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'Nossa vida vale mais que um negócio': os comerciantes que resistem a afrouxar quarentena em SC

"O Estado está colocando a saúde das pessoas em risco por uma venda que não vai acontecer", afirma Guto Lima, sócio de um bar em Florianópolis - Eduardo Valente/BBC
'O Estado está colocando a saúde das pessoas em risco por uma venda que não vai acontecer', afirma Guto Lima, sócio de um bar em Florianópolis Imagem: Eduardo Valente/BBC

Hyury Potter

De Florianópolis para a BBC News Brasil

30/04/2020 19h48

Governo estadual afrouxou no último dia 22 as restrições da quarentena e liberou a abertura do comércio, inclusive de shoppings, com algumas regras de distanciamento.

Próximo do fim de semana, a movimentação já começava a subir no Tralharia, um café/bar do centro histórico de Florianópolis que vende algumas relíquias como pôsteres de filmes antigos, mobília e até uma legítima câmera Rolleiflex.

Os dois sócios e uma funcionária precisavam checar o estoque de bebidas e petiscos, e ainda organizar quem estaria disponível para trabalho autônomo de um ou dois dias servindo mesas.

A quarentena contra a pandemia de covid-19, decretada pelo Governo de Santa Catarina em 17 de março, encerrou esse ritual.

Antes de falar à BBC News Brasil, na quarta-feira (29), Guto Lima, sócio do bar, ocupava uma das mesas vazias do local enquanto organizava livros e objetos para fazer uma rifa online — um dos malabarismos adotados recentemente para pagar as contas.

O bar e café que vendia algumas antiguidades para dar um charme ao local agora é um antiquário virtual sem data para receber clientes.

Contra recomendações de especialistas, no dia 22, o governo afrouxou as restrições da quarentena e liberou a abertura do comércio, inclusive de shoppings, com algumas regras de distanciamento. Mesmo com a dificuldade financeira e uma perspectiva real de falência, Lima preferiu manter seu negócio fechado.

"É uma ilusão achar que as pessoas vão voltar às ruas e tudo estará normal. Não está, basta olhar a movimentação fraca nas ruas. Tudo que lemos sobre o assunto é que isso pode aumentar o número de pessoas infectadas pelo coronavírus. O Estado está colocando a saúde das pessoas em risco por uma venda que não vai acontecer", afirma Guto Lima.

'Ausência do Estado'

Com rifas online e venda de vouchers, na esperança de um dia reabrir as portas, Lima tenta conseguir algum dinheiro para renegociar contas de aluguel do imóvel e pagamentos de fornecedores.

Ele e o sócio mantiveram a única funcionária do bar, mas admitem que o horizonte não é animador. Eles procuram desde março por alguma das linhas de crédito que veem ser "simples e fáceis de conseguir" em comerciais de TV ou na internet, discurso bem diferente do que encontram na prática, quando batem à porta dos bancos.

"Já procuramos em bancos do Estado e também privados, mas todos pedem garantias reais imediatas. Sem saber quando poderemos reabrir e ter um fluxo de clientes suficiente para pagar as contas, não posso me endividar. O que vemos é que há uma ausência do Estado para ajudar pequenos empresários e a população em geral", diz Lima.

Guto Lima faz parte de um grupo de donos de pequenos comércios do centro histórico de Florianópolis que já tinham se posicionado contra a reabertura das lojas no final de março, quando o governador chegou a anunciar o afrouxamento da quarentena, mas recuou.

Marcele Billo, dona de uma loja de roupas, a Varal, também assinou a carta. Para ela, a opção por não abrir também foi uma forma de proteger a própria família.

"Minha mãe é do grupo de risco e trabalha na loja, e eu também tenho uma filha pequena, então decidimos não abrir até para preservar a nossa saúde e a dos clientes, porque os dois lados podem se infectar. Não conseguimos acordo sobre o valor do aluguel, a imobiliária nos respondeu que não era problema deles, mas estamos vendendo algumas peças pelo Instagram. Não é muito, mas por enquanto é o que podemos fazer. Acreditamos que a nossa vida é mais importante do que um negócio", diz Billo.

Rua de pedestres em Florianópolis durante o dia, com dezenas de pessoas caminhando - Eduardo Valente/BBC - Eduardo Valente/BBC
Santa Catarina afrouxou no último dia 22 as restrições da quarentena, fazendo com alguns comerciantes decidissem voltar a abrir seus negócios — mas outros não
Imagem: Eduardo Valente/BBC

Organizar uma opção digital para o negócio foi o caminho que a professora de dança Letícia Gallotti, sócia da Associação Arte.Dança. Mas nem todos os 80 alunos puderam se adaptar às aulas online e as perdas de matrículas chegaram a 15%.

"Tivemos alguns cancelamentos, mas, no geral, conseguimos adaptar as nossas aulas com os adultos por vídeo. Com as crianças foi um pouco mais difícil porque elas podem se lesionar fazendo algum movimento sozinhas, então passamos só atividades recreativas. Os alunos também entenderam que ainda não nos sentimos seguros para reabrir e concordaram que a gente continue assim por mais algumas semanas", diz Letícia Gallotti.

