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Brumadinho: as histórias de algumas das vítimas da trágedia em MG

Nove das mais de 280 pessoas que ainda estão desaparecidas após rompimento de barragem em Brumadinho - Arquivo pessoal
Nove das mais de 280 pessoas que ainda estão desaparecidas após rompimento de barragem em Brumadinho Imagem: Arquivo pessoal

27/01/2019 22h03

A BBC News Brasil conversou com algumas famílias que ainda buscam seus parentes e outros que confirmaram suas mortes para conhecer as histórias das pessoas atingidas pela onda de lama.

*Matéria atualizada às 19h37 de segunda-feira (28)

Sebastião é motorista, Adriano é mecânico e Daiane, enfermeira. Todos têm trajetórias diferentes - famílias maiores ou menores, moradores desta ou daquela cidade em Minas Gerais -, mas carregam algo em comum: trabalham para a Vale.

E agora, depois do rompimento de três barragens na Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), são unidos por mais do que uma empresa. Como mais de 300 pessoas na região, Sebastião, Adriano e Daiane não dão notícias desde a sexta-feira.

Segundo os números mais recentes da Defesa Civil de Minas Gerais, divulgados na noite de domingo, 65 pessoas morreram após a tragédia. Outras 279 seguem desaparecidas.

A BBC News Brasil conversou com algumas famílias que ainda buscam seus parentes e outras que já confirmaram suas mortes para conhecer as histórias das pessoas atingidas pela onda de lama. Leia a seguir:

Ramon Junior Pinto, 34, engenheiro de produção

Ramon trabalha na Vale há quase dez anos, no centro administrativo da mina de Brumadinho. A última pessoa a ter contato com ele foi um amigo, para quem Ramon mandou uma mensagem de Whatsapp às 12h27. A resposta do amigo, no minuto seguinte, já não foi entregue.

Ele é casado e pai de uma menina de cinco anos, cujo aniversário seria comemorado no sábado. No dia anterior ao rompimento da barragem, Ramon havia tirado folga para passar o dia com a menina.

As informações vêm do seu primo, Gleidson, que, frustrado com a falta de informação sobre o desaparecimento de Ramon, foi ao local onde acontecem os resgates e participou como voluntário das buscas, mas não encontrou qualquer sinal do primo.

Djener Paulo Las-Casas Melo, 31, operador de máquina

Djener Paulo era operador de máquinas e começara a trabalhar para a Vale havia menos de dois anos. Desde pequeno tinha gosto por tarefas mecânicas. Quando era criança, seu hobby era montar e desmontar brinquedos, diz um parente.

Montou em casa uma pequena oficina, onde passava horas. Quando um eletrodoméstico dos pais quebrava, era para Djener que o entregavam.

Também gostava de fazer trilhas de moto - a foto acima mostra ele em um desses passeios.

Ele estava noivo de Ketre, com quem namorava havia dez anos.

Deixa também seus pais, a costureira Maria das Graças Las Casas, e o operador de máquina Moacir Melo, de quem era o único filho.

Segundo um familiar, os bombeiros encontraram seu corpo dentro da máquina onde estava trabalhando quando veio a onda de lama.

Marlon Rodrigues Gonçalves, 34, administrador

Formado em administração de empresas, Marlon trabalha no centro administrativo da Vale há cerca de dois anos, diz seu irmão, Marcone.

É casado e tem uma filha de dois anos.

Por causa de uma doença na infância, tem uma perna maior que a outra, mas isso não o impede de jogar futebol com os amigos e parentes.

Às 12h29, uma amiga enviou uma mensagem para o celular dele, mas Marlon não respondeu.

Assim como outros parentes de desaparecidos ouvidos pela BBC, Marcone diz que faltam informações para as famílias. "A gente já desistiu de ir ao centro de acolhimento de parentes porque ninguém dá informação certa lá", critica.

"O que a gente quer é encontrar a pessoa, seja vivo ou morto, para poder dar um enterro, não deixar ele ali na lama", diz Marcone.

Sebastião Divino Santana, 58 anos, motorista

Motorista por toda a vida profissional, Sebastião é funcionário de uma empresa terceirizada contratada pela Vale há 13 anos. A maioria de suas viagens acontecem dentro de Minas Gerais, com exceção de algumas para São Paulo ou Rio de Janeiro. O Rio era seu destino na quarta-feira, quando foi avisado de que os planos tinham mudado. Estaria em Brumadinho na sexta.

