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De escalado de última hora a pivô de escândalo: quem é Marcelo Calero

O ex- ministro da Cultura Marcelo Calero, em entrevista à "Folha de S.Paulo" - Alan Marques/Folhapress
O ex- ministro da Cultura Marcelo Calero, em entrevista à "Folha de S.Paulo" Imagem: Alan Marques/Folhapress

25/11/2016 14h15

Ele tinha apenas seis anos de idade quando "Vale Tudo" (1988) foi ao ar na TV Globo, mas desde que se transformou no pivô do mais recente escândalo a abalar a Presidência da República, a comunicação de Marcelo Calero em seu perfil pessoal nas mídias sociais se limitou a um post no Facebook sobre a novela.

"Bravo!", escreveu na publicação de um vídeo em que o personagem Salvador (Sebastião Vasconcelos) dá uma lição de moral na neta, Maria de Fátima (Glória Pires).

Na cena, a vilã questiona o avô, um funcionário do Ministério da Fazenda, após ele negar um pedido de ajuda a um amigo dela para trazer contrabando do exterior sem pagamento de imposto.

"Isso aqui é país de trambiqueiro. Você vai conseguir o que com sua honestidade? (...) Tem colega seu que tem apartamento de 200 metros quadrados em Ipanema", reclama a neta.

"Quem é conivente, também é responsável", rebate Salvador, acrescentando: "Quando eu morrer, além desta porcaria de casa no fim do mundo, eu queria muito te deixar como herança princípio, dignidade e honra."

A publicação vem gerando um número crescente de compartilhamentos e comentários -- elogiosos em sua maioria absoluta. Um diz: "Vamos lá! Aperte o play e derrube a República".

Outro faz referência à nova geração de servidores, da qual Calero, nascido em 1982, faz parte: "A esperança desse país está na nova geração de pessoas públicas, os velhos estão podres, e você mostrou isso".

Diplomata e candidato a deputado

Marcelo Calero, 34, é um diplomata nascido do tradicional bairro da Tijuca, na zona norte do Rio Janeiro. Foi aluno do Santo Ignácio, colégio particular de elite, se formou em Direito na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e já trabalhou na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e na Petrobras.

Entrou para o Itamaraty em 2007. O próprio Calero faz questão de dizer -- a exemplo do que ocorreu na entrevista à "Folha de S.Paulo" em que detonou o escândalo -- que passou no concurso em quinto lugar, trabalhando e estudando ao mesmo tempo. Como diplomata, trabalhou na Embaixada do Brasil no México.

Embora tenha se filiado ao PMDB há um ano, não é um completo iniciante na política.

Em 2010, tentou se eleger como deputado federal pelo PSDB do Rio. Ganhou 2.252 votos, número insuficiente para levá-lo à Câmara dos Deputados.

Calero atuou em diferentes cargos na gestão do prefeito do Rio, o também peemedebista Eduardo Paes, um de seus "padrinhos" na política. Passou pela assessoria internacional, presidiu o Comitê Rio 450 (que organizou a festa de 450 anos do Rio) e, em maio de 2015, assumiu a Secretaria de Cultura do município.

Em maio deste ano, deixou o cargo para fazer parte do governo do então presidente interino Michel Temer.

De solução a pivô de escândalo

Calero assumiu o Ministério da Cultura num momento em que Temer era alvo de duras críticas por ter rebaixado a pasta a uma secretaria subordinada ao Ministério da Educação.

À época, centenas de artistas e ativistas ocuparam agências ligadas ao Ministério da Cultura em mais de 15 capitais como forma de protesto.

O presidente recuou e decidiu manter o status de ministro para o titular da pasta. Ainda assim, Temer teve dificuldade em encontrar alguém que aceitasse o cargo -- sob críticas à época por ter nomeado apenas ministros homens, ele tentava emplacar uma mulher no posto, mas não obteve sucesso.

Calero foi, assim, um dos últimos a entrar para o alto escalão do então novo governo.

Durante sua gestão, defendeu Temer e criticou artistas que protestaram contra o então presidente interino.

Sobre o manifesto do elenco do filme "Aquarius", que durante a última edição do Festival de Cannes ergueu cartazes de protesto afirmando que um golpe de Estado estava em curso no Brasil, ele declarou, por exemplo, que isso prejudicava a imagem do país no exterior.

