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Com falta de AstraZeneca, Saúde diz que SP usou vacinas de 2ª dose como 1ª

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Imagem: iStock

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

11/09/2021 04h00Atualizada em 11/09/2021 18h26

Diante da falta de vacina AstraZeneca nos postos da cidade de São Paulo, um novo imbróglio entre o governo de São Paulo e o Ministério da Saúde veio à tona, com troca de acusações e diferentes versões para o problema.

A prefeitura da capital paulista pediu ao governo estadual para receber novas remessas de doses. Mas o estado afirmou ter enviado a quantidade prevista, cobrando o Ministério da Saúde por mais doses e até ameaçando ir ao STF (Supremo Tribunal Federal).

Desde o início da campanha de vacinação, em janeiro, o governo federal tem dito que as quantidades de doses prometidas podem mudar —tanto para mais como para menos—, porque dependem da entrega pelas fabricantes, que estão envasando doses para vários países do mundo.

O Brasil compra vacinas da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), responsável pela AstraZeneca, do Instituto Butantan, que faz a CoronaVac, e da Pfizer.

Recentemente, a Fiocruz não recebeu as quantidades esperadas de novos lotes de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo), vindos da China e necessários para fabricar a vacina da AstraZeneca. Isso teria prejudicado a previsão de envio do ministério aos estados.

Só que este não foi o argumento usado pelo Ministério da Saúde para justificar o desabastecimento. Em nota ao UOL, disse que "não deve segunda dose de vacina contra a covid-19 da AstraZeneca ao estado de São Paulo" e que foram utilizadas vacinas destinadas à segunda dose como se fossem para a primeira.

"Até o momento, foram entregues ao estado 12,4 milhões de dose 1 e 9,2 milhões de dose 2 da AstraZeneca. Os 2,8 milhões de doses não foram enviados porque o prazo de intervalo entre a primeira e segunda dose só se dará no final do mês. Dados inseridos por São Paulo no Localiza SUS mostram que o estado utilizou como primeira dose vacinas destinadas à dose dois. O estado aplicou 13,99 milhões de doses 1 e 6,67 milhões de dose 2", disse a pasta.

"O ministério reitera que as alterações nas recomendações do Programa Nacional de Imunizações (PNI) acarretam na falta de doses para completar o esquema vacinal na população brasileira. Por isso, o Ministério da Saúde alerta mais uma vez para que estados e municípios sigam o Plano Nacional de Operacionalização", afirmou.

Neste sábado, outros quatro estados registram falta da vacina AstraZeneca para segunda dose da imunização contra covid-19. Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul informaram ao UOL que há indisponibilidade do imunizante e aguardam envio de mais doses por parte do Ministério da Saúde.

'Ninguém guarda dose', diz secretário

Segundo a reportagem apurou com uma fonte do Ministério da Saúde, em cada lote enviado aos estados, há um "informe" que orienta como usar aquela remessa, se para primeira ou segunda dose. São Paulo, segundo a apuração, teria descumprido as orientações desses informes e aplicado segundo suas próprias definições.

Ao UOL, o secretário-executivo de Saúde, Eduardo Ribeiro, responsável pela logística de vacinas no estado, afirma que São Paulo tem um calendário de vacinação próprio, modelado seguindo as complexidades de cada município. Esse calendário, ele explica, é baseado nas promessas de entrega do ministério, que costumeiramente sofre mudanças no combinado.

"O ponto de referência para definir o avanço da vacinação de primeira ou segunda dose é com base na informação oficial do Ministério da Saúde, publicada no site. Nós, então, programamos a vacinação considerando aquela quantidade. No mês seguinte, ele [ministério] corta 30% da perspectiva dos meses futuros, forçando os gestores a recalibrar. Neste momento [com a vacina da AstraZeneca], a queda foi de tal envergadura que não permitiu ao estado redirecionar a tempo", afirmou.

"As doses são encaminhadas progressivamente, ninguém 'guarda' dose. Não tem diretriz do ministério de mandar mil doses, para aplicar 500 e guardar por três meses 500 doses. Mesmo porque a validade [das vacinas] não permite. É notória a dificuldade do produtor [Fiocruz] de honrar com compromisso e entendo que coloca o ministério em dificuldade. Não estamos para criar cavalo de batalha, buscamos solução", disse.

"Na impossibilidade de enviar AstraZeneca, pedimos ao ministério que lance mão da possibilidade de usarmos Pfizer no procedimento de intercambialidade. O próprio ministério já lançou mão dessa iniciativa pela ocasião da vacinação das gestantes. Estamos em tratativas", disse o secretário-executivo da Saúde.

Na noite de ontem, o governo oficializou essa medida. A Secretaria de Saúde de São Paulo anunciou que a população poderá tomar a segunda dose com a vacina da Pfizer, a partir da próxima semana. Mas só para quem estiver com a dose de AstraZeneca vencida entre os dias 1º e 15 de setembro.

O governo federal não comentou a adesão da Pfizer como segunda dose, mas ressaltou as últimas entregas. "Em relação às doses da Pfizer, a pasta esclarece que entregou ao estado paulista 12,9 milhões de doses, sendo 9,5 milhões para aplicação da primeira dose e 3,3 milhões para segunda dose. As 6,2 milhões de doses não foram enviadas porque o prazo de intervalo entre a primeira e segunda dose só se dará no início de outubro."

Apesar do embate, o problema de falta de doses não afeta apenas São Paulo. O Rio de Janeiro também informou que seu estoque de AstraZeneca para a capital fluminense está no fim.

No limite

Na opinião do infectologista Evaldo Stanislau, do Hospital das Clínicas e membro da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia, é ideal que as doses remetidas para a segunda aplicação sejam guardadas para que a imunização das pessoas seja completa.

"Seria como usar o limite do cheque especial para comprar algo agora contando com um dinheiro futuro para cobrir e seguir a vida. Não vindo, entramos no juros sobre juros. O problema aqui é que não é dinheiro. São pessoas que precisam estar plenamente imunizadas, sobretudo nessa fase da variante delta. A solução é não discutir de quem é a culpa e, sim, resolver", disse.

"O ponto que estrangula mais é a falta de vacina e o descontrole da base de dados que leva a uma estimativa incorreta dos quantitativos. Penso que o ministério deva fornecer o quantitativo necessário e que posteriormente ele e o estado se acertem, ou briguem, mas é inaceitável que nessa altura da pandemia tenhamos esse tipo de discussão com um viés iminentemente político", conclui.

O que diz a Fiocruz

Procurada, a Fiocruz, localizada no Rio de Janeiro, afirma que a previsão de entrega de novas doses para o Ministério da Saúde é na semana que vem.

A Fiocruz recebeu mais um lote de IFA, suficiente para a produção de 4,5 milhões de doses. "A remessa, somada às duas anteriores recebidas no mês de agosto, comporá as entregas ao Ministério da Saúde no mês de setembro, a serem realizadas a partir da semana de 13/9. Com o novo lote, já estão asseguradas para este mês cerca de 15 milhões de vacinas. O quantitativo de doses a ser entregue em setembro poderá ser reajustado conforme a chegada de novas remessas de IFA", afirmou.