Sebastião tem três filhas e uma neta que é "extremamente apegada nele", nas palavras da mãe da menina, Gisele. A criança, de três anos, passou o domingo perguntando pelo avô, que, entre outras coisas, a ajuda a mexer no tablet.

Muito presente na vida da família, ele mora perto das filhas, em Betim. Costuma fazer viagens curtas e sai de madrugada para voltar para casa no mesmo dia.

Gisele diz que está esperançosa de encontrar o pai, porque conseguiu rastrear seu celular, que ainda está funcionado. Ela mandou mensagens e ligou, mas não teve resposta.

"Meu pai é o tipo de pessoa que não dá um passo sem o celular, então a chance de ele não estar soterrado é grande."

Angélica Aparecida Ávila, 29 anos, biológa

Angélica trabalha na área ambiental da Vale há apenas seis meses e comemorou muito a conquista da vaga, conta seu primo, com quem ela mora em Belo Horizonte.

Sua família é de Guapé, no sul de Minas, mas ela vive na capital há seis anos. É a caçula de três irmãos.

Angélica é descrita como uma mulher alegre, organizada e amante da natureza: gosta de fazer trilhas nos fins de semana e estudou ciências biológicas em sua primeira faculdade - agora faz engenharia civil. Além do curso e do emprego, também é voluntária em ONGs, onde ajuda a construir casas para pessoas de baixa renda.

"Ela estava muito feliz por conseguir conciliar tudo. É alegre, divertida e gosta de festa", diz sua prima Marina.

Adriano Wagner da Cruz Oliveira, 35 anos, mecânico

Adriano trabalha há cinco anos na Mina Córrego do Feijão, como mecânico de uma empresa terceirizada.

Morador de Belo Horizonte, ele viaja até Brumadinho, a 60 km da capital mineira, todos os dias. Casado com Nélia Mary, ele tem uma filha de 16 anos, que está grávida.

Jonis Nunes, 48 anos, trabalha com transporte de minérios

Jonis ligou para Aline, sua mulher, às 11h45 de sexta-feira para saber se ela estava bem. Como seu turno tinha começado às 7h, avisou que sairia para almoçar. Desde então, ela não conseguiu falar com ele.

Aline descreve o marido, com quem tem dois filhos, como um homem otimista e positivo - e fã de um bom churrasco. Ele trabalha na Vale há 13 anos.

Gustavo Xavier, 29 anos, mecânico

Morador de Brumadinho, Gustavo havia voltado de férias na quinta-feira. Na sexta, acordou atrasado para ir à Vale, onde trabalha há nove anos.

Nas horas vagas, participa do grupo de jovens da igreja que frequenta e toca violão.

Namorando há cinco anos, ele está construindo uma casa, mas ainda falta o telhado. Tem a pesca como um de seus hobbies.

Um amigo dele que já foi localizado diz que o viu no refeitório logo antes do rompimento da barragem.

Letícia Mara Anísio Almeida, 28 anos, enfermeira

Prima de Gustavo, Letícia tornou-se funcionária de Vale há alguns meses, quando trabalhava para uma terceirizada da mineradora.

Pouco antes de a barragem se romper, ligou para a babá de seu filho, de um ano e meio, para saber notícias dele e comentou que estava no refeitório.

Quando a família soube que a lama havia engolido boa parte das instalações da empresa na mina, não conseguiu mais falar com ela.

André Luiz Santos, 34 anos, operador de máquinas

Também primo de Gustavo e Letícia, André estava de folga na sexta-feira, mas precisou ir à mina para substituir um colega.

Tem um filho de três anos.

Luciano de Almeida Rocha, 40 anos, montador

Um amigo de Luciano, que estava com ele no momento do rompimento da barragem, diz que não o viu mais depois de sair correndo para escapar da lama.

Colegas dele contaram à família que, entre o rompimento e a chegada dos rejeitos ao refeitório, passaram-se apenas trinta segundos. É cunhado de André Luiz Santos.

Daiane Caroline Silva Santos, 32 anos, trabalha no setor administrativo da Vale

Sexta-feira era o primeiro dia de Daiane na Vale depois de sua licença-maternidade.

Sua família - a mesma de Gustavo, Letícia, André e Luciano - diz que um supervisor pediu que ela voltasse ao trabalho mais cedo, quatro meses após o nascimento do filho, Heitor.

A última mensagem de Daiane foi uma foto do refeitório enviada à família às 12h20. Heitor é seu primeiro filho.

*Com reportagem de Júlia Dias Carneiro e Fernanda Odilla

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