"Eu acho muito ruim. Como qualquer manifestação, tem que ser respeitada, isso está fora de questionamento. Agora, acho ruim, em nome de um posicionamento político pessoal, causar prejuízos à reputação e à imagem do Brasil", disse Calero ao programa Preto no Branco, exibido no Canal Brasil.

Em outro episódio, protagonizou um bate-boca após ser chamado de "golpista" por participantes de um protesto ocorrido durante um festival de cinema em Petrópolis (RJ) -- em seguida, deixou o evento.

Dentro do Ministério da Cultura, era visto com um gestor diplomático e "certinho", que sempre via motivos para enviar mensagens, e-mails e publicar vídeos internos elogiando a equipe. Fora dele, conquistou novos seguidores para seu Instagram, repleto de selfies acompanhadas de elogios como "lindo!" e "gato!".

Mas no último dia 18, Calero pediu demissão do cargo. Em entrevista à "Folha de S.Paulo" e ao Jornal Nacional, da TV Globo, confirmou que o motivo principal de sua saída do ministério havia sido a pressão que sofreu do titular da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, para fazer com que o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) liberasse um empreendimento de luxo em Salvador.

Homens fortes

Geddel teria comprado na planta uma unidade do La Vue Ladeira da Barra, um prédio de 24 andares a ser erguido numa área tombada em Salvador. Cada apartamento -- um por andar -- deve ter 259 metros quadrados e 4 suítes.

Por isso, segundo Calero, o colega o pressionava para desembargar a obra junto ao Iphan, órgão ligado ao Ministério da Cultura.

Apesar de a superintendência do Iphan na Bahia ter autorizado o empreendimento, a presidência do órgão revogou a autorização por avaliar que nem todos os requisitos legais haviam sido cumpridos.

"Entendi que tinha contrariado de maneira muito contundente um interesse máximo de um dos homens fortes do governo", declarou Calero à "Folha de S.Paulo" depois de deixar o cargo.

Ele repetiu as acusações em depoimento à Polícia Federal -- e foi além. O ex-ministro disse que, após ser pressionado por Geddel, procurou Temer.

Nas palavras de Calero, o presidente o "enquadrou" e pediu que buscasse uma saída para o impasse na liberação do empreendimento. A conversa com Temer, de acordo com as declarações do ex-ministro, ocorreu no Palácio do Planalto no último dia 17, véspera de seu pedido de demissão.

Ainda segundo o depoimento, o presidente lhe falou que a decisão do Iphan em barrar o empreendimento criou "dificuldades operacionais em seu gabinete, posto que o ministro Geddel encontrava-se bastante irritado".

Temer ainda teria dito, de acordo com o ex-ministro, que "política tinha dessas coisas, esse tipo de pressão".

Calero ainda narrou ter recebido ligação de outro homem forte do governo, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, que argumentou que, se a questão estava judicializada, não deveria haver decisão administrativa definitiva a respeito.

Geddel e Padilha negam que tenha havido pressão. O Palácio do Planalto, por sua vez, nega qualquer irregularidade e afirma que o presidente Michel Temer defendeu uma "saída técnica" para o embate ao pedir que o caso fosse levado à Advocacia-Geral da União (AGU).

E que apenas buscou arbitrar conflitos entre os ministros.

O que acontece agora

Por citar autoridades com foro privilegiado, a Polícia Federal encaminhou o depoimento de Calero ao Supremo Tribunal Federal, que, por sua vez, remeteu o caso para análise da Procuradoria-Geral da República.

Em outra esfera, a Comissão de Ética Pública da Presidência da República decidiu abrir um processo para investigar a conduta de Geddel no episódio relatado pelo ex-ministro da Cultura.

Há relatos de que algumas das conversas teriam sido gravadas por Calero -- até o momento, nem o Ministério da Justiça nem a Polícia Federal se manifestaram sobre essas supostas gravações.

Na esteira da revelação do teor do depoimento do ex-ministro, Geddel encaminhou uma carta de demissão a Temer nesta sexta-feira, em uma tentativa de estancar o desgaste.

Parlamentares da oposição trabalham para formalizar, na próxima segunda-feira, um pedido de impeachment de Temer.

"Esse é um caso claro de crime de responsabilidade, de advocacia administrativa, de tráfico de influência", afirmou em pronunciamento no plenário o senador Lindbergh Farias (PT-RJ).

O presidente recebeu, porém, o apoio de aliados, como o senador Aécio Neves (PSDB-MG).