Armas não letais que matam

Repressão policial deixa mortos e feridos na América Latina, enquanto governos enriquecem empresa brasileira

Juliana Dal Piva, José Dacau, Bárbara Libório, Naomi Matsui e Rubens Valente Colunista do UOL, do UOL, em São Paulo, e colaboração para o UOL* Yasmin Ayumi/UOL

Quase dois anos antes de se tornar a senadora mais votada do Chile, a operária e ativista social Fabiola Campillai ficou cega ao ser atingida no rosto por uma granada de gás lacrimogêneo atirada por um policial daquele país. Uma investigação do Ministério Público do Chile encontrou documentos que apontam que o carabineiro responsável pelo ataque portava naquele dia granadas do tipo GL-203-L, fabricadas pela empresa brasileira Condor Tecnologias Não Letais. Com essas provas e vídeos do momento da agressão, ele foi denunciado ao Judiciário chileno por causar lesões muito graves e pode pegar de 12 a 15 anos de prisão.

A propaganda da indústria bélica em torno das "armas não letais" afirma que esses artefatos "salvariam vidas" ao serem usados no lugar das armas de fogo. Junto ao governo federal, esse discurso ajuda as empresas do setor a conseguir vantagens econômicas, a exemplo de eliminação de impostos. Esta reportagem, resultado de uma investigação colaborativa e transfronteiriça liderada pelo CLIP (Centro Latino-Americano de Investigação Jornalística), em parceria com o UOL, Interferência de Chile e outros nove meios de comunicação na América Latina e nos Estados Unidos, revela que o marketing de empresas como a Condor é desmentido pela realidade.

Fabiola Campillai está longe de ser a única chilena ou mesmo latino-americana ferida gravemente por "armas não letais". E há quem tenha morrido: levantamento inédito mostra que pelo menos 33 pessoas morreram ao serem atingidas por esse tipo de armamento em oito países, desde o ano de 2017. O total de feridos graves alcança a 170 pessoas. No Brasil, foram 13 mortos e dez feridos graves.

Só no Chile, entre outubro de 2019 e março de 2020, o Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) registrou 325 casos como o de Campillai, pessoas que apresentaram queixas por ferimentos causados por bombas de gás lacrimogêneo durante os protestos chilenos. Uma pessoa morreu, 15 tiveram uma explosão do globo ocular, sendo que seis perderam a visão em um ou dois olhos. Outras dez tiveram trauma ocular.

E, mesmo que outras empresas também operem no setor, uma das maiores presenças na América Latina é da brasileira Condor. O Chile, por exemplo, gastou um total de US$ 5,6 milhões em bombas de gás lacrimogêneo entre 2019 e 2021. Destes, US$ 4,1 milhões foram gastos com munição desse tipo adquirida junto à Condor. Produtos da empresa também estiveram presentes em protestos em Bolívia, Guatemala, Venezuela e Equador.

Documentos descobertos pela reportagem mostram ainda que alguns modelos de armas vendidas no Brasil e que, segundo a própria Condor também seriam vendidos ao exterior, foram reprovados em testes para avaliar padrão técnico considerado adequado e seguro pela Polícia Militar de São Paulo.

O mesmo modelo de granada apontado no caso da senadora chilena não foi aprovado pela corporação. Um policial chegou a ser ferido no pescoço durante os testes, o que foi considerado grave pela instituição.

O Exército brasileiro, responsável por fiscalizar as exportações de armas, disse, em nota ao UOL, que não tem conhecimento sobre as diferenças de padrão nas vendas de Condor. A Condor nega que venda armamentos defeituosos, mas admite que customiza suas munições a pedido dos clientes.

Sequelas

Era 26 de outubro de 2019 quando um policial chileno atirou uma granada em direção ao rosto de Fabiola Campillai, que estava a cerca de 50 metros de distância. Ela aguardava um ônibus para ir ao trabalho. Teve traumatismo craniano e perda de massa encefálica. Sobreviveu. E depois de dez cirurgias, lida com as sequelas. A mais grave é a cegueira nos dois olhos.

Ela já fazia trabalho social no bairro de San Bernardo, na capital Santiago, onde vivia. As consequências da agressão mudaram sua vida para sempre e a levaram a disputar uma cadeira no Parlamento chileno. Ela foi eleita em novembro de 2021 ao receber 402 mil votos, cerca de 100 mil a mais do que o segundo mais votado.

