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Especialistas explicam limites entre gostar muito e ser viciado em sexo

Pôster do filme "Ninfomaníaca", dirigido por Lars Von Trier com Shia LaBeouf e Charlotte Gainsbourg - Divulgação
Pôster do filme "Ninfomaníaca", dirigido por Lars Von Trier com Shia LaBeouf e Charlotte Gainsbourg Imagem: Divulgação

Marina Kuzuyabu

Do UOL, em São Paulo

22/01/2014 07h00

O cineasta Lars Von Trier gosta de incomodar. Depois de provocar angústias no público com um belo filme sobre a depressão, "Melancolia",  o dinamarquês se voltou para mais um transtorno: a dependência sexual, retratada em "Ninfomaníaca". A primeira parte do longametragem já estreou no Brasil, enquanto a segunda está prevista para março.

O assunto, que já foi abordado no cinema várias vezes (veja álbum), é cercado de mitos. Muita gente acha que a mulher ou o homem que busca o sexo a todo o momento é simplesmente um transgressor social, como explica Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex), mantido pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPqHCFMUSP).

Longe disso, trata-se de uma compulsão sobre a qual o paciente não tem qualquer controle. Por isso, é muito fácil diferenciar o comportamento normal do patológico: entre os dependentes, o sexo é uma prioridade, independente de onde estiver e com quem estiver.

“A pessoa abre mão da hora do almoço, falta ao trabalho ou se ausenta de suas atividades para procurar um parceiro ou se masturbar. Nada é mais importante que isso, nem o lazer, nem as relações sociais”, esclarece a psiquiatra.

Tentações irresistíveis

Também há quem acredite que, entre os dependentes, os impulsos sexuais são consideravelmente mais elevados, mas isso também não é verdade.

“O que move um dependente sexual é o mesmo que move qualquer um de nós. Os impulsos são os mesmos ou um pouco mais intensos, como em alguns casos. O que é diferente é a relação com esse impulso”, explica Aderbal Vieira Jr., responsável pelo setor de tratamento de dependências de comportamentos do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), ligado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Isso quer dizer que, diante de uma tentação, o compulsivo é compelido ao ato. “Essa é uma das principais características do transtorno: a sensação de falta de liberdade, controle, escolha”, enfatiza o médico. “Uma pessoa que não tem o distúrbio pode se sentir atraída por alguém, mas resiste à tentação de abordá-la. Com o dependente isso é diferente. Ele não consegue ‘negociar’ com seus desejos”, conta.

Até que consiga o êxtase sexual, a pessoa fica dominada por uma fissura. É uma dependência como qualquer outra que acarreta, inclusive, crises de abstinência, embora elas sejam de ordem emocional e psicológica.  

De acordo com a psicóloga Egle Bellintani, do Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, quanto mais o dependente faz sexo ou se masturba, mais ele tem vontade de repetir o ato. “Como um dependente químico, esse indivíduo vai precisando de doses cada vez maiores de dopamina, liberada pelo cérebro toda vez que há sensação de prazer. A diferença é que ele não precisa de um fator externo, como a droga ou o álcool, para que haja essa descarga hormonal”, detalha.

Homens x mulheres

Ninfomania é um dos termos usados para se referir à disfunção quando ela se manifesta entre as mulheres. Para os homens, dá-se o nome de satiríase. As palavras são diferentes, mas pacientes de ambos os sexos têm as mesmas atitudes.

Assim, mesmo as mulheres que costumam ser mais discretas em suas abordagens, de maneira geral, podem se aproximar de estranhos para transar sem se preocupar com julgamentos externos e constrangimentos. “Quando vem o desejo, tanto a mulher como o homem perdem o senso crítico. Os dois agem por impulso e só depois se dão conta do que fizeram”, relata a psicóloga.

A compulsão, no entanto, é mais recorrente entre o sexo masculino. No Proad, 95% dos atendidos são homens.  “A mulher tende a desenvolver com mais frequência a dependência afetiva, daí a existência de grupos como o Mada – Mulheres que amam demais. Mas quando ela é portadora de uma dependência sexual, age realmente como um homem, sem distinção”, confirma Vieira Jr.  

