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Reunião teve discussão sobre cassinos: "Pacto com o diabo", reagiu Damares

Allan Simon e Arthur Sandes

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/05/2020 18h17

O conteúdo da reunião ministerial do dia 22 de abril foi tornado público hoje (22) por causa de uma investigação, mas uma das conversas mostradas no vídeo completo tem mais a ver com cassinos do que com uma possível intervenção do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na Polícia Federal. Em meio às discussões, uma ideia do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, deixou horrorizada a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Marcelo Álvaro Antônio sugeriu a Bolsonaro a criação de resorts, avisando de antemão que falava "também para a ministra Damares" por ser "uma pauta muito sensível à ela". "Não é legalização de jogos, não é bingo, não é caça-níquel, são resorts integrados. Obviamente é uma pauta que precisa ser construída com as bancadas evangélica, católica... A Damares está olhando com cara feia para mim", disse o ministro do Turismo, interrompendo a si mesmo.

Ele concluiu o raciocínio, falou da "oportunidade para o Brasil atrair grandes complexos" e depois de encerrar ouviu Damares Alves rebater de pronto. "Pacto com o diabo!", disparou a ministra.

"Não. Não é bem isso, né? Vou ter que começar a desmistificar para a Damares aqui. Estou vendo isso", respondeu Marcelo Álvaro Antônio.

A reação de Damares Alves foi a deixa para o vice-presidente Hamilton Mourão fazer uma piada. Não é possível ouvir o início da frase, mas ela termina com "Damares para jogar uma roleta". Em seguida a sala caiu na risada.

"(Eu) num (sic) tô dizendo que a gente tem que colocar isso como um projeto de ... de governo, obviamente, mas abrir esse debate em torno dos resorts integrados", completou o ministro do Turismo, que ouviu de Walter Braga Netto uma promessa de reunião para tratar sobre o tema.

"O sonho do presidente é transforma o Rio em Cancún"

Em outro momento da reunião, o ministro da Economia, Paulo Guedes, tomou partido na discussão em torno dos jogos de azar — que são proibidos no Brasil desde 1946.

"Tem problema nenhum. São bilionários, são milionários, executivos do mundo inteiro. O cara vem, faz convenções... Olha o turismo de Cingapura: saiu de 5 milhões para 30 milhões por ano, e o Brasil recebe 6 milhões. O sonho do presidente de transformar o Rio de Janeiro em Cancún, Angra dos Reis em Cancún... Aquilo pode virar Cancún rápido", afirmou Guedes, dizendo que "o cara entra, deixa a grana que ele ganhou anteontem lá, bebe e sai feliz da vida".

Percebendo que Damares Alves se remexia na cadeira, Paulo Guedes passou a falar diretamente para ela. "Aquilo não atrapalha ninguém. Deixa cada um se foder... Ô Damares. Damares, deixa cada um se foder do jeito que quiser. Se o cara é maior [de idade], vacinado e bilionário, deixa o cara se foder, pô!", argumentou o ministro.

Damares Alves então respondeu na sequência, ponderando que os cassinos poderiam funcionar "se a CGU (Controladoria-Geral da União) concordar" e "se tiver como controlar a entrada e a saída do dinheiro", mostrando preocupação quanto à possibilidade de alguém "lavar dinheiro sujo lá".

A reunião

A reunião ministerial de 22 de abril está no centro de um inquérito aberto no STF, a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República), para apurar as declarações de Sergio Moro no dia em que pediu demissão do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O ex-ministro denunciou uma suposta interferência política de Bolsonaro na Polícia Federal com a exoneração do então diretor-geral Maurício Valeixo.

O vídeo é considerado como uma das principais provas para sustentar a acusação feita por Moro de que o presidente tentou interferir no comando da PF e na superintendência do órgão no Rio, fatos esses investigados no inquérito relatado pelo decano do STF.

Depoimentos

Os ministros generais Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno (GSI) e Walter de Souza Braga Netto (Casa Civil) prestaram depoimento no âmbito dessa investigação. Os três foram citados por Sergio Moro como testemunhas da suposta tentativa de interferência do presidente verbalizada durante a reunião.

O general Heleno disse à Polícia Federal que sabia do impasse entre Jair Bolsonaro (sem partido) e Sergio Moro em relação ao comando da PF, mas afirmou que "nunca entendeu" o motivo da insatisfação do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública.

Já o general Ramos disse aos investigadores considerar "evidente" o aborrecimento de Moro com o interesse de Bolsonaro em substituir a chefia da Polícia Federal. Ele afirmou ainda que, por iniciativa própria, tentou contornar a situação e chegou a ligar para o ex-ministro da Justiça em busca de uma solução. O telefonema teria ocorrido sem o conhecimento do presidente.

Por fim, Braga Netto afirmou que o presidente havia revelado na reunião ministerial sua intenção de trocar a "segurança do Rio de Janeiro", referindo-e à segurança pessoal dele, a cargo do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), não tendo relação com a Polícia Federal.

A deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) e os delegados Carlos Henrique Oliveira de Sousa (ex-chefe da PF no Rio) e Alexandre da Silva Saraiva (cotado por Bolsonaro para chefiar a PF fluminense) também prestaram depoimento à Polícia Federal.

Zambelli (PSL-SP) precisou esclarecer a troca de mensagens Moro em que pediu a ele que aceitasse a mudança na direção-geral da PF solicitada por Bolsonaro em troca de uma vaga no STF. A deputada afirmou que falou com o ministro apenas como "ativista", sem ser enviada pelo Planalto, e que sua frase seria apenas uma sugestão, e não um acordo.

Alexandre Ramagem, que chegou a ser nomeado por Bolsonaro para chefiar a PF após a demissão de Valeixo, mas não assumiu o cargo após ter sua nomeação suspensa pelo STF, também prestou depoimento. Ele defendeu o presidente e investiu contra Sergio Moro, dizendo que o ex-ministro criou uma "celeuma entre Poderes da União" e que deveria "se ater a princípios e valores de hierarquia, lealdade e preferência da lei". Ramagem ainda negou que seja amigo da família Bolsonaro.