"Temos que ter em mente que essas armas não são letais dependendo do uso a que se destinam. Na minha pessoa, essa arma poderia ter sido letal, não fosse a reação rápida da minha família e meus vizinhos", disse a senadora.

A brutal violência contra os milhões de manifestantes no Chile, que contestavam diferentes problemas sociais, levou as autoridades a apurar as responsabilidades dos policiais. Em uma das investigações, o MP chileno identificou o policial responsável pelo disparo contra a senadora, o ex-capitão Patrício Maturana, e o armamento chamado eufemisticamente de "não letal".

O julgamento de Maturana começou em maio de 2022. Os advogados que atuam em sua defesa questionam a investigação e apresentaram documentos da polícia chilena nos quais se anotou, no dia seguinte à agressão à ativista, que Maturana teria disparado uma granada da americana Combined Systems no dia 26 de outubro.

No entanto, antes de sair para as ruas no dia em que Campillai ficou ferida, o próprio Maturana assinou um documento informando que deixou a sede policial com 10 bombas GL-203-L da Condor. Com isso e imagens do ataque, ele foi denunciado pelos promotores locais. Ele chegou a ficar detido em um presídio, mas agora cumpre prisão domiciliar.

No Brasil, um caso recente chocou o país. Genivaldo de Jesus Santos morreu asfixiado após policiais o prenderem pelas mãos e pelas pernas dentro de uma viatura da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e jogarem uma granada de gás lacrimogêneo. A reportagem questionou a PRF sobre a marca do gás, mas não obteve resposta. No entanto, o UOL identificou que o órgão costuma usar equipamentos da Condor. De 2018 a 2020, a PRF fechou 16 contratos com a empresa, em um valor total de R$ 6,6 milhões.

Armas reprovadas

A partir de um cruzamento de dados entre os tipos de armas dos testes da Polícia Militar paulista e os processos judiciais de vítimas de "armas não letais", foi possível descobrir que uma granada reprovada em SP, a GL-203-L, também é do mesmo modelo que estava com o policial que atacou a senadora chilena Fabiola Campillai em 2019.

Em 2020, a PM-SP reprovou 150 mil balas de borracha e ainda lotes com cinco tipos diferentes de um total de 70 bombas de gás e de efeito moral. Com acesso ao processo, obtido por meio da Lei de Acesso à Informação, foi possível verificar que, após uma série de testes, o Centro de Material Bélico da PM paulista avaliou que as armas foram produzidas fora das especificidades técnicas consideradas seguras pela PM paulista.

Além disso, no teste de campo, uma das granadas fez um corte considerado grave no pescoço de um dos policiais que participavam da avaliação. Em dezembro de 2020, a PM optou por encerrar o contrato unilateralmente e devolver toda a munição.

Nos documentos do processo, foi possível verificar que a própria Condor admitiu que as razões da preocupação da polícia paulista vinham das centenas de pessoas cegas por balas de borracha no Chile. A reportagem verificou ainda que outros 17 estados no Brasil utilizam itens dos mesmos modelos reprovados nos testes paulistas.

Negociações de armas na pandemia

No início da pandemia, a PM de São Paulo decidiu reforçar os estoques de "munições não letais". Assim, deu início às negociações com a Condor em 23 de março de 2020. O total negociado foi de R$ 21 milhões (US$ 4,2 milhões).

Na proposta de compra de armas, a Polícia Militar de São Paulo descreveu que o estado concentrava a maior quantidade de infectados por covid-19 e que "já estavam sendo registrados casos de saques e furtos a estabelecimentos comerciais". Pela urgência, a ideia era fazer a negociação por inexigibilidade, quando a competição não é possível mediante uma licitação pública devido à exclusividade do produto ou à falta de concorrentes.

Assim, no fim de abril de 2020, a Condor enviou uma carta com as intenções de venda, mas a PM paulista recusou porque identificou diferenças de padrão, aumento dos preços negociados anteriormente e também um prazo de 60 dias para entregar os produtos. A polícia não queria esperar.

Em 1º de junho, a Condor respondeu novamente que sua proposta tinha munições que eram "produtos de exportação, com diferenças do padrão usualmente aceito no Brasil e pela Polícia Militar de São Paulo".

A empresa citou uma reunião em 27 de maio de 2020 com representantes da Condor e da PM na qual a empresa teria dito que entendeu os motivos da recusa, mas ressaltou que, com a negativa da PM paulista, "os referidos produtos foram finalmente liberados para seus processos de fornecimento a clientes internacionais e não mais se encontram disponíveis".

