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Planalto diz que crise pode unir, mas parlamentares "decretam" fim do governo Temer

Para Marun, a crise pode unir base aliada e "até oposição". Parlamentares discordam - Pedro Ladeira - 12.abr.2018/Folhapress
Para Marun, a crise pode unir base aliada e "até oposição". Parlamentares discordam Imagem: Pedro Ladeira - 12.abr.2018/Folhapress

Luciana Amaral e Gustavo Maia

Do UOL, em Brasília

29/05/2018 19h02Atualizada em 29/05/2018 21h06

Enquanto o Planalto diz que a crise dos caminhoneiros pode unir o Congresso Nacional, parlamentares ouvidos pelo UOL nesta terça-feira (29) decretaram o fim simbólico do governo do presidente Michel Temer (MDB).

Pela manhã, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun (MDB), responsável pela articulação política do Planalto, disse que a crise pode, ao invés de separar, unir governo, base aliada e até oposição para resolver o atual impasse causado pela paralisação de parte de caminhoneiros.

“No lugar de separar, pode até unir. Unir forças políticas em torno de algumas propostas que nós sabemos que são necessárias. [Ontem] senti esse espírito”, declarou.

Marun preferiu não estimar o impacto da crise na base aliada e defendeu que o governo é “vitorioso” no relacionamento com o Parlamento. Parte das dificuldades vividas pelo Planalto no Congresso neste ano, justificou, advém de interesses políticos para a eleição de outubro deste ano.

À reportagem, deputados e senadores falaram que o Planalto não será mais capaz de defender seus interesses no Congresso tanto pela ampla impopularidade do presidente quanto pelo fim do capital político sustentado na economia, que a greve dos caminhoneiros atingiu.

Embora tenham ressaltado o enfraquecimento de Temer, todos rechaçaram com veemência a possibilidade de uma intervenção militar e falaram que a solução para a crise no Brasil só será resolvida por meio da política.

“Governo frágil” e “incapaz”

Para o senador Agripino Maia (DEM-RN), este é um governo frágil, "que perdeu as condições de fazer as reformas e vai cumprir o tempo até o final".

Sobre a possibilidade de Temer não terminar seu mandato, seja por meio de afastamento após uma eventual terceira denúncia da PGR ou por pressão popular, agravada pela crise dos caminhoneiros, o parlamentar optou pela diplomacia.

“É uma crise de tal forma grave que quem se aventurar a botar a última gota d’água no copo já cheio, vai estar jogando contra o país", declarou ao UOL. “A própria rua já refletiu que se você apoiar movimento A, B ou C você vai jogar contra si próprio, contra sua família”, acrescentou.

Líder da bancada do PSB na Câmara, que faz oposição ao Planalto, o deputado Júlio Delgado (MG) é categórico em sua avaliação: “o governo do Temer acabou, perdeu legitimidade, credibilidade e acima de tudo respeito por parte da sociedade”.

Segundo o parlamentar, já não há mais no Congresso ninguém disposto a defender o governo, mesmo com a presença dos líderes da base nas sessões. Desta forma, avalia ele, Temer não suportaria uma eventual terceira denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República).

“Se nós que votamos a favor do impeachment da Dilma por ter se esgotado a capacidade de governo dela, muito maior é a incapacidade do governo Temer. Vamos esperar agora chegar Copa, período eleitoral e ir se arrastando até dezembro?”, questionou, frisando que a saída tem que ser pela política, rechaçando qualquer “caminho intervencionista”.

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Fábio Ramalho (MDB-MG), afirmou que os parlamentares estão assustados com a falta de informação e comunicação por parte do Planalto perante o Congresso. Segundo ele, o governo “vem mal há muito tempo”, mas agora não deverá mais conseguir aprovar matérias de seu interesse na Câmara.

“[A Câmara] só vai aprovar matérias de interesse da população de agora em diante. A privatização da Eletrobras, esquece. As Medidas Provisórias aprovadas nesta segunda só foram por apelo popular”, disse. Em um ano eleitoral como 2018, parlamentares costumam focar no pleito e evitar medidas impopulares.

