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Crise na Venezuela: como foi o dia de terror vivido no lado venezuelano da fronteira com a Colômbia

Confronto na ponte Francisco de Paula Santander, na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia - Marco Bello/Reuters
Confronto na ponte Francisco de Paula Santander, na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia Imagem: Marco Bello/Reuters

Guillermo D. Olmo (@BBCgolmo)

Enviado especial da BBC News Mundo à fronteira da Venezuela com a Colômbia

24/02/2019 19h48

Na madrugada deste domingo, ninguém caminha pela movimentada cidade de San Antonio de Táchira.

As ruas, geralmente infestadas de vendedores ambulantes e pedestres que cruzam a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, estão agora desertas.

Um sinal de que o dia anterior não foi normal.

Há pedras e tijolos por todos os cantos, pneus carbonizados e trincheiras improvisadas na entrada de muitas ruas.

Seria o dia da chegada da ajuda humanitária à Venezuela. Mas o que se viu foi violência, caos e terror.

Um dia sangrento que deixou mortos e feridos. E que também contou com a presença da Guarda Nacional e de homens mascarados armados, que os moradores identificaram como os "coletivos", as milícias paramilitares que operam na Venezuela, a mando do governo de Nicolás Maduro.

Foi que o que aconteceu em San Antonio de Táchira, Tienditas e Ureña, as cidades vizinhas à ponte de onde viria a maior parte da ajuda humanitária prometida pelo líder da oposição Juan Guaidó e seus aliados internacionais.

Desde o amanhecer, era uma fronteira em estado de sítio.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, a quem Guaidó, a oposição e grande parte da comunidade internacional consideram um governante ilegítimo, havia anunciado horas antes o fechamento das três pontes.

Maduro sempre disse que os militares venezuelanos rejeitariam o que ele considera "uma tentativa de intervenção " concebida pelo "governo supremacista de Donald Trump".

Reivindicações dos trabalhadores

Os confrontos começaram já no amanhecer.

Na ponte Francisco de Paula Santander, na pequena cidade de Ureña, um posto de controle da Guarda Nacional impedia a movimentação de dezenas de pessoas.

O sustento de muitas pessoas aqui depende de atravessar a fronteira com a Colômbia e trabalhar lá como vendedores ambulantes e em outros ofícios.

"Deixe-nos passar; temos que trabalhar", alguns gritaram aos guardas, enquanto a tensão aumentava.

Um simpatizante da oposição confrontou um deles e perguntou: "Por que você serve a um ditador, em vez de servir ao seu próprio povo ?"

Então, explosões foram ouvidas.

Eram bombas de gás lacrimogêneo lançadas pelos guardas, que decidiram agir.

Assim começou uma batalha que durou todo o dia.

A situação piorou quando as conhecidas "damas de branco" chegaram, um grupo de mulheres que pretendiam pressionar os guardas e assim possibilitar a entrada da ajuda humanitária na Venezuela.

Itamar Rosales, uma estudante que veio da cidade vizinha de San Cristóbal como voluntária, contou o que viu à BBC Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

"Vimos que a Guarda estava esperando e queríamos tentar dialogar, mas os guardas imediatamente começaram a jogar bombas em nossa direção", disse.

Mas isso não aconteceu apenas em Ureña.

Dez minutos de carro dali, em San Antonio de Táchira, também houve confrontos violentos.

Do acesso da rodovia à cidade, a fumaça dos pneus queimados podia ser vista à distância. O som de explosões também era ouvido por quem estava nas proximidades.

Não se sabia se o barulho era de balas de borracha, bombas de gás lacrimogênio ou munição de verdade.

Testemunhas e jornalistas presentes na área relataram nas redes sociais a ação de grupos irregulares armados, que abriram fogo contra os manifestantes.

Manifestantes se reuniram em diferentes pontos da estrada que liga San Antonio de Táchira a Ureña. Eles agitavam bandeiras venezuelanas e gritavam slogans contra Maduro.

Em um dos protestos, uma mulher explicava as razões para estar ali: "Aqui não há comida ou remédio, e as pessoas somem apenas porque não concordam com o governo".

Sua explicação foi interrompida pelo grito de um de seus companheiros.

"Coletivos, coletivos estão chegando!"

Coletivos

A ação desses polêmicos grupos marcou o dia.

Em teoria, os 'coletivos' são organizações dedicadas à gestão de benefícios sociais e à defesa da chamada Revolução Bolivariana.

Na prática, contudo, denúncias indicam que esses grupos intimidam, agridem e às vezes matam quem discorda deles.

Segundo testemunhas com quem a BBC News Mundo conversou, foi o que aconteceu no sábado.

Orlando Uribe, cinegrafista da emissora local de TV Venevisión, disse à BBC Mundo como foi agredido em San Antonio de Táchira.