As negociações continuaram. Após esse informe da Condor, em junho de 2020, a PM aceitou parcialmente uma nova proposta da empresa e elencou produtos que queria adquirir entre 150 mil balas de borracha e diferentes tipos de 70 bombas de gás.

Algumas semanas passaram e a PM testou o material entregue pela Condor. Em 11 de agosto, foi entregue um relatório referente aos testes de recebimento das balas de borracha do modelo AM-403/P. A PM avaliou o material e produziu um relatório no qual apontou diversas irregularidades nessa munição e reprovou o lote, exigindo, por meio de notificação, que a Condor o substituísse em 15 dias.

Segundo relatórios do tenente Murilo Frigeri, as balas de borracha estavam irregulares em relação à velocidade atingida, peso e comprimento e, além disso, tinham corrosões na espoleta. Os policiais relataram ainda que os traumas verificados eram superiores ao que estava descrito na patente da munição que é de produção exclusiva da Condor, "não cumprindo assim os critérios de confiança e confiabilidade estipulados pela própria fabricante". Ou seja, eles produziam ferimentos maiores do que os previstos.

Na sequência, dez dias depois, em 21 de agosto, a PM de SP fez testes nas bombas de gás e elas também foram reprovadas. Foram consideradas inaptas as munições de modelos GL-300/T, GL-300/TH e GL-203/L. Os policiais pediram a substituição dos lotes de granadas GL-300/TH e de granadas GL-203/L em 15 dias e decidiram fazer nova inspeção das granadas GL-300T. No entanto, todas foram novamente reprovadas.

As três apresentavam problemas de peso e tinham "mossas", termo técnico para fazer referência a marcas que mostram que o material estava amassado.

Especialistas em armas ouvidos pela reportagem, anonimamente, contaram que a identificação dessas "mossas" é importante porque, eventualmente, elas podem gerar aumento da pressão interna das granadas e até provocar algum rompimento ou vazamento.

Também foram feitos testes de campo com a GL-307 em setembro e outubro. Foi constatado que as granadas desse tipo estavam "com o diâmetro ligeiramente superior às tolerâncias descritas nas especificações técnicas", que o tempo médio de retardo estava superior ao permitido e que algumas amostras lançaram fragmentos a distâncias superiores ao limite de segurança especificado pela empresa, ou seja, dez metros.

Um novo teste foi feito e os resultados foram novamente encontrados. "Todas as amostras emanaram fragmentos acima dos 10 m (dez metros) do local da explosão, sendo que o fragmento da amostra "3" atingiu a face do Cb PM Rômulo durante a realização dos testes, o qual teve que ser socorrido ao Hospital da Polícia Militar", apontou a PM no relatório. Além disso, concluiu: "O acidente com o Cb PM Rômulo veio a comprovar que os fragmentos decorrentes da explosão da granada podem gerar lesões de natureza grave".

No caso dos testes com as granadas GL-201, a PM identificou no relatório que elas também apresentavam um "tempo de retardo", uma referência ao intervalo até que a bomba exploda, superior ao exigido. Os policiais explicaram por que isso é um problema. "Possibilita que oponentes à ação policial arremessem as granadas na direção dos policiais ou para longe, podendo inviabilizar alguma via de fuga."

Outro problema verificado foi que a granada não atingiu a distância pretendida, o que prejudica, na avaliação da PM, o "planejamento da operação, pois pode conduzir a turba para direções não pretendidas ou obstruir uma via de fuga, levando a multidão ao pânico e a aglomerações indesejadas, gerando pisoteamento, excesso de violência, lesões graves e morte".

A empresa voltou a dizer que as especificações que a PM-SP cobrava não tinham sido atendidas devido à pressa na aquisição, no início da negociação, e que o material estava em acordo com os pedidos de seus clientes internacionais. A PM paulista não aceitou as justificativas dizendo que precisava trabalhar dentro de uma situação de controle de seu material, até por segurança dos policiais.

Por fim, em dezembro de 2020, a PM-SP decidiu encerrar o contrato unilateralmente e devolver todo o material. Nessa época, também foi informado que a polícia pretendia devolver um total de 125 mil balas de borracha adquiridas em anos anteriores junto com os lotes recusados. Desse modo, a devolução somou 275 mil artefatos desse tipo.

