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Perito contratado por Temer critica PF e conclui que áudio foi editado: "Falta um pedaço"

O perito Ricardo Molina durante entrevista coletiva para explicar laudo técnico pericial - Pedro Ladeira/Folhapress
O perito Ricardo Molina durante entrevista coletiva para explicar laudo técnico pericial Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Ana Carla Bermúdez

Do UOL, em São Paulo

23/05/2017 19h15Atualizada em 23/05/2017 20h31

Ricardo Molina, perito contratado pela defesa do presidente Michel Temer (PMDB), disse ao UOL nesta terça-feira (23) ter certeza de que o áudio entregue à PGR (Procuradoria-Geral da República) por Joesley Batista, dono da JBS, foi editado. Molina havia afirmado, durante coletiva de imprensa na noite de segunda-feira (22), que acreditava ser “provável” que a gravação da conversa entre Temer e Joesley havia passado por processo de edição. 

A crença sobre probabilidade na manipulação do áudio virou convicção, segundo o perito, após estudos realizados por ele. Uma análise divulgada pela rádio "CBN" na quinta-feira (21), que afirma que houve corte de mais de 6 minutos no áudio após comparar o som de fundo da gravação com a programação original, também pesou para reforçar a convicção de Molina. “A CBN é a mais autorizada, ela tem o programa inteiro. O que eles fizeram está correto”, afirmou.

Para o perito, "agora não tem mais discussão". "A gravação foi editada e está faltando um pedaço dela, um pedaço grande. Pode ser um pedaço só ou podem ser vários pedaços [que estão faltando], mas seis minutos é inaceitável", disse Molina. Ele afirma que a análise feita pela rádio é uma “confirmação técnica” de que o áudio foi alterado, o que ele disse ter suspeitado “desde o começo”.

Análises encomendadas pelos jornais "O Estado de S. Paulo" e "Folha de S. Paulo" também apontaram possíveis alterações e edições no áudio. Segundo as publicações, a gravação teria sofrido, respectivamente, 14 e 50 possíveis edições. Já peritos britânicos ouvidos pela BBC afirmaram ser "precipitada" qualquer análise sobre a gravação sem o áudio original e o aparelho utilizado para gravá-lo.

O debate sobre a integralidade do áudio é parte da argumentação da defesa do presidente Temer contra investigação autorizada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) contra ele. Uma perícia oficial será realizada pelo INC (Instituto Nacional de Criminalística), órgão ligado à PF.

Ouça a íntegra da conversa entre Temer e Joesley

UOL Notícias

Críticas à Polícia Federal

Em entrevista ao UOL, Molina também rebateu as críticas do chefe da perícia da PF na Operação Lava Jato em Curitiba, Fábio Salvador. Salvador disse considerar a contratação do perito pela defesa de Temer uma “humilhação”, além de contestar a apresentação do laudo feito por Molina em tão pouco tempo, sem a análise do aparelho utilizado na gravação.

O perito justificou o curto tempo de análise para realizar o laudo afirmando que seu trabalho é feito em equipe, com “três pessoas trabalhando full time”. A previsão é de que a perícia oficial, realizada pelo INC, leve ao menos 15 dias para ser concluída. “Eu não preciso trabalhar em ritmo lento como a Polícia Federal”, completou. O perito também afirmou que uma eventual perícia do aparelho utilizado na gravação não mudaria as conclusões feitas por ele em seu laudo.

O perito contratado por Temer disse ainda que a PF teria que ser "bastante criativa" para encontrar um resultado diferente do observado por ele.  “Se a Polícia Federal for para outro caminho, tem que ser bastante criativa, apesar de que eles costumam ser. Eles têm bastante criatividade para defender as teses que eles querem. Embora eu fique sendo acusado disso, é o contrário.”

Molina ainda criticou o fato de as perícias oficiais terem maior credibilidade, o que julgou ser “um ranço autoritário". "É [a ideia de que] a polícia que dá a última palavra. Meu trabalho tem que ser respeitado pelo que eu sou, pelo que eu fiz”, afirmou.