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Qual a importância das Colinas de Golã, que Trump quer reconhecer como território de Israel

As colinas de Golã têm significado político e estratégico - Reuters
As colinas de Golã têm significado político e estratégico Imagem: Reuters

22/03/2019 17h29

Área considerada estratégica foi tomada por Israel em 1967. Mensagem de Trump agora seria, para críticos, uma tentativa flagrante de impulsionar a candidatura do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que tenta a reeleição em uma disputada acirrada, marcada para abril.

O presidente dos EUA, Donald Trump, encerrou uma tradição de décadas na política externa americana ao afirmar que é hora de reconhecer a soberania de Israel sobre as colinas ocupadas de Golã, que o país tomou da Síria em 1967.

Em um tuíte, Trump declarou que a área é de "extrema importância estratégica e de segurança para o Estado de Israel, bem como para a estabilidade regional".

Israel anexou as Colinas de Golã em 1981 em uma manobra não reconhecida pela comunidade internacional.

A Síria, que busca recuperar a região, até agora não comentou a declaração de Trump.

Por que essa área é considerada estratégica?

O sul da Síria e a capital, Damasco, a cerca de 60 quilômetros ao norte, são claramente visíveis do alto de Golã.

A área dá a Israel um excelente ponto de observação para monitorar os movimentos sírios e, com sua topografia, oferece uma segurança natural contra qualquer ataque militar da Síria.

A região também é uma fonte importante de água - é de lá que sai um terço do abastecimento de água de Israel. A água da chuva da bacia do Golã alimenta o rio Jordão.

A terra também é fértil e o solo vulcânico é usado para cultivar vinhedos, pomares e criar gado.

O Golã abriga, ainda, a única estação de esqui de Israel.

Qual o efeito do posicionamento de Trump?

A declaração de Trump suerge em um contexto no qual o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tenta a reeleição e é alvo de uma série de acusações de suposta corrupção. Ele vai disputar a eleição geral do país no dia 9 de abril.

"O reconhecimento formal dos EUA não muda nada na prática, no local, uma vez que Israel já estava agindo com total autoridade militar nessa área", diz a correspondente da BBC News responsável pela cobertura do Departamento de Estado americano, Barbara Plett-Usher.

"Os críticos concluíram, dessa forma, que essa foi uma tentativa flagrante de impulsionar Netanyahu em uma eleição considerada acirrada", acrescentou ela.

Isso, na visão de analistas, viola princípios importantes do direito internacional, uma vez que "Trump endossou a tomada de território e não terá autoridade moral para criticar a Rússia por fazer o mesmo na Criméia, na Ucrânia".

As reações ao que o presidente americano disse

Netanyahu - que alertou sobre o "reforço militar" do Irã, visto como principal inimigo de seu país, na Síria e ordenou ataques aéreos na tentativa de frustrá-lo - agradeceu a Trump pelo posicionamento favorável, via Twitter.

"No momento em que o Irã busca usar a Síria como plataforma para destruir Israel, o presidente Trump reconhece corajosamente a soberania israelense sobre as colinas de Golã", escreveu ele.

Richard Haass, um ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA que agora é presidente do Centro de Estudos do Council on Foreign Relations, disse, por sua vez, que "discordava fortemente" de Trump. Ele disse que reconhecer a soberania israelense violaria uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, "que descarta a aquisição de territórios pela guerra".

Em 2017, Trump reconheceu Jerusalém como a capital de Israel e ordenou a transferência da embaixada dos EUA para a cidade. A decisão foi condenada pelos palestinos, que querem Jerusalém Oriental como a capital de um possível futuro Estado palestino. A Assembleia-Geral da ONU também adotou uma resolução rejeitando o reconhecimento de Jerusalém por Washington.

'Uma boa surpresa para Netanyahu'

O tuíte do presidente Trump teria surpreendido até mesmo os seus assessores mais próximos?

A correspondente da BBC News, Barbara Plett-Usher, diz que os jornalistas que estavam viajando com o secretário de Estado, Mike Pompeo, esperavam na casa do primeiro-ministro Netanyahu para entrevistar ambos, quando a notícia sobre o posicionamento de Trump a respeito de Golã veio à tona.

"Eles atrasaram tanto a aparição que nos perguntamos se estariam com dificuldade de formular uma resposta. Mas se o anúncio foi uma surpresa, foi uma boa surpresa para Netanyahu", diz a jornalista, lembrando que as primeiras palavras do primeiro-ministro israelense aos repórteres foi que estava "muito empolgado".

A surpresa teria, no entanto, sido apenas o momento em que o anúncio foi feito, e não o teor da mensagem, porque a ideia de os EUA reconhecerem a soberania de Israel sobre Golã tem sido gestada no governo Trump há algum tempo.

Israel ganhou força na Casa Branca e em partes do Congresso argumentando que o Irã está usando a Síria como base para atacar o país, com as Colinas de Golã como linha de frente.

As Colinas de Golã

A região abrange cerca de 1.200 quilômetros quadrados.

Israel tomou a maior parte desse território nos estágios finais da guerra de 1967 no Oriente Médio e frustrou uma tentativa síria de retomar a região durante a guerra de 1973.

Os dois países concordaram com um plano de desanexação no ano seguinte, que envolveu a criação de uma zona desmilitarizada de 70 quilômetros de extensão, patrulhada por uma força de observação das Nações Unidas. Mas eles permaneceram tecnicamente em estado de guerra.

Em 1981, o Parlamento de Israel aprovou uma legislação aplicando "lei, jurisdição e administração" israelense a Golã, efetivamente anexando o território.

Mas a comunidade internacional não reconheceu a manobra e sustentou que Golã era território sírio ocupado. A Resolução 497 do Conselho de Segurança da ONU declarou a decisão israelense "nula e sem efeito legal internacional".

Três anos atrás, quando o ex-presidente Barack Obama estava no poder, os EUA votaram a favor de uma declaração do Conselho de Segurança expressando profunda preocupação pelo fato de Netanyahu ter declarado que Israel jamais abriria mão de Golã.

A Síria sempre reiterou que não vai concordar com um acordo de paz com Israel a menos que o país se retire por completo das colinas. As últimas negociações de paz diretas intermediadas pelos Estados Unidos foram interrompidas em 2000. Em 2008, foi a vez da Turquia atuar como mediadora, em conversas indiretas entre as partes.

Existem mais de 30 assentamentos israelenses em Golã, abrigando cerca de 20 mil pessoas. Os assentamentos são considerados ilegais pelo direito internacional - um entendimento que Israel contesta.

Os colonos vivem junto a cerca de 20 mil sírios, a maioria deles árabes drusos, que não fugiram quando a área foi tomada.