Na opinião da psiquiatra do ProSex, embora todos os afetados sofram com a disfunção, a ninfomania é mais problemática: “Além das questões morais, a mulher é mais suscetível a doenças sexualmente transmissíveis e têm que lidar com o risco de gravidez. Isso torna a situação mais complexa”, afirma Abdo.

A maior incidência entre os homens também pode refletir a menor procura por ajuda médica entre pacientes do sexo feminino.  Porém, como não há pesquisas populacionais sobre a doença, não é possível ir além dos registros realizados nos ambulatórios.  

Primeiros sinais 

Ninguém se torna compulsivo da noite para o dia ou a partir de uma experiência desagradável. O excesso de pornografia também não leva ao vício. “Uma pessoa que gosta de pornografia não se torna necessariamente obcecada pelo assunto ou deixa de ter vida social por causa disso”, esclarece a psiquiatra.

Tanto o homem como a mulher apresentam os comportamentos característicos da doença entre o final da adolescência e o início da vida adulta. É nessa fase que eles começam a se interessar exageradamente por sexo. Entre os 20 e os 30 anos, o problema ganha intensidade.   

“Se um idoso manifestar a doença sem ter vivenciado isso antes, temos que suspeitar se ele não está passando por um quadro demencial”, alerta Abdo.

O transtorno também não deve ser confundido com um desajuste temporário. Em uma fase difícil, a pessoa pode usar o sexo como atividade compensatória, mas, em geral, esse comportamento dura alguns dias ou semanas e depois desaparece.

Como não têm autocontrole, os pacientes costumam se sentir culpados e, consequentemente, passam a se autodepreciar, segundo Bellintani. Os relacionamentos mais próximos também podem ficar abalados, especialmente se a mulher ou o homem têm parceiros fixos.

Além das complicações psicológicas, os compulsivos também sofrem com muitos problemas de saúde em função dos hábitos desregrados. Aos poucos, o corpo se torna fraco, a imunidade cai e a pessoa começa a apresentar uma série de doenças e pode até morrer por inanição e por complicações de uma infecção não tratada.

Também acontece o que os médicos chamam de empobrecimento existencial, causado pelo isolamento do indivíduo e da consequentemente perda de repertório.

A pressa para realizar o ato também faz com que muitos deixem de se proteger contra doenças sexualmente transmissíveis. Sem tratamento, a pessoa tem a vida encurtada, informa Abdo.

Busca de explicações

Além de se tratar, o que todos querem saber quando chegam ao serviço de atendimento são as causas da compulsão. Não há uma explicação definitiva, apenas fatores relacionados. A psiquiatra do ProSex diz que uma das razões estaria no cérebro. “Segundo alguns estudos, o problema pode estar relacionado a um distúrbio de neurotransmissores”, revela.

As vivências e as características próprias da personalidade de cada um também são relevantes e muitos vão buscar nas sessões de psicoterapia, indicadas no tratamento, os fatores possivelmente atrelados.

Embora possa se desenvolver de forma isolada, são frequentes os casos em que a doença aparece associada com outros tipos de compulsão, como o vício por comida, jogos ou compras.

Para buscar ajuda, os pacientes devem recorrer a serviço médico que ofereça atendimento com psiquiatras e psicólogos para tratar sua relação disfuncional com a sexualidade.  No Proad, as sessões de terapia são feitas em grupo, onde todos compartilham suas experiências. Mas também é possível realizar um tratamento individual.

Cada caso é único, mas de maneira geral é necessário um período de três a quatro meses, no mínimo, para que a pessoa comece a se perceber melhor e, com isso, readquira o controle sobre suas funções. Em casos extremos, ela também pode ser medicada para que sua libido seja diminuída e sua ansiedade controlada.

Não há cura, como enfatiza Vieira Jr. “A relação com a dependência pode ser revista e mesmo modificada. Mas o comportamento está ali. Não é como um sarampo, que pode ser totalmente curado. O que o tratamento vai dar para a pessoa é a possibilidade dela escolher o que vai fazer com seus impulsos”, finaliza.

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