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A estranha forma que o Reino Unido adota para escolher o sucessor de Theresa May

Em 24 de maio, Theresa May expôs seu plano de renunciar ao cargo de primeira-ministra - Getty Images
Em 24 de maio, Theresa May expôs seu plano de renunciar ao cargo de primeira-ministra Imagem: Getty Images

12/06/2019 18h10

Um novo primeiro-ministro está sendo escolhido no Reino Unido, mas apenas 0,26% do eleitorado terá a chance de votar, e metade dos candidatos não consegue deixar de falar sobre a última vez que usou drogas. Aqui contamos o que está acontecendo em uma eleição muito estranha, que decidirá como o país finalmente vai lidar com a crise do Brexit e deixar a União Europeia

A corrida para se tornar o próximo primeiro-ministro do Reino Unido tomou um rumo inesperado - muitos dos candidatos ao cargo não conseguem parar de falar sobre quando foi a última vez que usaram drogas.

É a mais recente reviravolta do estranho processo que envolve uma parte ínfima da população, mas que tem em jogo o futuro do Brexit - e a futura relação do Reino Unido com a União Europeia.

Mas por que está havendo essa eleição agora?

Em resumo, porque a atual primeira-ministra, Theresa May, teve muita dificuldade no cargo.

Quando assumiu o posto, então ocupado por David Cameron - que renunciou depois que o Reino Unido votou a favor da saída da União Europeia - ela parecia ter chegado para liderar o país durante anos.

Seu partido, o Conservador, tinha maioria na Câmara dos Comuns (equivalente à Câmara dos Deputados no Brasil) e o líder da oposição, Jeremy Corbyn, havia levado o Partido Trabalhista politicamente para a esquerda - um movimento visto por muitos como suicídio eleitoral.

Depois de vários meses afirmando que não convocaria uma eleição geral, May mudou de ideia e levou o país às urnas em 2017.

Ela queria aumentar o número de assentos de seu partido, para dar solidez a seu mandato com foco nas negociações com a União Europeia pela saída do país do bloco, por isso, causou surpresa ao antecipar eleições.

Sua aposta, no entanto, deu errado.

O Partido Conservador, liderado pela primeira-ministra britânica, ganhou as eleições gerais, mas perdeu sua maioria absoluta no Parlamento.

A crença de que a campanha de esquerda de Jeremy Corbyn espantaria os eleitores estava errada - os trabalhistas ganharam 30 assentos e o partido Conservador perdeu 13.

May conseguiu se agarrar ao poder contando com o apoio do muito menor Partido Democrático Unionista (DUP, da sigla em inglês), da Irlanda do Norte, mas a muito custo.

A Irlanda do Norte tem a única fronteira terrestre do Reino Unido com a União Europeia, e as exigências do partido em relação a isso ataram as mãos da primeira-ministra quando o Brexit deveria estar na reta final.

O DUP detestou o acordo que May negociou com a União Europeia - assim como muitos no próprio Partido Conservador.

Como resultado, ela foi derrotada três vezes na Câmara dos Comuns - uma das vezes por um placar de 432 votos contra 202, a maior derrota de um governo na história.

Depois de perder a maioria de seu partido em uma eleição geral, sem conseguir um acordo para o Brexit e com o perfil público abalado, May renunciou oficialmente como líder do partido em 7 de junho.

Isso desencadeou a atual corrida pela liderança que fará com que o próximo primeiro-ministro britânico tome posse no final de julho.

Por que muitos candidatos continuam dizendo às pessoas que usaram drogas?

Há atualmente dez pessoas na corrida para virar o próximo líder do Reino Unido, e sete delas já admitiram usar drogas ilícitas.

Isso é um pouco incomum para um grupo de pessoas que busca assumir o controle da quinta maior economia do mundo e de Forças Armadas equipadas com armas nucleares.

Entre as admissões mais exóticas dos últimos dias estão as de Rory Stewart (atualmente ministro do Desenvolvimento Internacional) dizendo que fumou ópio no Irã, de Michael Gove (ministro do Meio Ambiente) admitindo cheirar cocaína e de Jeremy Hunt (o ministro das Relações Exteriores) descrevendo como tomou uma bebida à base de iogurte com a adição de uma pequena quantidade de maconha na Índia.

O nome apontado como favorito para substituir May, Boris Johnson, já afirmou em um programa de TV em 2005 que "tentou, sem sucesso," consumir cocaína "há muito tempo", mas espirrou e a droga acabou se dissipando.

Ninguém sabe muito bem o quão seriamente podem ser tomadas uma admissão ou negação parcial como essas.

Os três outros candidatos que admitiram o uso de substâncias psicoativas dizem que fumaram maconha quando eram mais jovens.

Para alguns políticos, a pressa em abordar o assunto parece ser alimentada por uma tentativa de antecipação, porque estariam prestes a ser expostos por um jornal. Para outros, a estratégia tem sido vista como uma tentativa de se distanciar do estereótipo de político formal, socialmente conservador e desconectado da realidade.

É aqui que as coisas voltam a Theresa May.

Durante a campanha eleitoral catastrófica que fez, ela tentou evitar dizer qualquer coisa controversa, pensando que passaria a imagem de líder séria, estável e confiável.

Em vez disso, ela pareceu, na visão de muitos, como distante e robótica.

Quando questionada "Qual foi a pior coisa que já fez", ela titubeou várias vezes antes de responder "... quando eu e meus amigos costumávamos atravessar os campos de trigo, os fazendeiros não ficavam muito satisfeitos com isso".

