Inconsistência política prejudica Argentina, dizem analistas

A inconsistência na condução da política econômica da Argentina prejudica o desenvolvimento do país no longo prazo, no entendimento de analistas, diplomatas e políticos ouvidos pela BBC Brasil.

''A Argentina é um país ciclotímico, um país com zigue-zague que não aprende com o passado. Repete os mesmos erros em outros contextos'', disse o ex-embaixador do Brasil na Argentina, Marcos de Azambuja.

Para ele, a alma do país vizinho é ''complexa'' e entre uma decisão ''sensata'' e outra ''abrupta'', os argentinos preferem sempre a ''abrupta e traumática''. Na sua opinião, a forma como foi realizada, no mês passado, a estatização da petroleira YPF de capitais espanhóis e argentinos, confirma este perfil.

''Um país pode ter o direito de optar pela nacionalização, mas de uma forma negociada, conversada, e não da forma abrupta como foi feita'', afirmou. Azambuja entende que as ''guinadas abruptas'' marcam a história do país que costuma pensar ''no curto prazo'' sem planejar os efeitos das medidas no longo prazo.

Para ele, a trajetória da política e da economia brasileiras é diferente, já que no Brasil, entende, costuma-se optar por transições paulatinas e sem a tendência ao ''extremismo'' como ocorre com a Argentina.

Aerolíneas Argentinas

Como exemplo de ''zigue-zague'', Azambuja citou a companhia aérea de bandeira nacional Aerolíneas Argentinas - que, como a YPF e empresas de outros setores, foi privatizada nos anos 90 e estatizada na gestão da presidente Cristina Kirchner.

''Eu já vi a Aerolíneas ser privatizada, ser vendida para a Ibéria e de novo estatizada. É um país que vai mudando suas medidas com frequência'', disse.

O ex-embaixador da Argentina no Brasil, Alieto Guadagni, também entende que a raiz das incertezas sobre o futuro econômico da Argentina está na ''mania de não se pensar no longo prazo''. Para ele, o ''imediatismo'' e a ''imprevisibilidade'' são responsabilidade dos ''políticos'' que governam o país.

''Cada novo governo entende que é hora de recomeçar tudo de novo, e não há continuidade das medidas. Esse é um problema que afeta o desenvolvimento do país e afasta os Investimentos Estrangeiros Diretos (IED)'', disse Guadagni.

Dados da Cepal revelaram que o Brasil recebeu 43,8% do IED em 2011 e a Argentina cerca de 7% do total. O país perdeu posição para países que antes indicavam menor potencial econômico, como Colômbia e Peru, por exemplo. ''Difícil investir em um país que não estabelece regras de longo prazo'', afirmou o ex-secretário de Energia, Daniel Montamat.

Nos quase 20 anos de seu período democrático (iniciado em 1983), a Argentina defendeu as estatizações, na década de 80, as privatizações, nos anos 90, e novamente as estatizações nesta década, do século 21.

Além da YPF e da Aerolíneas Argentinas, o governo de Cristina Kirchner estatizou os fundos de pensão e de aposentadorias e seu marido e antecessor, Nestor Kirchner (2003-2007) e empresas como a de Correios e de Águas.

Petrobras

A falta de continuidade e eficácia das agências públicas de controle dos setores privatizados é outro problema detectado por observadores atentos da Argentina.

Um integrante do governo da presidente Dilma Rousseff recordou que a petroleira YPF, fundada em 1922, foi modelo para a Petrobras, criada em 1953 - mas ao anunciar a estatização da YPF neste ano, Cristina citou a Petrobras como modelo a ser copiado.

''Os argentinos tiveram a grande ideia da YPF e nós, brasileiros, nos inspiramos nela para criar a Petrobras. A diferença é que levamos a ideia adiante e cuidando do desenvolvimento da empresa enquanto a Argentina foi obrigada a privatizá-la porque mal administrada tornou-se impossível para o caixa do governo. A privatização não foi então questão ideológica, mas financeira'', afirmou o integrante do governo brasileiro, que não quis ser identificado.

A senadora de oposição Norma Morandini disse que foi contra a privatização da YPF e que era a favor da estatização, mas não da forma como foi feita. Por isso optou pela abstenção na votação da lei que nacionalizou a companhia. ''Acho que um país deve controlar seus recursos naturais, como o petróleo, mas eu não poderia apoiar uma estatização mal feita. A Argentina passou de exportar a importar petróleo (neste século) não só pela Repsol-YPF, mas pela má administração das atuais autoridades'', afirmou.

Num debate no Senado argentino, o historiador econômico Nicolas Gadano, ex-empregado da YPF, recordou que a companhia foi uma empresa ''moderna'', mas que pecou pela falta de ''cuidados e de continuidade''. ''Foi uma empresa moderna que chegou a ter 50 mil empregados. Mas com uma presença forte demais dos sindicatos e com péssima administração e quase quebrou no fim dos anos 80'', disse Gadano.

O economista Orlando Ferreres também entende que a Argentina inicia, mas não conclui seus projetos. ''Antigamente, quando alguém começava a obra de uma casa aqui na Argentina primeiro plantava uma palmeira, mas quando não podia concluir a obra, lá deixava a palmeira. Daí surgiu a expressão, 'estar na palmeira'. E é como há muito tempo estamos na Argentina'', disse Ferreres.

Como Guadagni, ele acredita que os políticos do país costumam defender o ''relançamento'' da Argentina, a partir de suas próprias ideias, mas sem pensar no conjunto do país e em seu futuro. Ele disse que a Argentina acaba ''improvisando'' suas medidas e afugentando os investimentos e projetos de longo prazo.

Na opinião de Ferreres, os argentinos precisam de uma ''mudança moral'' para gerar um ''projeto de longo prazo''.

Giro UOL

Quer receber um boletim com os destaques da manhã e da noite? É só deixar seu e-mail e pronto!

 

UOL Cursos Online

Todos os cursos