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Planilha da Odebrecht mostra uso de cervejaria em doações

Grupo Petrópolis poderia estar envolvido nas planilhas da Odebrecht - Reinaldo Canato/UOL
Grupo Petrópolis poderia estar envolvido nas planilhas da Odebrecht Imagem: Reinaldo Canato/UOL

Em São Paulo

25/03/2016 08h31

As planilhas apreendidas pela Operação Lava Jato na casa do presidente de um dos braços da Odebrecht indicam que o grupo pode ter usado distribuidoras de cerveja para mascarar doações eleitorais a políticos. Essas contribuições podem ter superado a cifra de R$ 30 milhões.

Desde que as planilhas foram reveladas, anteontem, políticos citados nas listas de beneficiários de recursos vêm negando ter recebido recursos de forma irregular. Ao justificar as doações da Odebrecht, alguns apresentaram recibos de doações oficiais em nome das empresas Leyroz de Caxias ou Praiamar. Agiram assim, por exemplo, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), e o ministro da Educação, Aloizio Mercadante (PT).

A Leyroz de Caxias e a Praiamar, porém, não são ligadas à Odebrecht e, sim ao grupo Petrópolis, que fabrica as cervejas Itaipava e Cristal.

Nas planilhas da empreiteira, a palavra "Itaipava" está anotada à mão ao lado de uma doação que indica um repasse de R$ 500 mil para Luís Fernando Pezão (PMDB), atual governador do Rio de Janeiro. Essa mesma doação para Pezão está relacionada, no topo da coluna dos valores, a um certo "Parceito IT" (sic) --indício de "parceria" entre a Odebrecht e a Itaipava no financiamento eleitoral.

Em outros trechos das planilhas, há valores significativos associados ao "parceiro IT". Em uma delas, que relaciona doações para a campanha eleitoral de 2012, o total chega a R$ 5,8 milhões. Em outro quadro, sem data definida, o "parceiro" aparece como responsável por doações de R$ 30 milhões a 13 partidos, entre eles PT, PMDB e PSDB.

Apesar de atuar em um setor cuja lucratividade não está associada a contratos com governos ou regulamentações votadas pelo Congresso, as empresas ligadas à cervejaria Itaipava apareceram entre as principais doadoras de campanhas em 2010, 2012 e 2014.

Substitutas

Anteontem, Aécio divulgou nota em que afirma que as doações citadas nas planilhas da Odebrecht foram legais e realizadas pela Leyroz de Caxias. Foram dois depósitos em 2010, que totalizaram quase R$ 1,1 milhão.

Outro citado nas planilhas da empreiteira, o ex-senador Demóstenes Torres também justificou supostas doações da Odebrecht com depósitos do "grupo Petrópolis", no total de R$ 1,2 milhão.

Mercadante divulgou nota relacionando diversas doações da Praiamar e da Leyroz de Caxias, no total de R$ 700 mil, às doações que aparecem nas planilhas da Odebrecht.

O deputado Roberto Freire (PPS-SP), cujo nome também está nos documentos apreendidos pela Polícia Federal, informou que "o valor de R$ 500.000,00 foi doado ao PPS pela construtora Odebrecht em 31/8/2012 (...) e devidamente declarado à Justiça Eleitoral". O comprovante anexado à nota não mostra um depósito da Odebrecht, mas da Leyroz de Caxias.

Empresas negam

As doações de campanha feitas pela Leyroz e Praiamar foram motivadas por "decisão pessoal" do administrador das duas distribuidoras de bebidas, Roberto Fontes, informou o advogado Ricardo Pieri, que defende o empresário.

Segundo ele, todas as doações foram devidamente informadas à Justiça Eleitoral e atendem aos limites impostos pela legislação. Segundo ele, só a Praiamar faturou R$ 2,5 bilhões em 2012, ano em que doou mais de R$ 22 milhões a diversos partidos.

O advogado disse ainda que as distribuidoras não fazem parte do grupo Petrópolis. São clientes dele, afirmou. A mesma informação foi dada pela assessoria do conglomerado.

A Odebrecht foi questionada sobre o motivo de possuir em seus arquivos planilhas com doações feitas por outras empresas. A construtora limitou-se a informar, em nota, que "os esclarecimentos necessários foram prestados durante as oitivas realizadas pela Polícia Federal".

Processo

Segundo a Receita Federal, tanto a Praiamar quanto a Leyroz de Caxias são controladas por Roberto Luís Ramos Fontes Lopes. Em 2013, Lopes foi processado por fraude tributária. Um trecho do processo informa que o Fisco de São Paulo suspeitava da ação de Fontes Lopes como "testa de ferro" de Walter Faria, controlador do grupo Petrópolis.

O Ministério Público Federal já encontrou elos entre Faria e os crimes investigados pela Operação Lava Jato. Uma conta ligada ao empresário na Suíça recebeu US$ 3 milhões do lobista Julio Camargo.

A conta, segundo reportagem publicada no ano passado pela Folha de S.Paulo, teria sido indicada por Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema de desvios de recursos da Petrobras. Na época, todos negaram irregularidades.