(Se você está completamente confuso em relação a isso, não se preocupe - quase ninguém no Reino Unido também tinha a menor ideia sobre o que ela estava falando.)

Enfrentando questões semelhantes, os candidatos a substitui-la estão tendo que encontrar respostas mais interessantes para o público britânico, composto em cerca de um terço por pessoas entre 16 e 59 anos que admitem já ter usado drogas.

Para Rory Stewart, ter revelado que fumou ópio em um casamento no Irã 15 anos atrás ("alguém passou o tubo pela sala e eu o fumei", disse ele) provavelmente aumenta seu apelo como dissidente com uma história de vida muito diferente da maioria dos políticos.

Ele teve uma passagem rápida pelo Exército Britânico antes de ingressar no serviço diplomático, tornando-se vice-governador de duas províncias do Iraque após a invasão em 2003, e posteriormente atravessando o Irã, o Afeganistão, o Paquistão, a Índia e o Nepal, em uma jornada de 21 meses.

Seu pai era o controlador do Extremo Oriente para o Serviço Secreto de Inteligência do Reino Unido.

Para outros candidatos, porém, o uso de drogas tem sido um problema político.

A confissão de Michael Gove de que usou cocaína quando era jornalista foi confrontada com a época em que ocupou o cargo de ministro da Educação e seu departamento expulsaria professores pegos usando a droga.

Ele acabou, com isso, acusado de hipocrisia.

Por que apenas 124 mil pessoas terão direito a voto?

Uma vez que os candidatos tenham terminado de admitir suas infrações relacionadas ao uso de entorpecentes no passado, e possivelmente até de definir algumas políticas, uma votação começará a decidir quem se tornará líder do Partido Conservador e, consequentemente, o próximo primeiro-ministro do Reino Unido.

Este não é um processo em que o país inteiro terá voz.

Nos primeiros turnos, somente os membros conservadores do Parlamento podem votar, com os candidatos que receberem o menor número de votos eliminados em rodadas sucessivas.

Quando a disputa afunilar e tiver apenas dois candidatos, todos os membros do Partido Conservador votam por correspondência para decidir o vencedor.

Mas esse eleitorado é de apenas 124 mil pessoas (de acordo com uma pesquisa acadêmica do ano passado), de um total de 47 milhões de eleitores do Reino Unido - 0,26% do total.

Embora tenha havido reclamações no Reino Unido, esta é uma maneira bastante comum de escolher um novo primeiro-ministro.

Nos últimos 45 anos, metade dos oito líderes do país foram escolhidos por seus partidos políticos, e não pelo público em geral.

Isso se deve em parte ao fato de que, no sistema político britânico, os chefes de governo são muito suscetíveis a serem destituídos por seus partidos, caso percam popularidade, ao contrário de sistemas presidenciais, como os Estados Unidos.

Mas os membros dos partidos políticos não são representantes do país como um todo.

Do total, 97% dos membros do Partido Conservador são brancos.

Isso significa que "...as minorias étnicas, que representam bem mais de 10% da população britânica, estão muito sub-representadas na hierarquia e na base dos conservadores", segundo o professor Tim Bale, da Universidade Queen Mary, em Londres.

"Os membros conservadores estão consideravelmente em melhor condição que a maioria dos eleitores", acrescenta ele, afirmando que a idade média dos membros do partido é de 57 anos.

Quando um novo primeiro-ministro é escolhido, são os jovens, os pobres e as minorias étnicas que terão menos voz.

Como isso afetará o Brexit?

A saída do Reino Unido da União Europeia é a grande questão que domina a política britânica, então não é surpresa que esteja na frente e no centro da eleição de liderança.

Os dez candidatos atualmente na corrida têm uma grande variedade de propostas disponíveis sobre essa questão.

Dominic Raab tem uma das políticas mais rígidas. Ele diz que vai forçar a União Europeia a se curvar e assumir compromissos que anteriormente, nas negociações, disse que nunca assumiria, ou ele vai retirar o Reino Unido do bloco sem qualquer tipo de acordo.

Se os deputados britânicos tentarem impedi-lo, ele afirma que encerrará a sessão do Parlamento que estiver em curso e que não vai iniciar uma nova, para que não tenham a chance de frustrar seus planos.

Mas isso lançaria o Reino Unido em uma crise constitucional.

No outro extremo do espectro está Sam Gyimah, que entrou na corrida nos estágios iniciais.

Ele estaria aberto à possibilidade de um segundo referendo sobre se o Reino Unido deve deixar a União Europeia caso as negociações do Brexit continuem enfrentando problemas.

No entanto, ele já teve que desistir da disputa por falta de apoio, e qualquer candidato bem sucedido provavelmente terá que ceder aos membros do Partido Conservador, que é fortemente eurocético, ou seja, contra o aumento dos poderes da União Europeia.

Talvez o maior problema seja que todos os candidatos estão em modo eleitoral, vendendo esperanças e sonhos aos apoiadores, que devem se mobilizar e ganhar votos.

Isso é muito diferente do árduo trabalho duro de negociações detalhadas que terão de ocorrer com a União Europeia para garantir qualquer acordo do Brexit.

Essas conversas estão suspensas e só serão reiniciadas quando um novo líder tomar posse no final de julho.

Independentemente de quem vença, será uma corrida frenética para retomar as negociações e concluí-las até a data limite para o Brexit ser efetivado, que, após adiamentos, é prevista agora para 31 de outubro.

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