Após ser comunicada das decisões, a Condor entrou com recursos para reverter a rescisão. Em 16 de junho de 2021, o CEO da Condor, Carlos Erane Aguiar, enviou uma carta ao Comando da PM de SP para tentar novos testes nas munições. Na ocasião, ele próprio escreveu que a polícia estava mais cautelosa com as munições devido às centenas de pessoas que ficaram cegas por balas de borracha nos protestos no Chile.

Assim, ao longo do ano de 2021, a empresa e a PM paulista negociaram a substituição das armas por novas munições que foram testadas no início de 2022. No entanto, até o momento, apenas as novas balas de borracha AM-403/P, produzidas com aperfeiçoamento, segundo a Condor, foram aprovadas pela polícia. As granadas de gás foram novamente barradas em testes realizados no Rio de Janeiro.

A reportagem procurou os policiais que participaram da produção dos relatórios, mas eles não quiseram falar do episódio.

Ao verificar os problemas da Condor no contrato com a PM, o UOL também descobriu no Tribunal de Justiça de São Paulo que existiam outros casos de problemas com armas da Condor. Um episódio ocorreu em 20 de fevereiro de 2019, com um spray GL-108, também fabricado pela empresa, e que estava na mochila do policial paulista Dauri Faria, em Caçapava, no interior de São Paulo.

Uma perícia constatou que houve uma explosão dentro do carro do PM. O spray tinha uma "mossa", espécie de amassado, e "não estava apto para a utilização", segundo a conclusão da investigação.

Já no Brasil, em 2021, um homem ficou cego no Recife, em Pernambuco, após ser atingido por uma bala de borracha do tipo AM-403-P, mesmo modelo devolvido pela PM de SP para a Condor.

"A PM-SP é uma das polícias mais estruturadas do país e tem um órgão para fazer especificações, licitar e testar os produtos que compra com bastante rigor, mas estes produtos estão sendo vendidos para todo tipo de órgão, inclusive guardas municipais e guardas penitenciárias com pouquíssima estrutura para escolher os produtos, testar e treinar o seu efeito. Por isso, o caso da PM deveria gerar uma investigação mais profunda, por parte do Exército em vários lotes fornecidos pela Condor", aponta o gerente de projeto do Instituto Sou da Paz, Bruno Langeani.

Por nota, o Exército informa que o acompanha o processo de exportação de armas de acordo com a Portaria 1.729, de 29 de outubro de 2019. "Os requisitos técnicos para assegurar a qualidade e confiabilidade são atestados durante o processo de Certificação de Conformidade que é realizado pelos Órgãos Certificadores designados pelo Exército", informa a instituição.

O Exército ressalta que não tem conhecimento sobre a distinção de padrões de armamento da Condor. "Cabe ressaltar que, no caso de existir indícios de não conformidade do produto controlado com as especificações técnicas determinadas pelo Exército Brasileiro, deverá ser instaurado um Processo Administrativo Sancionador (PAS) para apurar os fatos e aplicar as penalidades cabíveis". A Polícia Militar foi procurada três vezes pelo UOL, mas não retornou.

O crescimento da Condor

Ao longo dos últimos 20 anos, diferentes governos brasileiros apoiaram o crescimento das fábricas de armas e da indústria de Defesa no país. Uma das maiores beneficiárias foi a empresa Condor. Ela expandiu suas atividades para fora do Brasil e abriu escritórios em Abu Dhabi e Singapura.

Em todo esse tempo, a Condor obteve apoio para vendas internacionais, benefícios fiscais e até no financiamento para desenvolver essas armas menos letais. Assistências que começaram no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) depois foram ampliadas nos governos de Lula e de Dilma Rousseff (ambos do PT), além de Michel Temer (MDB).

Atualmente, o general da reserva Walter Braga Netto, ex-ministro da Defesa e cotado para ser vice de Jair Bolsonaro (PL) na campanha pela reeleição, tem feito acordos comerciais que beneficiam ainda mais negócios da empresa no exterior, sobretudo no mundo árabe. Ao longo dos anos, o objetivo desses diferentes governos era que o Brasil se tornasse um dos líderes desse mercado. E, ao menos, nas ditas armas menos letais, ele foi alcançado.

Em 2020, a Omega Research Foundation, um instituto de pesquisas do Reino Unido, em parceria com o Instituto Sou da Paz, a Justiça Global e outras organizações não governamentais, publicou um relatório que identificou 16 empresas no Brasil voltadas para a fabricação de vários tipos de armas, munições e artefatos, de balas de borracha a bombas de gás, e equipamentos de segurança. De longe, a Condor é a maior do setor. Não é apenas a maior empresa do Brasil no mercado interno do ramo, mas, como a própria empresa costuma dizer, é uma "líder global" presente em 80 países.

