais deputados federais.

O grupo é acusado de ter mantido um suposto esquema de desvio de verba pública e pagamento de propina a parlamentares em troca de apoio ao governo Lula. O esquema seria operado pelo empresário Marcos Valério, que tinha contratos de publicidade com o governo federal e usaria suas empresas para desviar recursos dos cofres públicos. Segundo a Procuradoria, o Banco Rural alimentou o esquema com empréstimos fraudulentos.

O tribunal vai analisar acusações relacionadas a sete crimes diferentes: formação de quadrilha, lavagem ou ocultação de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva, peculato, evasão de divisas e gestão fraudulenta. 

Entenda o dia a dia do julgamento

 

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