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19/12/2008 - 22h01

O chato tem um papel social, explica o pessoal do Casseta & Planeta

Pedro Cirne
Do UOL Tablóide
Em São Paulo

Divulgação

Os Cassetas Helio deLa Peña e Beto Silva

Os Cassetas Helio de
La Peña e Beto Silva

O Editor do UOL Tablóide nunca comprou um produto das Organizações Tabajara, esse conglomerado monopolista criado por Gilvan Saturnino Tabajara nos idos de 1923. Assim, nunca bebeu a Barangaba Tabajara, a solução composta de 600% de álcool e 0,0001% de ervas, que ajuda um cidadão a ver uma mulher ainda mais bonita do que ela já é, e nunca utilizou o Maridocard, o cartão de milhagem para maridos (trocar fraldas, 5 pontos; levantar a tampa da privada, 10 pontos), que, uma vez acumulados 1.500 pontos, manda a mulher e a sogra para passarem férias no Iraque.

Além disso, o Editor do UOL Tablóide nunca teve o prazer de assistir, ao vivo e em cores, a uma partida de futebol do Tabajara Futebol Clube, o potentado aurirroxo que já teve em seu ataque a dupla Ruinzinho e Ruinzinho Gaúcho.

Apesar dessas "falhas" em sua cultura geral, o Editor do UOL Tablóide é um voraz leitor e acabou de comprar o livro "Antologia Casseta Popular", que reúne textos de cinco Cassetas (Beto Silva, Bussunda, Claudio Manoel, Helio de la Peña e Marcelo Madureira) da época em que eles editavam a revista "Casseta Popular", que viria a se fundir com "O Planeta Diário" na criação do "Casseta & Planeta" que conhecemos hoje.

Após ler a edição que traz, segundo ela mesma, "o melhor da Enciclopédia Munidal da Babaquice", o Editor do UOL Tablóide quis entrevistar o Seu Casseta - aquele que, no programa de TV, é o marido da Dona Encrenca. Falou então com Beto Silva e Helio de la Peña.

Foi uma conversa edificante. Afinal, não é todo dia que você descobre que o chato tem um papel social (aliás, se você discordar, sinta-se à vontade para falar aqui no Tablog, o blog do Editor do UOL Tablóide).

  • Divulgação/TV Globo - 2006

    Beto Silva, vestido para a gravação de um programa Casseta & Planeta Urgente!

Editor do UOL Tablóide - Eu li o livro e encontrei algumas matérias que, acredito, vocês poderiam ter problema se publicassem hoje, por causa do politicamente correto e das patrulhas ideológicas. É mais difícil fazer humor agora, no século 21?
Beto Silva
- Cada época tem suas dificuldades... Aquela época deve ter tido, embora eu não lembre agora quais... (risos)
A questão do politicamente correto mudou muito, pro bem e pro mal. Há o exagero, mas tem muita gente que fica bem defendida.

Editor do UOL Tablóide - Quantos processos vocês já tomaram? Algum deu algum tipo de orgulho? Algum preocupou?
Beto Silva
- Nós tomamos alguns, mas nunca perdemos... Não que soubéssemos. Sempre nos defendemos e nunca tivemos grandes problemas.
Não fazemos humor para tomar processos... Tem humorista que gosta, eu acho um porre. Você já tomou processo?

Editor do UOL Tablóide - Já...
Beto Silva
- É um porre, né? É um saco, pentelho demais! E, quando vem, é de onde menos a gente espera... Às vezes é um cara com quem você fez uma piadinha boba, já tinha até esquecido...

  • Reprodução

    "Antologia Casseta Popular"
    Autores: Beto Silva, Bussunda, Claudio Manoel, Helio de la Peña e Marcelo Madureira
    Organização e prefácio: Arthur Dapieve
    Editora: Desiderata
    Quanto: R$ 69,90 (320 páginas)

Editor do UOL Tablóide - Vocês já se arrependeram por alguma piada? Pensaram, ah, peguei pesado demais ou putz, errei a mão?
Beto Silva
- Não lembro, mas deve ter rolado, sim! (risos) Há casos em que alguns de nós devem ter se arrependido e os outros, não. Mas essas coisas a gente apaga da memória. Lembrar coisa ruim, para que?

Editor do UOL Tablóide - Vi muitas piadas com animais, como a campanha "Que se f... as baleias".
Beto Silva
- A gente brincava muito com a ecologia, que estava começando. Era brincadeira. Essa da baleia, por exemplo: até pela babaquice, é engraçada.

Editor do UOL Tablóide - Nunca um ecochato pegou no pé de vocês?
Beto Silva
- Vários! Com certeza! Todos os chatos, de todas as áreas, enchem o saco. É o papel deles! O chato tem um papel social: encher o saco de todo mundo!
Os ecochatos têm uma causa justa, mas exageram. Obviamente, tem os ecologistas que não são chatos, que são maioria. E eles vêem que essa piada até levanta a causa, abordando-a de outra maneira.