Esse negócio é bastante lucrativo e pouco transparente. Desde 2011, o governo do Brasil considera que a divulgação detalhada das vendas de uma empresa privada brasileira para empresas ou governos estrangeiros está coberta por sigilo industrial.

Mas existem alguns caminhos para tentar saber quanto vale esse negócio. O relatório da Omega, por exemplo, aponta que a Condor é a única empresa exportadora do setor de que se tem conhecimento na cidade de Nova Iguaçu, município localizado na região metropolitana do Rio de Janeiro. A partir disso, o documento menciona que a cidade exportou produtos de "segurança" no total de US$ 183 milhões de 2012 a 2020.

O UOL apurou, ao analisar os dados abertos ao público pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, que Nova Iguaçu exportou em "equipamentos de segurança e aplicação da lei", ou seja, balas de borracha, bombas de gás e outros, um total de US$ 8,8 milhões para 12 países da América Latina desde 2018.

Nesse período, quem mais comprou essas armas foi o Equador, num total de US$ 4,1 milhões. Em seguida, os dados apontam que o segundo maior comprador foi a Colômbia: US$ 1,8 milhão. Depois, o Chile, com US$ 1,5 milhão. Os dados também apontam que as maiores vendas ocorreram de 2020 a 2021, mesmo período em que esses países estavam sob intensos protestos sociais.

O UOL também fez um levantamento nos portais de transparência estaduais e do governo federal para identificar a presença desses contratos e empresas com as polícias militares e Forças Armadas, para aquisição de material para controle e repressão da população. De 2018 a 2022, um total de 23 estados, o Distrito Federal e o governo federal gastaram R$ 153 milhões (US$ 30 milhões) em 952 contratos com a Condor. A outra empresa que apareceu no levantamento, a Poly Defensor, obteve 14 contratos, no total de R$ 1,8 milhão (US$ 360 mil).

Minas Gerais é o estado que mais gastou com contratos com ambas as empresas: entre 2018 e março de 2022 foram R$ 39,7 milhões, duas vezes mais que o governo federal, que ocupa a segunda posição com R$ 18,4 milhões.

No caso de Minas, as maiores aquisições se deram em 2021: foram R$ 24,7 milhões em contratos. No mesmo ano, imagens mostraram, na cidade mineira de Passos, o disparo à queima-roupa feito por um policial militar de uma bala de borracha atingiu a barriga de uma mulher, que precisou passar por cirurgia. Já em 2020, bombas de gás foram usadas na desocupação do Quilombo Campo Grande, em Campo do Meio (MG).

Entre os estados que realizaram contratos com a Condor e a Poly Defensor, aparecem ainda Rio Grande do Sul (R$ 15,5 milhões), Santa Catarina (R$ 11,7 milhões) e São Paulo (R$ 11,2 milhões).

Não foi possível obter o detalhamento de outros quatro estados no Brasil. Esses números, porém, são apenas parte de uma realidade bastante superior, já que as guardas municipais dos municípios também adquirem esses produtos e o Brasil possui mais de 5.000 cidades.

Condor cresce a partir de "Primavera Negra" na Argélia

A Condor tem uma história de 36 anos. Foi fundada em 1985, em Nova Iguaçu, a partir da transformação de outra empresa, chamada Química Tupan S.A, que produzia, originalmente, diferentes materiais bélicos, inclusive minas terrestres para exportação para o Iraque e para a América Latina. A pressão pelo fim das minas e outros fatores fizeram com que a Tupan fosse à falência e, no lugar, fosse erguida a Condor.

A fábrica funciona até hoje em uma fazenda perto da Reserva Biológica do Tinguá. Atualmente, são fabricados 120 produtos diferentes no local. No livro "O Valor da Vida, uma Experiência das Tecnologias Não Letais no Brasil", de 2019, escrito pelo fundador da empresa, Carlos Erane Aguiar, e lançado pela própria empresa, ele revisita a trajetória dele e da empresa.

Na obra, Aguiar conta que, após a fundação da empresa, no início dos anos 1990, ele enviou um de seus filhos e outros funcionários para a Europa para conhecer o setor. Na volta da viagem, o grupo passou a ser o representante de algumas empresas de armas internacionais. Segundo ele, no início, o trabalho era produção de trajes, roupas, escudos de segurança e coletes à prova de bala.

