Oitavo caso de contaminação por bactéria resistente é confirmado; Cremerj pede desativação da emergência de hospital

Felipe Martins
Do UOL, no Rio de Janeiro

Um paciente internado no Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) está contaminado com a bactéria VRE, resistente a medicamentos.  Segundo o SinMed-RJ (Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro), autor da denúncia, o paciente, de 81 anos, está internado na emergência da unidade há 29 dias. O Ministério da Saúde confirmou a contaminação.

De acordo com a direção do hospital, o paciente foi colocado em observação e está recebendo medicação adequada para evitar a evolução da doença. Ainda segundo a direção, está sendo realizado rastreamento nos demais pacientes em observação e, até o momento, não foi detectado a colonização pela bactéria resistente em outros pacientes.

Este é o oitavo caso confirmado de contaminação pela VRE em uma semana no Estado do Rio de Janeiro nesta semana.  Em reportagem publicada pelo UOL Saúde na última quinta-feira (25), três bebês e quatro adultos internados na UTI do Hospital Alcides Carneiro, em Petrópolis, também foram contaminados pela bactéria, que é disseminada pelo toque.

Pedido de desativação da emergência do HGB

O Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) pediu a desativação da emergência do Hospital de Bonsucesso após vistoria no último dia 10 que encontrou várias irregularidades, a principal, segundo o conselho, é a superlotação do setor.  Com capacidade para 35 pacientes, estavam internadas 56 pessoas.  Além disso, deficiência de monitores e bombas de infusão foram detectadas na Unidade de Pacientes Graves.

A emergência do Hospital Federal de Bonsucesso funciona provisoriamente há um ano e meio em um contêiner. As obras no prédio que abriga o setor, orçadas em R$8 milhões, estão paradas sob suspeita de irregularidades. O Ministério da Saúde não soube afirmar quando as obras vão recomeçar.

Em 2007, 49 pessoas foram contaminadas pelo VRE e 16 pessoas morreram em um surto da bactéria no Hospital Federal de Bonsucesso. Naquele ano, no entanto, a direção afirmou que a causa da morte das pessoas foram as doenças que as levaram à unidade.

VRE = Superbactéria?

O médico do Hospital Federal de Bonsucesso e membro do SinMed-RJ, Júlio Noronha, afirma que a bactéria VRE é uma superbactéria. “Não tenho dúvidas disso. A Enterococos sofre uma mutação genética nos ambientes hospitalares e se torna resistente a tudo que é antibiótico. Surge dentro de ambientes hospitalares que tenham a superlotação, acúmulo de doentes. Em pacientes com doença renal grave ou em casos de câncer avançado, por exemplo, pode levar à morte”, explicou.

O Ministério da Saúde, no entanto, nega que o VRE seja uma superbactéria. Segundo a nota do órgão, a bactéria é apenas "germes com grande resistência a antibióticos, comuns na flora intestinal de seres humanos".

Para o infectologista Thiago Leandro Mamed Nascimento, chamar o VRE de superbactéria é um exagero, mas ele esclarece que em casos de pessoas com doenças crônicas a bactéria pode levar à morte. "Eu acho um termo inadequado, porque se entende de superbactéria algo superpoderoso muito agressivo, que pode matar qualquer pessoa, o que não seria o caso. Contudo, em casos de pacientes com doenças crônicas, transplantados ou que passam por hemodiálise, por exemplo, pode sim levar a óbito", explica.

O infectologista discorda do Ministério da Saúde, que chamou o VRE de "comum". "O Enterococos é um coliforme que a gente pode encontrar no ambiente, mas o VRE tem uma resistência a todo tipo de medicamento que não é comum. Em um paciente contaminado o tratamento fica muito mais complicado, devido à resistência aos antibióticos, podendo causar infecção urinária ou outro tipo de infecção”, informou.

A combinação com outras bactérias no ambiente hospitalar é um perigo, segundo Mamed, que deve ser evitado com a ação rápida da unidade. “Essa bactéria circulando dentro do hospital pode provocar mutações e transferir essa resistência para outras bactérias que também ficariam resistentes à vancomicina”, disse. Segundo o especialista, para evitar o surto dentro de uma unidade hospitalar, o paciente com VRE deve ser imediatamente isolado e os cuidados com higiene dos profissionais de saúde e pacientes devem ser redobrados.
 

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