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Dinheiro lavado pela Delta era para propina, diz MPF; entenda como funciona

10.out.2012 - A Delta, do empresário Fernando Cavendish, fez parte do consórcio que tocou as obras no Maracanã. A reforma do estádio custou mais de R$ 1 bilhão - AFP PHOTO /VANDERLEI ALMEIDA
10.out.2012 - A Delta, do empresário Fernando Cavendish, fez parte do consórcio que tocou as obras no Maracanã. A reforma do estádio custou mais de R$ 1 bilhão Imagem: AFP PHOTO /VANDERLEI ALMEIDA

Do UOL, no Rio

30/06/2016 12h03Atualizada em 30/06/2016 15h50

Os R$ 370 milhões que, segundo a Operação Saqueador, foram lavados em esquema da Delta Construções com 18 empresas de fachada e três operadores, entre eles o empresário Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, preso nesta manhã, tinham como objetivo final o pagamento de propina a agentes públicos, afirmou nesta quinta-feira (30) o procurador da República Leandro Mitidieri.

O representante do MPF (Ministério Público Federal), classificou como "sofisticada" a engrenagem de desvio de recursos e afirmou que os crimes ocorreram de 2007 a 2012. No período, a Delta faturou R$ 11 bilhões, e 96,3% desse valor é proveniente de contratos públicos, a maioria firmada com o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes).

A empreiteira participou de várias obras que dispunham de recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). Também fez parte de consórcios, como o responsável pela bilionária reforma do Maracanã para a Copa do Mundo de 2014.

Todo o dinheiro seria lavado com pagamentos ilícitos a 18 firmas fantasmas, criadas pelos três operadores: Carlinhos Cachoeira, Marcelo Abbud e Adir Assad. "Tudo voltado para o pagamento de agentes públicos. A ideia depois [da lavagem do dinheiro] era obter saques em espécie e dinheiro sem rastro para pagar propina ao agente público. Essa é dinâmica do esquema", declarou Mitidieri. O procurador não revelou quem foram os possíveis beneficiários de suborno.

"É um esquema que tende a ser sofisticado. Devemos estar preparados para as sofisticações que esse esquema vai sofrer. Ele já foi mapeado e apurado em diversas denúncias e casos de corrupção", afirmou Mitidieri.

O rastreamento dos pagamentos feitos às empresas de fachada revelou que houve aumento significativo do volume de transferências em anos eleitorais. Exemplo disso é a obra de transposição do rio Turvo, no Estado do Rio, para a qual foram destinados mais de R$ 80 milhões em contratos fictícios. Os investigadores verificaram que não há qualquer obra com esse nome. "Os serviços não eram realizados e as empresas só existiam no papel", informou o MPF, em nota.

Os investigadores descobriram ainda que as empresas de fachada criadas por Assad e Abbud emitiam notas frias não só para a Delta, mas para várias outras empresas. No período de 2007 a 2011, somados todos os beneficiários, houve transferências que superam R$ 885 milhões. O esquema criminoso também teve impacto no sistema de corrupção investigado na Petrobras, segundo informações da Operação Lava Jato.

Mitidieri explicou que a Polícia Federal comprovou a natureza fantasma das 18 empresas cruzando elementos obtidos a partir do cumprimento de mandados de busca e apreensão e diligências de campo. Os agentes da PF constataram, por exemplo, que muitas das empresas não tinham sede. As que tinham, majoritariamente, indicavam lugares como um consultório médico ou uma área de terraplanagem.

Além de Carlinhos Cachoeira, outras duas pessoas foram presas até o momento durante a Operação Saqueador. As diligências ocorrem em três Estados (GOSP e RJ). No total, são cinco mandados de prisão: para Fernando Cavendish, dono e ex-presidente da Delta, para o empresário Marcelo Abbud, para o lobista Adir Assad (já condenado na operação Lava Jato) e mais uma pessoa cuja identidade não foi divulgada.

Os advogados de Cachoeira e Cavendish ainda não foram identificados e localizados. A PF não informou se eles já possuem defesa constituída para esse processo. Procurada pelo UOL, a assessoria de comunicação da Delta informou que a empresa, por enquanto, não pretende se pronunciar. Já Miguel Pereira Neto, advogado de Assad e Abbud, recorrerá na tentativa de conseguir um habeas corpus. Abbud ainda não foi preso, mas deve se entregar à PF ainda nesta quinta.

O advogado contesta os critérios da Justiça e diz que não há "materialidade" na decisão. "A prisão é a mais grave das medidas. Ela não pode ser prematura nem utilizada como um meio."

O MPF pede a condenação de todos os envolvidos pela prática de lavagem de dinheiro e associação criminosa. A denúncia pretende também a reparação dos danos causados pelos crimes, a partir da fixação do valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, correspondente a duas vezes o prejuízo de R$ 370.400.702,17. (Com Estadão Conteúdo)

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