A primeira venda internacional da Condor foi em 2001. Aguiar descreve em seu livro que, desde 1999, o governo da Argélia negociava a aquisição de produtos da Condor, mas detalhes burocráticos impediram a conclusão. Tudo mudou repentinamente em 2001.

"Simplesmente um avião argelino, sem aviso prévio e sem ter contrato nenhum com a Condor, havia adentrado o espaço aéreo brasileiro avisando que a aeronave, com capacidade para 40 toneladas, viajava com uma tripulação de 16 pessoas e iria pousar no Rio de Janeiro para buscar um material na fábrica da Condor", relata Aguiar, ao contar que recebeu a informação de um funcionário do Ministério das Relações Exteriores.

Aguiar relata que, como a Argélia não tinha avisado anteriormente do interesse nos produtos, foi necessário entregar tudo o que havia nos estoques, inclusive, material feito para outros clientes. Segundo Aguiar, o militar argelino encarregado de levar o material estava desesperado a ponto de dizer aos brasileiros que seria "morto" caso voltasse sem nada. Na época, a Argélia estava sob o mando do ditador Abdelaziz Bouteflika, que ficou no poder até 2019. Além dos produtos, foi enviado um funcionário para dar treinamento às tropas no local.

O UOL obteve acesso a dados da venda, naquela época, e descobriu que o governo argelino gastou US$ 12 milhões para munições "não letais", em 2001. No ano seguinte, 2002, mais US$ 1,12 milhão. Na época, ocorria na Argélia a "Primavera Negra" de Cabília, protestos contra o governo de Argel que deixaram vários feridos e até mortos.

Apoio dos governos brasileiros

A partir dessa venda, a Condor iria abrir espaço no mercado internacional. Segundo Aguiar, em seguida, os negócios da empresa se ampliaram para contratos com Arábia Saudita, Bahrein e Turquia. O próximo passo internacional seria aproveitar a presença das tropas brasileiras no Haiti durante a missão da ONU (Organização das Nações Unidas) naquele país, a Minustah, a partir de 2004.

A Condor foi uma grande fornecedora para os militares brasileiros no período em que estiveram no Haiti. Tão forte era a presença lá que chegaram a criar uma bala de borracha específica para a missão, de uso a curta distância, a soft punch AM-470.

Em 2008, a Condor já tinha alçado a produção de 1 milhão de artefatos. Estava reservado para a década seguinte o grande impulso da empresa. Em 2011, foi convidada pela Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para participar de um evento, única empresa latino-americana a receber tal convite. E, em 21 de março de 2012, o então ministro da Defesa, Celso Amorim, declarou a Condor uma empresa estratégica de defesa pelo governo brasileiro. Era o governo de Dilma Rousseff.

O crescimento da Condor, porém, também está relacionado diretamente a um trabalho feito por seu fundador. Desde 2013, Aguiar preside o Sindicato Nacional das Indústrias de Materiais de Defesa (Simde), entidade que representa empresas produtoras de armas como a Condor e a Taurus, entre outras.

No governo de Michel Temer, em 2017, ele foi integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, responsável por assessorar o presidente em todas as áreas de atuação do Poder Executivo federal. O atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, extinguiu os conselhos com participação de civis.

Já no cenário internacional, a ascensão da Condor está aliada ao crescimento da indústria de defesa do Brasil nos últimos anos por meio de promoções da Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Mesmo assim, a agência não foi capaz de evitar alguns constrangimentos. Em 2019, por exemplo, a Condor foi expulsa da feira "Defense and Security Equipamento International (DSEI)", no Reino Unido. Os ingleses proibiram, como parte de seus mecanismos de regulação contra a tortura junto a outros países da União Europeia, o uso de armas de eletrochoque.

A expulsão da Condor ocorreu porque a empresa fazia promoção da "Spark", arma do tipo teaser que emite eletrochoque. Em oposto à posição do Reino Unido, no Brasil, a empresa recebeu financiamento público para desenvolver e aprimorar a arma.

Em 2012, a arma teve apoio da Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) no valor de R$ 341 mil (US$ 68 mil) para o desenvolvimento da Spark. Além disso, a arma contou com mais de R$ 4 milhões (cerca de US$ 800 mil) da Finep, a Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública brasileira. O material foi distribuído para ser utilizado pelas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio de Janeiro.

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