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Novas acusações renovam pressão para investigação sobre Lula

11/12/2012 18h44

O vazamento do depoimento dado em setembro pelo empresário Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República (PGR) e o recente indiciamento da ex-assessora da Presidência Rosemary Noronha recolocaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no centro dos principais embates políticos do país.

Divulgada nesta terça-feira pelo jornal O Estado de São Paulo, a acusação de Valério de que Lula avalizou os empréstimos que alimentaram o mensalão levou partidos opositores e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, a sugerir que a PGR investigue o caso.

A denúncia vem à tona quatro dias após a Polícia Federal (PF) indiciar por quatro crimes a ex-assessora da Presidência Rosemary Noronha, nomeada por Lula em 2003. Ao lado de 23 pessoas, Rosemary é acusada de participar de um esquema de corrupção no governo federal, o que ela nega.

Trechos da investigação da PF sugerem que Rosemary se valia de sua proximidade com Lula para influenciar nomeações em agências federais. O ex-presidente, que está na França, não comentou a investigação da PF. Quanto à última acusação de Valério, disse em breve comentário a jornalistas que se trata de "mentira".

Também na França, a presidente Dilma Rousseff defendeu Lula ao ser questionada sobre o depoimento de Valério.

"É sabida a minha admiração, o meu respeito e minha amizade pelo presidente Lula. Portanto, eu repudio todas as tentativas, e esta não será a primeira vez, de tentar destituí-lo da imensa carga de respeito que o povo brasileiro lhe tem."

Aval e gastos pessoais

Em depoimento voluntário à PGR em setembro, Valério - recentemente condenado pelo Supremo a 40 anos de prisão - afirmou que Lula avalizou os empréstimos que irrigaram os pagamentos ilegais a congressistas. Os pagamentos estão no centro da denúncia do mensalão.

Segundo o Estado de São Paulo, Valério procurou a PGR para, em troca do novo depoimento, tentar obter proteção e reduzir sua pena.

Na ocasião, ele também afirmou ter repassado, em 2003, dinheiro para "gastos pessoais" de Lula. O empresário disse ter feito um depósito de R$ 100 mil na conta da empresa Caso, do ex-assessor presidencial Freud Godoy, valor que se destinaria ao então presidente.

Em seu depoimento, Valério também disse ter sofrido ameaças de morte de Paulo Okamotto, ex-integrante do governo que hoje dirige o instituto Lula. O empresário afirmou ainda que seus advogados no julgamento do mensalão são pagos pelo PT. Okamotto e o PT negaram as informações.

Após a publicação da reportagem, o PSDB disse que apresentaria um requerimento para convocar Valério para um depoimento no Senado. O pedido deverá ser analisado na próxima semana, mas mesmo opositores avaliam que há poucas chances de ele ser aprovado, dada a maioria governista na Casa.

O PSDB e o PPS cobraram ainda que a PGR abra um inquérito para analisar as denúncias de Valério. Em entrevista a jornalistas, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, também disse ser favorável à investigação.

Já o presidente do PT, Rui Falcão, saiu em defesa de Lula. Em nota, ele disse lamentar "o espaço dado pela imprensa para as supostas denúncias assacadas pelo empresário Marcos Valério contra o partido e contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva".

"Caso essas declarações efetivamente tenham sido feitas em uma tentativa de 'delação premiada', deveriam ser tratadas com a cautela que se exige nesse tipo de caso", disse Falcão.

Segundo ele, as afirmações de Valério "refletem apenas uma tentativa desesperada de tentar diminuir a pena de prisão" que ele recebeu do STF.

Condenação

Nos últimos meses, o STF condenou Valério no julgamento do mensalão pelos crimes de corrupção ativa, peculato (uso de agente público para desviar recursos), formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Entre todos os 25 réus condenados no julgamento, Valério obteve a pena mais elevada: 40 anos de prisão, além de multa de R$ 2,8 milhões.

Na denúncia apresentada ao Supremo, a PGR classificou Valério como o "principal operador" do mensalão. Segundo a PGR, o empresário intermediou as transações financeiras que teriam permitido ao PT realizar pagamentos a congressistas da base aliada durante o primeiro mandato de Lula.

Em setembro, após a revista Veja publicar que Valério teria dito a pessoas próximas que Lula sempre soube do mensalão, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, afirmou que eventuais declarações do empresário deveriam ser tratadas "com cautela".

"Marcos Valério é uma pessoa que, ao longo de toda participação dele nesse processo, deixou muito claro que é um jogador, e é preciso ver então que tipo de jogo está sendo feito", disse o procurador.

Gurgel não se pronunciou sobre o depoimento de Valério à PGR, em setembro, nem sobre os pedidos de abertura de um inquérito para investigar eventual participação de Lula no mensalão.