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Sem comentar prisão de amigos, Temer diz que críticas ao governo serão "malabarismo" eleitoral

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

29/03/2018 13h49Atualizada em 29/03/2018 17h59

No dia em que a PF (Polícia Federal) deteve seus amigos pessoais José Yunes e o coronel reformado da PM (Polícia Militar) João Baptista Lima Filho, além de ao menos outras três pessoas --o ex-ministro Wagner Rossi (Agricultura), o ex-secretário da pasta Milton Ortolan e o dono da empresa portuária Rodrimar, Antônio Celso Grecco--,  o presidente Michel Temer  (MDB) adotou tom eleitoral, tecendo elogios a seu próprio governo, e não comentou as prisões. 

Em um evento de inauguração do novo aeroporto de Vitória (ES), Temer afirmou que, entrando no período eleitoral, aqueles que tiverem interesse em criticar o governo federal "vão precisar de muito malabarismo". Segundo ele, os críticos terão de se posicionar contra responsabilidade fiscal e a favor de uma educação "ultrapassada". Ele disse ainda que quem está no governo está sujeito a "bombardeios a todo momento", ao falar das dificuldades enfrentadas pela gestão.

"Vão ter que dizer: 'sou contra o teto de gastos públicos. Vem de uma trivialidade. Daqui a dez anos, vamos conseguir empatar aquilo que você ganha com aquilo que você gasta. Está diminuindo o déficit ano a ano", afirmou. "[Vão ter de dizer] sou contra 2,8% de inflação, prefiro 10,28%, como no passado", complementou.

Segundo o presidente, as políticas públicas em seu governo, desde o impeachment de Dilma Rousseff (PT), estão pautadas no diálogo com políticos eleitos e com a sociedade.

"Retomamos o diálogo muito positivo com o Congresso Nacional, com a convicção de que se governa o país com diálogo. E diálogo com a sociedade, por exemplo a reforma do ensino médio, modernização trabalhista. Foi fruto do diálogo que mantivemos com a sociedade ao longo do tempo", afirmou.

O evento em que Temer discursou no Espírito Santo ocorreu no começo da tarde. Pela manhã, as prisões foram cumpridas na Operação Skala, feita no âmbito do inquérito da MP (Medida Provisória) dos Portos, que investiga propinas em um decreto do setor portuário, e inclui acusações contra o presidente. O inquérito foi aberto em setembro de 2017, e o relator é o ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou as prisões temporárias.

As prisões foram pedidas ao STF pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge. A PGR (Procuradoria-Geral da República) não informou, contudo, os nomes dos alvos dos mandados de prisão.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Carlos Marun (MDB), disse nesta quinta que a prisão de amigos de Michel Temer não enfraquece o governo e ironizou as investigações sobre supostas ligações entre o presidente e a Rodrimar, empresa do setor portuário. "É como se estivesse investigando o assassinato de alguém que não morreu", disse Marun durante um evento em Florianópolis.

Suposto pagamento de propina a Temer

Os presos de hoje estão envolvidos no chamado inquérito dos portos, que investiga se o presidente Temer cometeu crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro ao editar um decreto que teria favorecido empresas do setor portuário.

O decreto aumentou o prazo dos contratos de concessão de áreas portuárias de 25 para 35 anos, podendo ser prorrogados até 70 anos. Isso beneficiaria as atuais empresas concessionárias. Por isso, a PF investiga, desde setembro de 2017, se a empresa Rodrimar pagou propina a Temer para ser beneficiada.

Desde a abertura do inquérito, o Palácio do Planalto afirma que o decreto havia sido assinado após "longo processo de negociação" entre o governo e o setor portuário e que Temer prestaria todos os esclarecimentos necessários.

À PF, no início deste ano, Temer afirmou que a Rodrimar não foi beneficiada com o decreto "conforme demonstram os documentos do Ministério dos Transportes constantes dos autos de investigação e complementados pelos que estão sendo feitos em separado, por petição", disse.