Pesquisa alerta sobre flexibilização

Um dos primeiros Estados a fechar escolas, comércio e transporte público, ainda no dia 17 de março, Santa Catarina viu o número de casos confirmados de covid-19 se estabilizar nas semanas seguintes.

No entanto, o próprio governador Carlos Moisés chegou a falar em subnotificação da doença em um pronunciamento.

Ainda assim, citando que apenas 67 leitos de UTI do Estado estariam ocupados, de um total de 381, o governador decidiu pela reabertura de shoppings e restaurantes a partir de 22 de abril.

O primeiro passo dessa flexibilização já tinha sido dado em 13 de abril, com a abertura de hotéis e alguns tipos de comércio de rua. Dias antes, o professor Oscar Bruna-Romero, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), publicou um estudo, juntamente com pesquisadores de outras universidades do Estado, onde aponta que "não existe qualquer justificativa científica para a flexibilização de medidas de isolamento social" e ainda alerta para o risco de um aumento acentuado de casos.

O professor ressalta que, exatamente duas semanas após esse primeiro movimento de reabertura, mesmo tempo médio de incubação do vírus, Santa Catarina bateu dois recordes de novos casos diários de covid-19: foram 241 infectados em 27 de abril e 519 no dia seguinte.

Os 760 novos casos em apenas dois dias assustam ainda mais quando se leva em consideração que o Estado somou 1.235 confirmações nos 44 dias anteriores, de 13 de março a 26 de abril.

"Quando falamos de coronavírus, estamos sempre olhando para um cenário de duas a três semanas atrás. Esse crescimento atual é reflexo do começo da flexibilização, feita lá no dia 13 de abril. E nessa época Florianópolis ainda não tinha adotado as medidas do governo estadual, a prefeitura foi um pouco mais restritiva. Só vamos ver o reflexo de casos da abertura geral do dia 22 na segunda ou terceira semana de maio", explica o professor Bruna-Romero.

Espanhol radicado no Brasil desde 2012, o professor Bruna-Romero usa o exemplo do seu próprio país para apontar como deve ser uma flexibilização gradual da quarentena.

"Essa liberação deve ser acompanhada por testes em massa e as decisões devem ser feitas a partir desses resultados. O governo do Estado não tinha o resultado do dia 13 quando decretou um afrouxamento maior no dia 22. Santa Catarina não enfrentou o que chamam de 'lockdown', que é a restrição de circulação de pessoas. A Espanha chegou a multar em até 600 euros quem estava na rua sem motivo. Temos que manter um isolamento agora justamente para evitar ter que passar por isso", alerta o professor.

Entidades empresariais querem liberação

Com imagens de um shopping lotado já no dia 22, Blumenau viu o número de casos subir de 98 para 168 em apenas cinco dias. O governo do Estado e a Prefeitura de Blumenau justificaram o crescimento citando o aumento na testagem.

Em nota, o governo ainda reforçou que trabalha com a análise diária da evolução do número de casos e ocupação de leitos ambulatoriais e de UTI em Santa Catarina.

Representantes de entidades comerciais apostam nesse controle de casos confirmados para cobrar uma flexibilização ainda maior. A Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Florianópolis pediu em nota no dia 30 de abril a reabertura do transporte coletivo, mesma queixa citada pelo presidente da Fecomércio-SC, Bruno Breithaupt, em entrevista à BBC News Brasil.

"A abertura ainda não foi na medida que gostaríamos. Por exemplo, o transporte público ainda está sem operar e isso afeta muito o comércio em cidades acima de 35 mil habitantes. Procuro ser bem prático e objetivo, conversei com prefeitos e todos me dizem que a ocupação de leitos para covid-19 não chega a 20%. Se esse número alcançar 50%, eles mesmo admitem que serão os primeiros a pedir o retorno da quarentena", diz Breithaupt.

Sentado em uma das mesas de seu negócio, Guto Lima organiza livros - Eduardo Valente/BBC - Eduardo Valente/BBC
Guto Lima, dono do Tralharia, organiza livros; apesar de o horizonte em termos financeiros não ser animador, ele diz ter 'conviccção' de estar 'tomando o caminho certo' mantendo negócio fechado
Imagem: Eduardo Valente/BBC

A reportagem conversou por telefone com donos e vendedores de três lojas do shopping de Blumenau que aparece no vídeo que viralizou nas redes sociais. Todos citaram que as vendas não alcançaram 20% do que seria considerado normal.

Uma pesquisa feita pela Federação da CDL no Estado entre os dias 14 e 17 de abril com 2.179 comerciantes indica que 35,7% consegue suportar mais três meses de comércio em ritmo lento, e outros 26,8% disseram aguentar apenas mais um mês antes de fechar as portas definitivamente.

A Fecomércio-SC ouviu 200 empresários ainda no final de março e a resposta foi que 85% já planejavam medidas como redução de funcionários ou diminuição do número de horas e pagamento.

"Estamos contando os dias que já passaram, mas a gente não sabe quantos dias têm pela frente. Mesmo assim, temos convicção que estamos tomando o caminho certo", diz Guto Lima.