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Em 'Super Trunfo' de tiranos, Vargas disputa com Hitler e Saddam

Getúlio Vargas é um dos protagonistas do "Tiranos", espécie de SuperTrunfo que tem ditadores como tema - Weltquartett
Getúlio Vargas é um dos protagonistas do "Tiranos", espécie de SuperTrunfo que tem ditadores como tema Imagem: Weltquartett

Renata Miranda

De Berlim, para a BBC Brasil

01/09/2015 14h56

Quem foi o pior ditador da História, Adolf Hitler ou Saddam Hussein? O austríaco e o iraquiano disputam no jogo de cartas alemão "Tiranos", que reúne em três edições 96 dos mais cruéis e sanguinários governantes que o mundo já teve. E também está na briga o ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas, que figura em uma das cartas do jogo.

Criado pelos alemães Jürgen Kittel e Jörg Wagner, o jogo é uma espécie de "Super Trunfo" no qual cada carta traz uma ficha com os "atributos" de cada um dos ditadores.

Lançado em 2008, após dez anos de minuciosas pesquisas que tinham como objetivo selecionar "o pior dos piores", o jogo conta com 32 ditadores divididos em oito grupos - entre eles, monarcas, fascistas, generais, fanáticos religiosos, "fantoches" dos EUA, entre outros. Vargas aparece na terceira edição, representando o Brasil no grupo dos que eles classificam de "fascistas clericais", com algum tipo de laço com a igreja.

As regras do "Tiranos" são semelhantes às do "Super Trunfo", lançado na Alemanha em meados dos anos 50 e popularizado no Brasil na década de 80.

O jogo original trazia estampado em suas cartas carros, aviões e tanques de guerra. O objetivo era conseguir o maior número de cartas possível ao comparar categorias - em cada rodada era estabelecido qual aspecto seria comparado, e o maior valor atribuído a tal aspecto era o vencedor.

No "Tiranos", porém, em vez de comparar a potência de um tanque de guerra e a velocidade de um porta-aviões, os jogadores podem comparar o ano de nascimento do ditador, a idade que tinha quando chegou no poder, o tempo que governou, quantas pessoas morreram durante seu tempo no poder, e quanta riqueza acumulou durante este período.

"Se já jogávamos competindo para ver qual arma era a mais poderosa, por que não competir com as pessoas que controlavam esses arsenais?", disse Wagner em entrevista à BBC Brasil. Foi daí que veio a ideia de fundar a Weltquartett, empresa com sede em Hamburgo, no norte da Alemanha, que produz e distribui o "Tiranos".

Segundo Wagner, que fez toda a pesquisa para o jogo, a primeira edição traz os ditadores "clássicos", como Hitler e Mao Tsé-tung.

'Super Trunfo' de tiranos1 - Weltquartett - Weltquartett
Imagem: Weltquartett

As edições posteriores foram lançadas por causa do extenso material disponível. "Quando você começa a pesquisar esse tema é bastante deprimente porque há ditadores novos aparecendo todos os dias." Uma quarta edição já está em fase de pesquisa e deve ser lançada daqui a dois anos.

A decisão de incluir Getúlio Vargas no jogo veio durante a pesquisa para a terceira edição, quando o grupo de "fascistas clericais" foi criado. "Estava bem claro que teríamos nesse grupo o português António de Oliveira Salazar, então começamos a procurar outros integrantes e aí achamos Getúlio", explicou Wagner.

O empresário ainda ressaltou que, durante a pesquisa para a segunda edição, composta em sua maioria por ditaduras militares, o Brasil só não foi incluído porque foi muito difícil achar apenas um ditador cruel que representasse o período como um todo. "No caso da Argentina, por exemplo, era claro que tínhamos de incluir Jorge Videla, mas com a ditadura brasileira foi difícil identificar só uma pessoa."

'Misérias do Mundo'

O "Tiranos" faz parte de uma série produzida pela Weltquartett intitulada "Misérias do Mundo". Entre os outros jogos da série estão "Epidemias", "Drogas", "Vermes e Pestes", "Centrais Nucleares", e "Desastres petroleiros" --todos eles vendidos por cerca de 10 euros.

'Super Trunfo' de tiranos - Weltquartett - Weltquartett
Imagem: Weltquartett

 

O jogo dos ditadores, no entanto, é o mais popular da série, e a primeira edição acaba de ser traduzida para o inglês para ser comercializada no mercado internacional.

Lançado em 2008, o jogo conta com 32 ditadores divididos em oito grupos --entre eles, monarcas, fascistas, generais, fanáticos religiosos, "fantoches" dos EUA.

De acordo com Wagner, a "beleza" do "Tiranos" é que a definição de "pior" depende da categoria escolhida em cada rodada.

"É difícil dizer qual a carta mais poderosa do jogo", disse Wagner.

"Hitler tem um alto número de vítimas, mas ficou apenas 12 anos no poder." Em uma disputa contra Vargas nessa categoria, por exemplo, Vargas seria considerado o "pior", já que ficou 18 anos à frente do governo brasileiro.

Comparação

Para o historiador Luiz Antonio Dias, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o fato de Vargas ser colocado no mesmo patamar que Hitler é problemático, ainda que apenas de brincadeira.

"Durante o Estado Novo, pode-se dizer que Vargas foi um ditador. Mas do ponto de vista histórico não podemos falar que ele foi um fascista", explicou o professor do Departamento de História da PUC-SP.

Outro equívoco do jogo, segundo o historiador, é o número de mortes atribuído ao governo do ex-presidente brasileiro. Enquanto a carta do jogo mostra que 5 mil pessoas morreram durante o período em que Vargas ficou no poder, Dias acredita que o número de vítimas seja bem inferior.

"Não tenho ideia de como eles chegaram a 5 mil mortos", disse Dias. Segundo ele, não há um número oficial de mortos durante o período. "Mesmo se contabilizarmos os cerca de 2 mil mortos durante a Segunda Guerra, ainda falta muito para chegar nos 5 mil do jogo."

Os organizadores do jogo dizem que pesquisaram em diversas fontes para chegar ao número, mas não especificaram quais.

Dias ainda ressalta que apesar de a memória de Vargas estar diretamente ligada aos anos da ditadura do Estado Novo, para a classe operária brasileira ele foi um herói pelos avanços trabalhistas promovidos durante o seu governo.

"Ao meu ver esse jogo é problemático porque reforça a ideia de que ele foi um tirano e isso é preocupante porque coloca ele no mesmo nível de líderes muito mais terríveis", disse o historiador.

"Tudo bem que em jogos e romances históricos há espaço para uma certa 'liberdade poética' na hora de recontar os fatos, mas é preciso cautela para não criar uma versão equivocada da História."