"Dá o seu nome para ela, que você vai ser jurado também. Teve uns que faltaram porque acharam que Itaquera era muito longe."
A convocatória aconteceu no camarim, enquanto este repórter entrevistava a candidata a miss Fernanda de Oliveira, que me contava seu drama particular: seu namorado morreu de leucemia três dias antes, e no camarim borrava a maquiagem de tanto chorar antes do desfile.
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O Editor do UOL Tablóide invejou loucamente o repórter que escolheu para cobrir o evento... Ser jurado de concurso de miss é tudo!)
"Pensei em desistir, mas estar aqui me ajuda a superar a dor", Fernanda me contava, quando recebi a notícia que iria julgar as garotas que entrevistava.
Trabalho duro. Um dos preceitos do jornalismo é não julgar as pessoas nas reportagens. Ser jurado é, exatamente, o oposto disto: o trabalho é só julgar...
Sentei no meu lugar no júri e logo fui contando para o colega ao lado a história de Fernanda. "Mas isso não pode influenciar em seu julgamento", me avisa Rafael Aurélio, que trabalha como scouter, nome técnico para os olheiros que caçam modelos em shoppings, festas e concursos desse tipo.
Novato na função, consulto suas notas para ter um parâmetro. "De mulher eu entendo: a Marília tem cara de modelo internacional", me dá a dica. Solteiro e sem namorada, Rafael não precisa esquentar a cabeça de dar explicações sobre seu invejável trabalho.
Do outro lado, senta-se o "missólogo" Alexandre Martins. O ex-carteiro de Osasco hoje se apresenta com essa denominação e diz fazer parte de um grupo de oito especialistas no país cuja profissão ainda não é reconhecida. Ele assiste concursos desde os 13 anos, viajou várias vezes para acompanhar eleições nacionais, coleciona literatura sobre o assunto, é sempre chamado para ser jurado, é cabeleireiro e promoter. Sonha em fazer um estágio com Osmel Sousa, o artífice por trás da fábrica de misses da Venezuela.
Ele também me instrui: "Tem que ser desinibida, sem ser vulgar: elegância serve para isso. Precisa ter charme e desenvoltura. Tem que saber o que fazer com as mãos na passarela. Não pode ficar o tempo todo com ela na cintura ou esticada para baixo."
Duas cadeiras para lá está o dentista Alex Covacic, que me conta como é um "voto técnico". Cirurgião, ele se intitula "especialista em harmonia facial" e explica como é um rosto bonito: "Necessita ter pontos de equivalência e concordância, uma mistura de simetria e assimetria que cria a noção de belo." Tento levar sua dica em conta, apesar de, vendo de baixo da passarela, o rosto ser a parte mais distante do corpo da candidata.
O júri se completa com uma ex-dançarina de grupo de forró, dois empresários, dois fotógrafos, uma diretora de casting e uma modelo profissional. No final, os jurados ganharam protagonismo quando, na votação da vencedora entre as seis finalistas, houve um erro na contagem e se descobriu que um deles tinha depositado duas cédulas. A recontagem obrigou as candidatas a estenderem o sorriso cerimonial, e a organização a se desculpar pela demora.
Eu, repórter, juro que, apesar da inexperiência, não fui eu que fiz essa patacoada. Ah, nem fui eu quem deu o cinco a uma candidata que ficou bastante chateada...
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Enciumado, o Editor do UOL Tablóide gostaria de recolocar o repórter-jurado sob suspeição...)