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Pílula contra o câncer "dificilmente será um milagre", diz Nature

O principal pesquisador da "pílula do câncer" da USP (Universidade de São Paulo) São Carlos, Gilberto Chierice, prestou esclarecimentos recentemente em audiência no Senado  - Reprodução
O principal pesquisador da "pílula do câncer" da USP (Universidade de São Paulo) São Carlos, Gilberto Chierice, prestou esclarecimentos recentemente em audiência no Senado Imagem: Reprodução

Do UOL, em São Paulo

24/11/2015 18h43

Um editorial publicado nesta terça-feira (24) pela revista Nature, uma das mais importantes publicações científicas do mundo, abordou os riscos da fabricação e distribuição da chamada “pílula do câncer”, desenvolvida pelo Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo) de São Carlos (SP). O texto afirma que “a triste verdade é que é pouco provável que a droga seja um milagre”.

O texto ressalta que mesmo que as cápsulas de fosfoetanolamina sintética tenham algum benefício sobre pacientes que lutam contra o câncer, essa eficácia precisa ser comprovada e isso só acontece fazendo testes em humanos (o que não aconteceu ainda). O composto, mesmo sem ter passado pelos testes exigidos legalmente, começou a ser distribuído de maneira gratuita há alguns anos, mas no dia 29 de setembro o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) vetou essa distribuição. Uma batalha judicial se formou. De um lado, pacientes insistindo no uso do produto, de outro, tribunais ora permitindo, ora negando o acesso. O ministério da Saúde decidiu recentemente criar um grupo de trabalho para estudar a pílula, mas orientou as pessoas a não tomarem o composto.

Segundo a revista, a cada dez novas drogas que passam pela primeira fase dos testes clínicos, apenas uma consegue a aprovação do FDA (Food and Drug Administration), agência do governo norte-americano que libera novos medicamentos. Em outras palavras, mesmo com os testes, poucas drogas são aprovadas como efetivas contra o câncer. 

Além disso, para a revista um laboratório de uma universidade não é “nem uma planta farmacêutica, nem uma farmácia” e, por isso, não é obrigado a seguir os protocolos de produção de medicamentos. “Não há nenhuma supervisão para certificar o que está dentro das cápsulas de fosfoetanolamina sintética produzidas na Universidade de São Paulo. Nem os efeitos colaterais do composto nem a sua eficácia são monitorados sistematicamente. Forçar a universidade a fornecer o composto é desconsiderar a importância dessas medidas de segurança”. 

Na semana passada, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação informou que a fase pré-clínica (aplicação da nova molécula em animais) da fosfoetanolamina sintética será concluída em sete meses, quando o material deverá ser encaminhado para análise da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Só depois dessa etapa é que a Anvisa vai determinar se o composto será administrado em voluntários humanos, que é a fase 1 do estudo clínico.

SP vai pedir liberação da Anvisa

Mesmo sem os testes em humanos, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, afirmou nessa segunda-feira (23) que vai solicitar à Anvisa a autorização o uso da substância pelos pacientes até que ela tenha aprovação final do governo federal. O anúncio foi feito durante encontro com o professor Gilberto Orivaldo Chierice, do Instituto de Química da USP de São Carlos, que fabricou e distribuiu o composto por anos, no Palácio dos Bandeirantes.

Alckmin também ofereceu hospitais do Estado, institutos de pesquisa e o laboratório do FURP (Fundação para o Remédio Popular) para auxiliar nas próximas fases dos estudos para a aprovação do uso do fosfoetanolamina sintética em pacientes com câncer.