Ramalho ainda criticou o que chamou de “incompetência” do Planalto em prever o tamanho da insatisfação dos caminhoneiros e o aumento constante nos preços dos combustíveis por parte da Petrobras na gestão de Pedro Parente. Para o deputado, Temer já deveria tê-lo demitido para “mostrar autoridade”. A ideia é fortemente rechaçada pelo Planalto.

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Sobram críticas à atuação de Pedro Parente por parte de parlamentares
Imagem: Marcello Dias/Futura Press/Estadão Conteúdo

Líder em exercício do PT na Câmara, o deputado Carlos Zarattini (SP) afirmou que o governo Temer "já tornou a situação do Brasil pior do que a Venezuela".
De acordo com o petista, "para manter Pedro Parente na presidência da Petrobras, esse governo cede a qualquer coisa". Manifestando o que classificou como uma posição muito forte no Parlamento, e não só no PT, também pediu o afastamento urgente do presidente da estatal.

Maia critica governo, mas pede fim da greve

Desde a semana passada, o pré-candidato à sucessão de Temer e presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), vem tecendo duras críticas ao governo. Ele disse que a Câmara não votará aumento de impostos, as Forças Armadas não deveriam ter sido convocadas e que o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, não manda no Congresso Nacional, além de ser “irresponsável”.

“Aliás, o que ele fez ontem [segunda] foi muito irresponsável, num momento de crise em que está se tentando debelar, diminuir a mobilização, tentar colocar o Brasil no eixo novamente, ele vem falando de aumento de imposto”, declarou Maia.

A Câmara realizou nesta terça uma comissão geral no plenário para debater os aumentos dos preços dos combustíveis. O colegiado havia sido anunciado por Maia na semana passada e o gesto foi visto por integrantes do Planalto como tentativa de se antecipar ao governo e se posicionar como um dos interlocutores da greve.

Apesar das críticas, Maia se reuniu pelo menos duas vezes com Temer nesta semana. Nesta terça, após reunião no Palácio do Planalto também com o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), eles divulgaram nota conjunta conclamando a todos os envolvidos nas manifestações pelas rodovias do país a “retornarem ao trabalho e propiciar normalidade à vida de todos os brasileiros”. Na nota, eles ressaltam que as reivindicações da classe foram atendidas.

“Há necessidade indispensável de abastecer todos os setores da economia nacional, particularmente aos que dizem respeito a alimentação, medicamentos e combustíveis. Importante ainda evitar que, tendo alcançado seus objetivos, esse movimento venha a ser usado com objetivos políticos”, escreveram.

Bancada do DEM defende postura de Maia

O ex-ministro da Educação de Temer e agora deputado federal Mendonça Filho (DEM-PE) disse que o momento é de pedir serenidade tanto aos políticos quanto à população, e o Congresso Nacional está “fazendo sua parte” ao votar projetos que buscam atender as reivindicações dos grevistas.

Quanto a Maia, afirmou que este tem de manter diálogo aberto do Legislativo com os demais poderes – Executivo e Judiciário –, e está concentrado somente nisso. Mendonça Filho negou que Maia tenha se aproveitado para se posicionar eleitoralmente. Segundo ele, o país está se encaminhando para o fim da crise e não cabe pensar em disputas eleitorais agora.

O deputado Alberto Fraga (DEM-DF) falou que Maia cumpre sua tarefa como presidente da Câmara e estava correto ao se posicionar contra o aumento de impostos. Fraga disse que a Petrobras deveria ter se prevenido quanto às altas frequentes dos preços dos combustíveis. Ele ainda afirmou que o acordo negociado pelo governo pode se tornar insuficiente ao curto prazo.

“Se o barril de petróleo continuar subindo, os 46 centavos vão ser pulverizados”, comentou.

O deputado Fábio Garcia (DEM-MT) ponderou que Rodrigo Maia tem tido postura “bastante favorável ao país” e usa sua capacidade de dialogar com todos os poderes em favor da resolução da crise.

“Antes de aumentar os impostos no país, os subsídios fiscais têm de ser retirados, revistos”, defendeu, como Maia.