"Estava gravando os ônibus em um canto quando aquele bando de encapuzados veio em nossa direção; eu corri, mas com a câmera na mão não consegui correr tão rápido".

"Então, senti alguém dando um soco na câmera, o que me fez cair no chão".

"Quando levantei a cabeça, um menino encapuzado apontava uma arma para mim e pegou minha câmera".

"Então, outro bando de homens encapuzados e em motos chegou e eu rapidamente entrei em um salão de cabeleireiro que abriu a porta para mim."

"Ouvimos chutes, pedras e tiros. Nos jogamos no chão e os vidros do salão caíram em cima de nós porque eles estavam atirando".

"Me disseram para entregar a câmera; o dono do salão me implorou para que fizesse isso, caso contrário, seríamos todos mortos. Mas eu já tinha entregado minha câmera", lembra ele, em lágrimas.

Somente quando Uribe entregou seu tripé, os agressores ficaram satisfeitos.

Os homens armados também invadiram o hotel Paraíso Suite.

Ali, funcionários foram encurralados sob a mira de armas, enquanto que os milicianos roubavam hóspedes e invadiram quartos em busca de objetos de valor.

Já a poucos metros de distância do local, na altura da Ponte Tienditas, a Guarda Nacional reprimia outros manifestantes, em conjunto com os coletivos.

Toda a área parecia uma zona de guerra.

"Presidente fantoche"

As ambulâncias do serviço de Proteção Civil do Estado Táchira passavam em ambas as direções.

Dividindo espaços com elas, estavam as motos da Guarda Nacional, acompanhadas das dos supostos coletivos, disparando bombas de gás lacrimogênio que por vezes caíam no interior das casas onde muitos haviam buscado refúgio.

Em uma delas, um TV mostrava o pronunciamento de Maduro ante uma multidão de seguidores reunidos em Caracas, a muitos quilômetros de distância.

As palavras do presidente venezuelano proclamando a "derrota do golpe de Estado" e "do presidente fantoche", em referência a Guaidó, coexistiram com o eco à distância dos aplausos e das explosões.

Enquanto as autoridades colombianas informavam sobre as deserções de militares venezuelanos, o caos continuava a reinar em Ureña.

Moradores tomaram o controle de um dos ônibus fretados por simpatizantes do governo. Eles fizeram um buzinaço e gritavam palavras de ordem contra Maduro.

Quem queria fazer com que a ajuda humanitária entrasse não se rendia, mas suas esperanças acabaram carbonizadas na batalha.

A média Indira Medina atuou como voluntária após o apelo de Guaidó e da oposição.

O autoproclamado presidente da Venezuela assegurou que a ajuda entraria "de qualquer maneira".

Medina conta que no sábado tratou mais de 50 feridos, a maioria deles por balas de borracha disparadas pela Guarda Nacional, em um centro médico em Ureña.

Foi uma guerra muito desigual", diz.

"A Guarda Nacional disparou gás contra nós quando estávamos tratando de pessoas feridas na rua."

Testemunhas disseram que os caminhões conseguiram avançar sobre a ponte que chega a Táchira do lado colombiano, mas acabaram saqueados por partidários do governo armados e depois incendiados.

Em pouco tempo, a imagem ganhou o mundo, tornando-se símbolo do fracasso da tentativa de Guaidó e de seus correligionários, mas também alarmando a comunidade internacional que se opõe a Maduro.

Rubén Rincón, um jovem estudante universitário que veio da cidade de San Cristobal para colaborar na distribuição da ajuda humanitária, disse à BBC News Mundo: "Nunca pensamos que chegariam tão longe, nunca pensamos que queimariam a comida e os medicamentos de que as famílias precisam tanto".

Ao anoitecer, enquanto os tiros de homens armados não identificados passavam por sua cabeça, ele resumiu seu estado de espírito em poucas palavras. "Frustração, o que eu sinto é frustração."

Medina concorda. "Esperávamos tantas coisas boas para esse dia; agora as pessoas estão cheias de medo e desespero."

Na TV estatal, Freddy Bernal, um líder chavista designado como "Protetor de Tachira", fez uma avaliação completamente diferente.

Após acusar "centenas de criminosos apoiados por paramilitares colombianos" pelos incidentes, que resultaram em mais de 40 pessoas feridas, ele declarou que a área estava "sob controle dos patriotas".

Bernal foi acusado em várias ocasiões de comandar ações violentas dos "coletivos". Após os acontecimentos deste sábado, elogiou a "resistência estoica" do "poder popular".

Já Jorge Rodríguez, ministro de Comunicação e Informação de Maduro, disse neste domingo que a Guarda Nacional e a polícia tiveram um "comportamento exemplar" e que foram atacadas por "manifestantes drogados."

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