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Bolsonaro silencia sobre protestos, e filhos saem em defesa do pai

29.mai.2021 - Flávio Bolsonaro provoca manifestantes em carreata anti-Bolsonaro em Porto Velho (RO) - Reprodução
29.mai.2021 - Flávio Bolsonaro provoca manifestantes em carreata anti-Bolsonaro em Porto Velho (RO) Imagem: Reprodução

Lola Ferreira e Rafael Neves

Do UOL, no Rio e em Brasília

30/05/2021 19h55Atualizada em 30/05/2021 19h55

Alvo de protestos que levaram ontem milhares de pessoas às ruas em todos os estados do país, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) permanece em silêncio, passado mais de um dia das manifestações.

Até o momento, o papel de defender o governo federal nas redes sociais e tentar minimizar a dimensão dos atos coube a seus três filhos e a aliados mais próximos. Os filhos de Bolsonaro criticaram a cobertura da imprensa e a dimensão dos atos, e um deles até provocou manifestantes em ato em Rondônia.

Durante uma carreata contra o governo Bolsonaro em Porto Velho (RO), o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), de dentro de um carro, virou-se para os veículos que vinham atrás e fez um sinal de arma com as mãos, um dos símbolos dos eleitores de Bolsonaro.

Nas redes sociais, o mais empenhado na defesa do governo é Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Desde ontem, o vereador do Rio tem usado o Twitter para atacar os protestos. O principal alvo do segundo filho do presidente é a cobertura da imprensa que, segundo Carlos, minimiza os atos a favor de Bolsonaro, em especial o passeio de motocicleta que o presidente deu com apoiadores no último fim de semana, no Rio, enquanto valoriza os protestos contrários.

23.mai.2021 - Bolsonaro de moto em manifestação no Rio de Janeiro - ERBS JR./FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO - ERBS JR./FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO
23.mai.2021 - Bolsonaro de moto em manifestação no Rio de Janeiro
Imagem: ERBS JR./FRAMEPHOTO/FRAMEPHOTO/ESTADÃO CONTEÚDO

Na tarde de hoje, Carlos reproduziu uma postagem que acusa a esquerda de "fazer malabarismo para justificar a aglomeração" nos atos anti-Bolsonaro.

Segundo o vereador, o discurso dos manifestantes tem apenas a intenção de culpar Bolsonaro pelo estrago da pandemia. "É pura e simplesmente para destruição do país e manutenção de narrativa para alcançar o objetivo desejado!", escreveu.

Assim como na "motociata" de Bolsonaro, houve registros de aglomerações nos atos de ontem. Contudo, diferentemente das manifestações favoráveis ao presidente, o uso de máscara foi massivo e a organização procurou orientar o distanciamento social, distribuindo máscara e álcool gel.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) preferiu, também por meio do Twitter, minimizar o tamanho dos protestos de sábado (29).

O parlamentar reproduziu um vídeo com trechos selecionados para dar a impressão de que os atos foram esvaziados. E escreveu: "A esquerda só critica aqueles que vão as [sic] ruas porque não consegue levar quase ninguém para as ruas".

No entanto, os protestos contra seu pai foram pulverizados em cidades em todos os estados brasileiros e em capitais como São Paulo, Rio e Porto Alegre atraíram milhares de pessoas.

Até agora, Bolsonaro não comentou diretamente as manifestações, apenas publicou uma foto em rede social na qual aparece com uma camiseta com os mesmos dizeres que já falou em outras ocasiões: "Imorrível, imbroxável, incomível".

Protestos dividem integrantes da CPI da Covid

Para políticos da base governista ouvidos pelo UOL, a oposição perdeu o direito de criticar o presidente em razão das aglomerações verificadas ontem.

"É impossível, num movimento de manifestação, com muita gente, fazer controle de isolamento social. Isso é hipocrisia", critica o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), membro da bancada evangélica e da base aliada do governo.

"Mas isso foi ótimo, mostrou o quanto é hipócrita o discurso de chamar o presidente de genocida e fazer aglomeração", avalia.

A comparação entre as manifestações contra e a favor do governo é rechaçada pela oposição.

Organizadores do ato em Brasília tentaram marcar distanciamento entre os participantes com fitas no chão - Rafael Neves/UOL - Rafael Neves/UOL
29.mai.2021 - Manifestantes protestam contra Bolsonaro em Brasília
Imagem: Rafael Neves/UOL

Para a presidente nacional do PT e deputada federal Gleisi Hoffmann, que esteve no ato em São Paulo, as manifestações foram um sintoma de cansaço da população com a postura do governo no combate à pandemia.

"Todos sabíamos do risco, por isso orientamos a militância para se proteger e tentar manter distanciamento social", afirma Gleisi.

"Agora, o pessoal fez isso porque está todo mundo cansado, exaurido do sofrimento, de ficar olhando isso tudo acontecer. Não haver manifestações mais contundentes seria irresponsabilidade nossa."

A ida dos antibolsonaristas às ruas também divide integrantes da CPI da Covid. O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) diz condenar os protestos de ambos os lados.

"Entendo que neste momento nenhuma aglomeração deve ser incentivada, tanto faz a cor ideológica", opina.

Já o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da comissão no Senado, viu os protestos como consequência da "pulsão de morte" de Bolsonaro.

"Esses atos não aconteceram para acelerar o desgaste do governo, não. Eles são consequência desse clamor de pessoas que perderam entes queridos, outras que estão sequeladas e outras que estão com medo de morrer, já que o governo não comprou vacina na hora certa", avalia Renan.