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Bolsonaro elogia cloroquina e critica ex-ministros em posse de Pazuello

Eduardo Pazuello é abraçado por Jair Bolsonaro durante sua posse na Saúde - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Eduardo Pazuello é abraçado por Jair Bolsonaro durante sua posse na Saúde Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Do UOL, em São Paulo

16/09/2020 18h11

Durante a cerimônia de posse do general Eduardo Pazuello como ministro efetivo da Saúde, na tarde de hoje, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) elogiou a condução do ministério e retornou a polêmicas que marcaram a gestão dos últimos titulares da pasta, ambos médicos. Em seu discurso, voltou a defender a eficácia, não comprovada, da cloroquina e a criticar o isolamento social, a imprensa, os governadores e prefeitos por conta de medidas restritivas no decorrer da pandemia.

O presidente elogiou ainda a "classe médica" que, segundo ele, teve "ousadia" de prescrever a hidroxicloroquina no decorrer da pandemia, e comparou esses profissionais a militares que, "na ponta da linha, têm de decidir se vão atacar ou recuar na frente de combate". A defesa, por parte do presidente, da adoção do medicamento sem comprovação científica foi a principal causa da saída tanto de Luiz Henrique Mandetta como de Nelson Teich do governo.

Na avaliação de Mandetta, o presidente tentou alterar a bula da substância para incluir a indicação para o tratamento da covid-19. Em maio, Bolsonaro prometeu a apoiadores que Teich faria a alteração, o que não ocorreu.

"Eu não sou palpiteiro, eu converso com meus ministros, na maioria das vezes de forma reservada, onde procuramos nos acertar", afirmou no início do discurso na tarde de hoje, sem fazer referência às críticas em público dirigidas a decisões dos dois ex-ministros.

Sobre Mandetta, que deixou o cargo em abril após ganhar popularidade na condução da Saúde e protagonizar embates com Bolsonaro, afirmou nesta quarta: "O primeiro problema com o primeiro ministro foi a questão da nossa conhecida hidroxicloroquina. Eu aceito, mesmo não sendo médico, qualquer crítica a ela por parte das pessoas que possam apresentar uma alternativa".

Não consegui impor ou propor a sugestão ao então ministro da saúde de tirar o protocolo que [afirmava que] o tratamento com cloroquina deveria ser ministrado apenas quando o paciente estivesse em estado grave"
Jair Bolsonaro, presidente da República

Em relação a Teich, disse "que "nada foi resolvido" nas conversas que tiveram. "Eu aprendi no meio militar, e vale para todos nós, que pior que uma decisão mal tomada é indecisão", afirmou.

Para o presidente, o governo "apostou" ao indicar o tratamento precoce com hidroxicloroquina, assim como os médicos que agiram com "ousadia" ao receitá-la.

Segundo o presidente, mais de 200 pessoas no Palácio do Planalto foram diagnosticadas com o novo coronavírus. "E eu não tive informação de nenhuma (pessoa) que foi sequer hospitalizada. Grande parte tomou não o remédio do Bolsonaro mas o remédio que tinham", brincou, antes de elogiar o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) pela defesa da medicação desde o início da pandemia "com número, dados e convicção".

Terra, que chegou a ser cotado para a Saúde em abril, já negou a eficácia do isolamento social e calculou que a pandemia não causaria mais mortes do que a epidemia de H1N1 no país (cerca de 2.100). Contudo, a doença já matou 134.106 pessoas segundo balanço oficial do governo federal.

"Pânico" e isolamento

O presidente criticou novamente a imprensa por, sem sua opinião, "espalhar o pânico" e afirmou que a adoção da quarentena por estados e municípios foi uma medida adotada pelo receio propagado pelos veículos de mídia.

Em seu discurso, Bolsonaro destacou também as críticas que recebeu ao longo dos últimos meses por criticar o isolamento social, e chegou a citar um pronunciamento feito por ele à nação em março. À época, o presidente já criticava, como fez hoje, a imprensa, o fechamento de escolas e governadores e prefeitos. Foi numa dessas ocasiões que o chefe do Executivo chegou a se referir à doença como uma "gripezinha".

Desde o começo também fui muito criticado na primeira manifestação que ocupou o espaço da noite para externar a nossa posição a nossa preocupação e o que achávamos do vírus. Disse naquele momento que tínhamos dois problemas pela frente, o vírus e o desemprego. E ambos deveriam ser tratados com mesma responsabilidade e de forma simultânea"
Jair Bolsonaro

De acordo com o presidente, as escolas não deveriam ter sido fechadas. "Mas as medidas restritivas não estavam mais nas mãos da Presidência. Lamento", disse.

Na semana passada, relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) demonstrou que o Brasil é um dos países que passaram mais tempo sem aulas em 2020.

O presidente lembrou ainda o aumento de casos de violência doméstica, abuso de crianças e suicídio por conta do isolamento, como comprova o aumento de 40% nas denúncias de violência contra a mulher pelo 180.

Hoje vemos que essa questão [do fechamento de escolas e do comércio] poderia ter sido tratada de forma diferente com mais racionalidade. Entendo que alguns governadores foram tomados pelo pânico proporcionado pela mídia catastrófica que temos no Brasil. Não é uma crítica à imprensa, é uma constatação"
Jair Bolsonaro

Pazuello ecoa discurso

Em seu pronunciamento, Pazuello ressaltou que, ao contrário do que foi noticiado no início da pandemia, "ficar em casa não é o melhor remédio": "Temos falado dia após dia, 'não fique em casa', receba o diagnóstico clínico do médico. Receba o tratamento precoce".

Pazuello, que atuava como interino desde 3 de junho, é o terceiro ministro da Saúde a assumir a pasta neste ano em meio à pandemia de covid-19.

"Confesso que quando te convidei só acreditei no meu convite dado a sua vida pregressa", disse o presidente, que terminou sua fala lembrando a atuação de Pazuello durante a Olimpíada de 2016, como interventor em Roraima e na Operação acolhida. "Todos sabemos da sua enorme capacidade de gerir aquilo que estiver sob sua orientação."