Crise na Ucrânia: Punição a Putin é teste para Obama

Mark Mardell
Editor da BBC News, em Washington

  • Alexei Nikolsky/EFE

    O russo Vladimir Putin (à direita) e o norte-americano Barack Obama em encontro em junho de 2013

    O russo Vladimir Putin (à direita) e o norte-americano Barack Obama em encontro em junho de 2013

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ordenou medidas destinadas a prejudicar a economia da Rússia e isolar o país, como retaliação ao envio de tropas russas à Ucrânia.

Autoridades americanas dizem que o presidente russo Vladimir Putin tomou uma péssima decisão, que vai deixar o seu país em uma posição muito mais fraca.

IMPASSE COM A RÚSSIA MOTIVOU REVOLTA NA UCR NIA

As manifestações começaram em novembro, depois que o então presidente Viktor Yanukovich anunciou sua decisão de não assinar um acordo de cooperação com a União Europeia, que poderia, no futuro, ter a Ucrânia como um de seus membros.

A questão, no entanto, é mais complexa e tem raízes na história recente do país, nascido após a desintegração da ex-União Soviética.

O país está no meio de uma disputa de forças entre grupos que querem mais proximidade com a União Europeia e outros que têm mais afinidade com a Rússia. Yanukovich foi deposto em fevereiro, e novas eleições foram convocadas.

As atenções agora se viraram para a Crimeia, região autônoma da Ucrânia cuja maioria é alinhada à Rússia, que convocou um referendo sobre sua soberania.

A crise política na Ucrânia acaba assim por ser um teste crítico da liderança de Obama, que vai demonstrar o quanto os Estados Unidos ainda têm de influência no mundo.

O secretário de Estado americano John Kerry está a caminho da capital ucraniana, Kiev, enquanto os Estados Unidos tentam coordenar uma resposta internacional para colocar pressão sobre o presidente Putin.

Mas altos funcionários do governo americano praticamente já descartaram a possibilidade de uma intervenção militar.

Lentidão

Os críticos de Barack Obama acusam o presidente de agir muito lentamente e, mais uma vez, permitir que alguém cruze o limite de uma "linha vermelha" traçada por ele.

Na sexta-feira à noite, Obama advertiu que haveria "custos" à intervenção militar russa na Ucrânia. Horas mais tarde, as tropas russas entraram em território ucraniano. Os EUA agora dizem que há mais de 6.000 soldados russos ocupando a região da Crimeia.

Protestos são reprimidos com violência na Ucrânia
Protestos são reprimidos com violência na Ucrânia

Há quem diga que Obama enfrenta um problema de credibilidade, o que tem encorajado Putin.

Certamente, o Ocidente parece mal preparado para esta escalada da crise que deveria ter sido prevista pelos líderes ocidentais. Afinal, era óbvio que Putin não iria desistir facilmente.

Lutaria se fosse jovem, diz ucraniano de 80 anos em SP

  • Rafael Mansano/UOL

Mas o fator Obama pode estar sendo superestimado aqui. Vale a pena lembrar que Putin foi à guerra na Geórgia quando George W. Bush estava no Salão Oval, e ninguém achava que o presidente americano era um pacifista.

Mas é claro que Bush pensou duas vezes antes de lutar contra outra potência nuclear por uma antiga parte do ex-império soviético.

Altos funcionários do governo reagiram furiosamente à sugestão de que o comportamento passado de Obama tenha encorajado Putin.

Eles dizem que a política do líder russo na Ucrânia falhou, e que tudo que lhe restou foi o uso do poder militar. Para eles, o mundo deveria culpá-lo, e não a Obama.

Imigrantes ucranianos em SP acompanham protestos na terra natal

Pressão

Deve haver muito mais articulação nos próximos dias, com os Estados Unidos tentando coordenar um aperto internacional sobre a Rússia.

O primeiro ponto de pressão é a reunião de junho do G8, em Sochi, balneário russo que acaba de sediar os Jogos Olímpicos de inverno. Estados Unidos, Canadá e Reino Unido cancelaram reuniões de preparação para o encontro.

O plano alternativo é enviar observadores internacionais para se certificar de que os russos que vivem na Ucrânia estão seguros e não correm perigo. A oferta dificilmente terá apelo junto a Putin.

Vale a pena lembrar que a Crimeia foi uma parte da Rússia a partir de 1783 e que nos primeiros anos da União Soviética era uma república autônoma dentro da federação. O líder soviético Nikita Khrushchev transferiu o território à Ucrânia em 1954.

Agora Putin o quer de volta. Retirar-se seria um fracasso e uma humilhação para ele.

O problema para Obama é que sanções econômicas levam muito tempo para funcionar. Putin pode simplesmente não se importar com a pressão diplomática - ele parece gostar de incomodar os líderes ocidentais.

É fácil ver como a situação poderia ficar muito pior - e não é clara a forma como Obama reagiria a um aprofundamento da crise.

Notícias relacionadas



Shopping UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos