Topo

Esse conteúdo é antigo

Ampliado, seletivo ou bloqueio total: qual a melhor forma de distanciamento social?

Centro de São Paulo vazio, no dia 20 de março, em razão da quarentena  - Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress
Centro de São Paulo vazio, no dia 20 de março, em razão da quarentena Imagem: Foto: Jardiel Carvalho/Folhapress

Marina Wentzel - De Basiléia (Suíça) para a BBC News Brasil

10/04/2020 12h28

Relaxamento da quarentena depende de testagem e precisa ser adaptado à realidade local, explicou à BBC Organização Pan-Americana de Saúde.

O relaxamento das medidas de distanciamento social tem dividido governo e especialistas, colocando de um lado aqueles que buscam evitar uma recessão econômica, de outro os que priorizam salvar vidas em meio à pandemia do novo coronavírus.

Em discurso em rede nacional na noite de quarta-feira (08/04), o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, reconheceu que deve ser "responsabilidade exclusiva" dos governadores determinar a severidade das medidas adotadas, dando uma trégua em uma polêmica explosiva que já se arrastava desde a chegada do vírus ao país.

A declaração é uma concessão após longa queda de braço, que quase resultou na demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e chegou a envolver o Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Na segunda-feira, o Ministério da Saúde chegou a informar que a partir de 13 de abril seria possível fazer Distanciamento Social Seletivo (DSS).

A condição para o relaxamento era que o número de casos confirmados nas cidades não tivesse impactado em mais de 50% da capacidade hospitalar existente antes da epidemia. No dia seguinte, porém, o governo recuou e disse não haver uma data fixa para afrouxar a quarentena.

Uma decisão anterior do STF já confirmou que caberá aos Estados e municípios decidir a intensidade do distanciamento social praticado.

Segundo o Ministério da Saúde, o distanciamento pode ser "seletivo", afetando somente grupos de risco; "ampliado", abarcando toda a população; ou até um "bloqueio total", o que requer um perímetro de controle ao redor das áreas afetadas.

Para compreender qual dessas é a melhor abordagem, a BBC News Brasil solicitou à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) que elencasse de forma pragmática as condições fundamentais para o relaxamento seguro do isolamento. Veja abaixo os pontos a serem observados:

1. Testar a população

Conseguir diagnosticar de forma rápida e eficiente como a epidemia está se alastrando em uma região é o primeiro passo para poder delinear uma estratégia de resposta adequada.

Há que se observar localmente o tipo de transmissão que está ocorrendo. Se é "comunitária", onde toda a população fica doente e já não há distinção na origem dos novos contágios; se é "importada", onde os casos vêm de fora; ou se é em "clusters", pontual em determinadas regiões.

Dependendo de quão contida estiver a situação, é possível flexibilizar a quarentena, mas isso somente após a região ter sido mapeada. Testar a população é fundamental nesse sentido.

Realizar muitos testes foi a estratégia adotada pela Coreia do Sul e também vem sendo promovida pela Alemanha. O país europeu realiza na média mais de 350 mil testes por semana. O Brasil inicialmente executava sete mil testes semanalmente, mas tem evoluído para mais de 17 mil.

2. Garantir capacidade do sistema

As medidas de distanciamento social têm por objetivo evitar que o sistema de saúde fique sobrecarregado e chegue ao colapso.

É preciso ter capacidade técnica para acolher um aumento súbito no número de pacientes, caso aconteça uma imprevista segunda onda de contágio.

Um maior contato e mobilidade entre as pessoas só pode ser permitido em localidades onde o pico da epidemia já passou e onde há como absorver um choque de demanda repentina nos serviços de saúde.

A Opas estima que o Brasil como um todo ainda não tenha superado o momento do auge da epidemia e prefere não fazer projeções específicas sobre quando isso deverá ocorrer no país.

A organização avalia que a tendência em todo o continente americano é de aumento no número de mortes nas próximas três a seis semanas.

É necessário que, além de leitos, existam respiradores, equipe médica e material de proteção de uso pessoal. Luvas, máscaras, aventais e óculos não podem faltar.

3. Dar respostas locais

A Opas estima que não há como estabelecer uma solução única para todo o Brasil e reforça o conselho do Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, de que a "abordagem seja sob medida", pois cada localidade está vivendo um momento diferente no ciclo da epidemia.

Esse último ponto foi justamente a questão de divergência entre o presidente, governadores e especialistas em Saúde.

Polêmica perigosa

Até o pronunciamento na noite de quarta-feira, Bolsonaro dizia que pretendia encerrar as medidas de distanciamento social por decreto. Uma ação da OAB junto ao STF buscou impedir que o presidente decidisse nacionalmente estratégias que precisam ser avaliadas em nível local.

Coube ao ministro do Supremo Alexandre de Moraes decidir, em caráter liminar (temporário), em favor da autonomia dos Estados e municípios para decretar ordens restritivas durante a pandemia - como suspensão das aulas e fechamento do comércio - ainda que o governo federal adote depois medidas contrárias.

Até o momento, no Brasil, já foram constatados oficialmente 19.638 casos e 1.056 mortos, uma taxa de letalidade de 5,4%. Na China, país onde a epidemia teve início e que já retorna aos poucos à vida normal, a taxa de letalidade é de 4%, com 83.157 casos e 3.342 óbitos.

União

Em coletiva de imprensa em Genebra na quarta-feira, o diretor-geral da OMS reforçou que os líderes nacionais abandonem as rivalidades para enfrentarem unidos a ameaça em seus países.

Tedros Adhanom alertou que a falta de unidade dentro das nações dá ao vírus maior oportunidade de se propagar e pediu que os líderes se controlem, evitando usar a epidemia como desculpa para inflamar diferenças políticas ou ideológicas.

"Se vocês querem ter mais sacos com corpos dentro, então façam isso (continuem brigando entre si)", disse. "Vamos ter muitos sacos com cadáveres à nossa frente se não nos comportarmos", frisou.

Há poucos dias, a contrariedade entre as opiniões do presidente Bolsonaro e do ministro da Saúde, o médico Luiz Henrique Mandetta, quase levou à substituição de Mandetta. Um dos cotados para o posto seria o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), que advoga o fim da quarentena ampliada.

Além de não estarem alinhados quanto à forma de distanciamento social, o presidente e o ministro também discordam quanto ao uso experimental da substância hidroxicloroquina no tratamento do vírus. Bolsonaro promove a popularização da substância e afirmou isso em rede nacional.

O truncado anúncio do Distanciamento Social Seletivo (DSS) feito pelo Ministério da Saúde na segunda-feira teria sido fruto da negociação política que salvou Mandetta. A flexibilização da quarentena fora uma concessão à ala bolsonarista para que Mandetta permanecesse no cargo.


Quarentena

Distanciamento Social Seletivo (DSS) - Ficam isolados apenas grupos vulneráveis como idosos, obesos, diabéticos e cardiopatas. Pessoas abaixo de 60 anos podem circular livremente, se não apresentarem sintomas da doença.

Distanciamento Social Ampliado (DSA) - Todos os grupos da sociedade devem permanecer reclusos para evitar uma aceleração descontrolada da doença.

Bloqueio Total (Lockdown) - Todos os indivíduos permanecem reclusos e há um perímetro de segurança na região onde foram identificados casos da doença. Não é permitido entrar ou sair da área isolada.


Opinião pública e atitude

A maioria da população brasileira discorda de Bolsonaro e tem se mostrado alarmada com o avanço do vírus, inclusive promovendo panelaços contra o presidente.

Os brasileiros são predominantemente a favor do distanciamento social, segundo pesquisa do instituto Datafolha divulgada nesta semana.

A sondagem revelou que 76% dos 1.511 entrevistados são a favor das restrições, concordando com a recomendação de permanecer em casa para impedir que o coronavírus se espalhe, ainda que isso prejudique a economia.

