China e Índia revivem 'Grande Jogo' por influência militar

A Índia está apresentando o lançamento de seu míssil de longo alcance, nesta semana, como um grande êxito de seu poder militar.

Isso ocorre apenas alguns meses depois de ter sido anunciada a intenção de Pequim de dispor de instalações nas Ilhas Seychelles para abastecer seus navios militares. Essa intenção foi lida em Nova Déli na forma de "China abrirá sua primeira base no Oceano Índico", segundo a manchete de um jornal indiano.

Esses episódios poderiam ser considerados os últimos atritos de uma relação tensa e complicada, sobretudo tendo em conta que ambos os países disputaram uma guerra em 1962. Mas é também uma relação inevitável, já que Índia e China compartilham quase 4 mil quilômetros de fronteira.

O correspondente da BBC no sul da Ásia, Andrew North, define este cenário como um novo "Grande Jogo", ao referir-se ao termo usado para descrever a rivalidade entre o Império Britânico e o Império Russo por influência na Ásia Central no século 19.

Segundo North, nos dias atuais, mudam os jogadores, mas não o objetivo.

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O ministro de Defesa chinês, Liang Guanglie, tratou de acalmar a preocupação da Índia sobre a suposta base nas Ilhas Seychelles. Declarou que não havia motivo para temores, por se tratar apenas de instalação para abastecer navios.

Agora, quando é a Índia que move as peças de ataque, a China volta a mostrar suas técnicas de "Grande Jogo".

"A China e a Índia são grandes nações em desenvolvimento. Não somos competidores, e sim sócios", disse o porta-voz do Ministério do Exterior da China, Liu Weimin.

No entanto, o tom é muito diferente no editorial publicado pelo Global Times, jornal ligado ao Partido Comunista da China, que escreveu: "A Índia não deve superestimar a sua força. Ainda que tenha mísseis que possam chegar a muitas partes da China, isso não significa que ganhará algo por ser arrogante em suas disputas com a China".

"A Índia deveria ter claro que o poder nuclear da China é mais forte e mais confiável", disse o jornal.

Tensões crescentes

Segundo o correspondente da BBC, mesmo que os diplomatas insistam que querem laços cordiais, as tensões entre os dois gigantes vizinhos asiáticos são crescentes.

North diz que as hostilidades são visíveis há algum tempo nos meios de comunicação. Os jornais chineses acusam a Índia de ter inveja do êxito chinês.

Do lado da Índia, um alto diplomata admitiu a North que há um "deficit de confiança" entre os dois países, mas os indianos desconsideram as possibilidades de um conflito real.

Quase 50 anos depois de uma breve guerra, Nova Déli e Pequim ainda não conseguem entrar em acordo a respeito de boa parte dos quase 4 mil quilômetros de fronteira comuns. E a corrida armamentista continua de ambos os lados, diz North.

E, como se as fronteiras não fossem suficientes para provocar discórdia entre os vizinhos, há ainda o Tibete.

Frentes de batalha

Segundo o ex-titular das Relações Exteriores da Índia Shyam Saran, a relação entre os dois países está fadada a ser uma de adversários.

Ele critica as políticas da China: "Querem estar por cima, talvez não para dominar o território, mas para ter poder de veto sobre qualquer política de seus vizinhos que não gostem".

Como no "Grande Jogo" original, esta é uma batalha de muitas frentes, que se luta com ajuda, investimentos, política e cultura, do Paquistão até o Nepal.

Paradoxalmente, parte das razões pelas quais a relação "é mais complicada", é porque "estão cada vez mais próximos", diz Jonathan Holslag, especialista em China do Instituto de Estudos Contemporâneos, com sede em Bruxelas.

O comércio entre Índia e China está se expandindo, mas está inclinado em benefício da China. E a economia domina a ajuda internacional e as obras públicas. A China está construindo e melhorando estradas e ferrovias que conectam zonas próximas da fronteira.

"A China está muito mais adiantada do que a Índia em matéria de transporte ao longo da fronteira, o que lhe dá a possibilidade de estar pronta para mover tropas na divisa em caso de outra guerra", diz North.

EUA

Para compensar esse desequilíbrio, há os Estados Unidos. Uma semana depois do anúncio das intenções chinesas em Seychelles, o número dois da diplomacia americana, William Burns, visitou Nova Déli e tratou de temas de cooperação nuclear.

Segundo a visão de Pequim, a Índia colabora com uma política de contenção levada adiante por Washington.

No entanto, há certa cautela, diz Saran. "Os EUA não se decidem sobre tratar a Índia como sócio ou não, além de (estarem pendentes) questões relacionadas a tecnologia", afirma.

O certo é que, ao longo da fronteira, as coisas têm estado tranquilas nos últimos 30 anos, diz North.

"Não se disparou um tiro, nem se perdeu um soldado", diz o porta-voz do Ministério do Exterior da Índia, Vishnu Prakash.

Mas alguns veem riscos na contínua guerra de palavras nos meios de comunicação. "Só 25% do que dizem é real", diz Holsag. "Mas levanta um sentimento nacionalsta e reduz a possibilidade de alcançar acordos."

O novo "Grande Jogo" está em curso.



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