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Bolsonaro compara Bolsa Família a "tipo de condução coercitiva" do PT

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

16/08/2019 12h37Atualizada em 16/08/2019 15h30

Em evento com discursos políticos em tom superior aos usualmente proferidos hoje no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) comparou o programa social Bolsa Família a uma espécie de condução coercitiva do PT (Partido dos Trabalhadores) com objetivos eleitorais.

"Eu lembro que, num debate de 2014, uma candidata bateu no peito e disse que 'no nosso governo 50 milhões de pessoas vivem do Bolsa Família'. Obviamente, muita gente humilde necessitava até disso daí. Mas outra parte, não. Porque não era também estimulada a sair desse tipo de condução coercitiva, vamos por assim dizer", declarou Bolsonaro, em referência à Dilma Rousseff (PT), presidente da República à época, que disputava a reeleição.

A condução coercitiva acontece quando uma pessoa precisa ir prestar esclarecimentos sobre algo, mesmo contra a sua vontade, por determinação de autoridade judicial.

Segundo Bolsonaro, "para esses que até há pouco dominavam o país", era importante que pessoas pobres e sem estudo formal tivessem em "uma das mãos o título de eleitor e, na outra, o cartão de um programa assistencial". Em seguida, defendeu que apenas a educação pode tirar a população da miséria.

"Em alguns casos [os programas] são necessários até pela idade e pela condição da pessoa, mas não podemos crescer pensando nisso", afirmou.

Ao longo do discurso, ele fez mais críticas aos ex-presidentes petistas Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e avaliou que, apesar dos supostos esforços negativos dessas gestões, "alguns garotos conseguiram se liberar dessa cangalha imposta pela esquerda no Brasil".

Em determinado momento, citou que, se o evento fosse há quatro anos, quando Dilma estava no poder, "talvez tivéssemos dois homens se beijando aqui na frente". Depois, falou ter "nada contra quem quer ser feliz com parceiro igual a si", mas que o governo não pode "impor isso daí" e criticou livros didáticos que supostamente estimulariam crianças ao sexo de forma precoce.

Ele voltou a afirmar que a Argentina poderá se encontrar na mesma situação que a ditadura venezuelana no futuro se a chapa de Alberto Fernández e Cristina Kirchner vencer as eleições presidenciais deste ano --uma prévia eleitoral já foi ganha pela dupla. Após mais críticas a políticos socialistas, Bolsonaro encerrou o discurso sob gritos de "mito" pelo público, formado majoritariamente por parlamentares aliados e funcionários do Planalto.

O presidente participou de cerimônia para celebrar o Dia Internacional da Juventude, comemorado todo 12 de agosto. Um coral de crianças atendidas pelo Profesp (Programa Forças no Esporte), do governo federal, cantou o Hino Nacional e outras músicas. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, e a ministra dos Direitos Humanos, Damares Alves, citaram ações do governo voltadas a essa parcela da sociedade.

Cortes de bolsas

Em entrevista a jornalistas logo após o evento, ao ser questionado sobre cortes de bolsas do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) por falta de orçamento, Bolsonaro disse que "o Brasil todo está sem dinheiro".

"Em casa que falta pão, todos brigam e ninguém tem razão. Os ministros estão apavorados. Nós estamos aqui tentando sobreviver ao corrente ano. Não tem dinheiro. Eu já sabia disso e fui fazendo milagre, conversando com a equipe econômica com o que podemos fazer para sobreviver", falou.

Ele acrescentou que o Exército vai entrar em escalas de trabalho de meio expediente por não ter dinheiro de comida aos recrutas, que é "filho de pobre". "A situação em que nos encontramos é grave, não há maldade da minha parte, não tem dinheiro, só isso, mais nada", completou.

Condenações na família de Michelle

O presidente também criticou reportagem da revista Veja que mostra problemas jurídicos da família da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Ele confirmou a veracidade das informações publicadas, mas questionou se é justo divulgá-las.

O texto mostra que Maria Aparecida Firmo Ferreira, avó de Michelle, foi presa por três anos após condenação por tráfico de drogas, enquanto a mãe da primeira-dama já foi processada por falsidade ideológica. O caso acabou sendo arquivado.

"A matéria não é mentirosa, é verdadeira. A avó dela aos vinte e poucos anos foi condenada por tráfico de drogas. Três anos de cadeia. Cumpriu. Agora, é justo levantar isso? É uma senhora que já tem seus problemas, pela idade, na faixa dos 80 anos, e agora está todo mundo sabendo na vizinhança que foi condenada no passado e cumpriu três anos de cadeia", afirmou.

"Como vocês acham que está a cabeça dela [da Michelle] neste momento? Qual o ganho jornalístico disso? [...] A mãe dela também a mesma coisa. O processo por falsidade ideológica. Respondeu e foi arquivado. Para quê esculachar minha esposa? Dizer que ela não tem legitimidade para fazer o trabalho social que ela faz? Ela está abatida, arrasada. Para quê isso, porra? Para quê isso, porra? Tem um tio foragido. [...] Se procurar, vai achar mais coisa de parente, mas para quê isso?", acrescentou.

Ontem, o UOL mostrou que Bolsonaro não pretende oficializar Michelle como embaixadora de projetos sociais por medo do que classificou como "fuxico".

Bolsonaro crtitica reportagem sobre família de primeira-dama

UOL Notícias

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido até filiar ao PL para disputar a eleição de 2022, quando foi derrotado em sua tentativa de reeleição.