Já 18% disseram preferir acabar com o distanciamento para estimular a economia e impedir o desemprego, mesmo que isso ajude a espalhar o vírus. Outros 6% não souberam opinar.

Na média 50,7% dos brasileiros estão respeitando o isolamento, segundo dados do índice de Isolamento Social, um projeto organizado pela Universidade de São Paulo e a Federal de Pernambuco.

O levantamento é feito com base em localizações coletadas de celulares. Os dados revelam a proximidade entre os indivíduos. Nos três Estados mais afetados, São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, a média de observância à quarentena é de 50,2%, 51,6% e 53,1%, respectivamente.

Questionamento mundial

A prática de distanciamento permanece controversa apesar de um estudo da Escola de Saúde Pública de Universidade Fudan destacar a medida como estratégia crucial à contenção da epidemia na China.

O levantamento avaliou o distanciamento social nas cidades de Wuhan e Xangai, estimando que o isolamento tenha reduzido entre sete e nove vezes o contato entre indivíduos, desacelerando a curva de contágio.

No Ocidente, a posição política de líderes como o primeiro-ministro britânico Boris Johnson só mudou após a divulgação das projeções de Neil Ferguson, chefe do programa de modelos matemáticos do Imperial College de Londres.

Ferguson estimou um "tsunami de fatalidades", caso não fosse imposto o distanciamento ampliado. Somente no Reino Unido haveria mais de 250 mil mortes sem as medidas de quarentena. Aplicada a mesma simulação aos Estados Unidos, o número de vítimas passaria de um milhão.

Apesar da guinada de estratégia, a epidemia se alastrou rapidamente no Reino Unido e tanto Johnson quanto o próprio cientista Neil Ferguson foram diagnosticados com covid-19, a doença causada pelo novo vírus.

O primeiro-ministro chegou a ser internado e ficar em terapia intensiva, mas já deixou a UTI e se recupera em um hospital de Londres.

Outros países europeus que levaram a ameaça a sério desde cedo, adotando distanciamento social extremo, já começam agora a retomar aos poucos a vida normal.

República Tcheca, Dinamarca e Áustria anunciaram que pretendem relaxar as restrições nas próximas semanas após uma redução contínua no número de casos. Os países pretendem reabrir as escolas e o comércio a partir do dia 14 de abril. As fronteiras, porém, permanecerão controladas.

Gravidade relativizada

Desde a chegada do vírus ao Brasil, Bolsonaro vinha relativizado a gravidade da doença e rechaçando as recomendações de distanciamento social.

O presidente participou de atos de apoio à sua liderança três semanas atrás, permanecendo em contato direto com seus eleitores. Além disso, divergiu publicamente da abordagem de distanciamento inicialmente recomendada pela OMS.

Em declarações mais polêmicas, o presidente chegou a afirmar que a doença seria apenas uma "gripezinha", ou "resfriadinho" e que a população se mostraria imune a ela, pois "brasileiro pula no esgoto e não acontece nada", opinião que foi refutada por evidências científicas.

Dados do IBGE levantados pela BBC News Brasil mostram que em 2016 o país somou mais de 346,5 mil internações hospitalares por doenças causadas por "saneamento ambiental inadequado".

Na decisão em que proibiu o governo federal de derrubar as medidas dos Estados, o ministro Alexandre de Moraes afirmou que é necessário superar os "personalismos" e que a cooperação dos três Poderes é um instrumento que as lideranças precisam usar "em defesa do interesse público".

"Onde há rachaduras políticas, religiosas, de ideologia, de grupo, ali o vírus se infiltrará (...) Estamos brincando com o fogo. Peço que tenham unidade nacional acima das divergências", pediu o diretor-geral da OMS a todas as nações.



Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=hxZpWYwNo5M

https://www.youtube.com/watch?v=i1fmJbOhFc4

https://www.youtube.com/watch?v=Ya59JcvPVZo