Editor do UOL Tablóide - Há, no livro, uma fotomontagem com a Zélia no corpo de uma gostosa com os peitos de fora; um texto "escrito" por Pauno Coelho; fotos de bundas desnudas sobre o slogan "Ânus Rebeldes"... Vocês, algumas vez, já sentiram que ultrapassaram o limite entre humor e a baixaria?
Beto Silva
- Rompemos sim. Estamos sempre no limite. Não acho que tenhamos passado o limite nesses exemplos. Alguns dos limites dependem do leitor. Na época em que fazíamos a revista, éramos porraloucas, então...

Editor do UOL Tablóide - É difícil para viver de humor? Por exemplo, estar sempre bem-humorado, ouvir a cada meia-hora "tio, me conta uma piada", dar entrevistas a metidos a engraçadinhos.
Beto Silva
- Rola de tudo. Para mim é fácil viver de humor, porque eu adoro isso. Às vezes você é cobrado para ser 100% engraçado e não rola, somos humanos. Você vai ao banco reclamar e o cara fala "você é tão sem graça"! "Lógico, pô, eu tô reclamando!"
Obviamente, esse é o lado menor. Você deve ter isso também: é uma visão humorística das coisas, que às vezes é até impublicável. Eu adoro.

Editor do UOL Tablóide - Com a ida para a televisão, em que rola uma abrangência maior, você sente que houve um tipo de auto-censura?
Beto Silva
- Cada meio tem o seu público. Essa revista tinha um público pequeno e localizado, então podíamos pegar pesado. Quando você vai para a TV aberta, não pode sair apresentando a maior baixaria do mundo, vai revoltar o público. Não é uma auto-censura, é uma preocupação com o público.

  • Divulgação

    O Casseta Hélio de la Peña

Editor do UOL Tablóide - Qual o assunto mais "Casseta & Planeta" que existe? Política, corno, mulher, futebol?
Hélio de la Peña
- Escolheu bem, hein? Mas deixou alguns de fora: veado, boiola... (risos) Houve um tempo em que o tema mais "Casseta" era política, mas hoje gostamos de falar de comportamento, do que é falado nas ruas. Gostamos de notícia, do que tá na boca do povo.

Editor do UOL Tablóide - Em casos como o da semana passada, que teve Madonna no Rio e Ronaldo no Corinthians, o que é mais "Casseta"?
Hélio de la Peña
- É o Ronaldinho. O Ronaldinho é um enorme astro que está levando todo seu peso para o Corinthians, que não pode sentir o peso do Fofômeno e cair de novo, né? (risos) E a Madonna tá meio derrubada, né? A Madonna é como o papai Noel: de vez em quando chega no Rio de helicóptero e pousa no Maracanã acompanhada de veadinhos! (risos)

Editor do UOL Tablóide - Há alguém que você sempre quis sacanear, mas que, por algum motivo, não conseguiu? Ou por que alguém censurou vocês ou por que vocês mesmos se auto-censuraram?
Hélio de la Peña
- É sempre difícil sacanear o papa... Ele tem ligações muito fortes com o mundo... O Gustavo Kuerten nunca aceitou vir ao programa, mas isso não nos impedia de sacaneá-lo... E tem a minha mãe. Tá aí: a minha mãe nunca foi sacaneada pelo Casseta & Planeta!

Editor do UOL Tablóide - Tem uma matéria que narra "24 Horas na vida de José Ribamar", feita quando o Sarney ainda era presidente. Começa assim:
"05h45 - O presidente faz pipi.
06h38 - O presidente faz cocô.
07h15 - O presidente acorda."
Quando vocês encontram, ao vivo, "alvos" de suas piadas, como eles costumam reagir? Reclamam, fingem que gostam de vocês, como é?
Hélio de la Peña
- Uma coisa boa é a pessoa não dar muito cartaz. Não pode demonstrar que não gosta da piada, porque é aí que a piada pega. É o que aconteceu com os gaúchos, que sempre se manifestaram. Acabou virando uma onda.
De uma maneira geral, as pessoas dizem que gostam... Vai saber!
No Projac, tem ator de novela que pede para ser sacaneado, porque sabe que a gente só tira sarro de quem está fazendo sucesso. Então, tem ator que reclama, "pô, vocês nunca me sacanearam...".
Em Brasília, quando a gente vai para lá, há uma fila de políticos querendo ser sacaneados... Bom, eles não têm nada mais para fazer...

Editor do UOL Tablóide - Há uma reportagem que diz "Ócio & Lazer: O que Fazer Numa Estatal?". Entre as opções, cochilo com barreira, nadação e levantamento de peso com papel.
Hélio de la Peña
- A revista é de 25 anos atrás. Essa matéria é antiga. É bem provável que os funcionários públicos hoje trabalhem loucamente! (risos)
É curioso ver que algumas piadas continuam atuais. E curioso ver o que acontece com outras. Há o do Café Dunga, por exemplo. ((Publicada na época da Copa de 90, quando Dunga era jogador da seleção brasileira, dizia: "Café Dunga: Se o Café Pelé já era ruim imagine esse!") Perdeu o sentido porque o café não tem mais, porque o Dunga continua aí...

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