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Como tratamento de sífilis foi negado a negros nos EUA em nome da ciência

Nesta foto da década de 1950, um médico retira sangue de um homem negro que fazia parte do estudo de sífilis - National Archives via AP
Nesta foto da década de 1950, um médico retira sangue de um homem negro que fazia parte do estudo de sífilis Imagem: National Archives via AP

Do UOL, em São Paulo

16/05/2017 11h00

Ao longo de 40 anos, a partir de 1932, o tratamento da sífilis, uma doença sexualmente transmissível, foi negado para centenas de homens negros no Alabama (sul dos Estados Unidos) a fim de que os médicos pudessem seguir as consequências da doença e, mais tarde, dissecar seus corpos, segundo reportagem da Associated Press.

Sem que tivessem conhecimento do que estava acontecendo, cerca de 400 homens afro-americanos passaram pelo processo, em que recebiam remédios sem efeito (placebo) e não eram informados de que tinham sífilis. O terrível experimento ficou conhecido como "Estudo de Sífilis de Tuskegee".

A experiência científica deu origem a um processo de US$ 9 milhões e a um pedido oficial de desculpas do governo norte-americano em 1997, durante a gestão de Bill Clinton. Nesse momento, apenas 8 pessoas ainda estavam vivas.

Na época do processo, o advogado dos oito que estavam vivos disse que seus clientes foram tratados como cobaias humanas: "Eles não deram seu consentimento nem foram informados do que estava acontecendo".

Cobaias de estudo da sífilis tiravam sangue de tempos em tempos para controle - National Archive/AP - National Archive/AP
Cobaias de estudo tiravam sangue de tempos em tempos para controle
Imagem: National Archive/AP

A comunidade escolhida

O condado de Macon é um dos lugares mais pobres de Alabama. No início do século, a população majoritária de negros tinha altos índices de sífiles, que atingia 35% dos moradores em idade reprodutiva, segundo a AP.

Em 1932, o serviço de saúde norte-americano começou um program para acompanhar a progressão da doença, que começa com pequenas feridas e podem levar a surdez, doenças mentais e a morte.

Os pesquisadores, inicialmente, recrutaram 600 homens negros, com a promessa de acompanhamento médico gratuito, alimentação, transporte e assistência funeral. A oferta aparecia em uma região em que muitos daqueles homens nunca tinham tido uma consulta médica.

Do total, 399 tinham sífilis e os outros 201, que não estavam infectados, faziam parte de um grupo de controle. Os negros com sífilis recebiam apenas a informação de que tinham "sangue ruim".

Nenhum deles sabia que participava de um experimento médico, e nem que o "sangue ruim" era um eufemismo para sífilis e quais eram suas consequências.

Como recebiam regularmente pílulas e xaropes, esses homens acreditavam estar recebendo tratamento médico. E, mesmo quando a penicilina se tornou o tratamento padrão para sífilis na década de 1940, as 399 "cobaias" continuaram sem receber tratamento. 

Celebração em memória dos homens que participaram do estudo de sífilis - Jay Reeves/AP Photo - Jay Reeves/AP Photo
Celebração em memória dos homens que participaram do estudo de sífilis
Imagem: Jay Reeves/AP Photo

Ética científica

Ao longo dos anos, o governo norte-americano publicava resultados mostrando que os homens com sífilis morriam muito mais rápido que os não infectados. No entanto, mesmo neste momento nem as viúvas nem seus filhos eram informados da razão da morte. 

A verdade só veio à tona quando em 1972 uma reportagem denunciou o caso.

Desde então, o caso é usado como exemplo contrário em estudos de bioética sobre pesquisas médicas. "O caso Tuskegee é paradigmático pois foi elaborado por pesquisadores supostamente preparados e com supervisão e respaldo de organismos governamentais", escreve José Roberto Goldim, professor de bioética do curso de medicina da UFRGS. "A não reação de editores, comissões científicas de seleção de trabalhos em congressos, e comunidade científica em geral também pode ser responsabilizada e questionada."