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Ex-assessor de Trump compara PF aos nazistas após ser parado em aeroporto

Jason Miller foi ouvido ontem pela PF no âmbito dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos - Reprodução/Twitter
Jason Miller foi ouvido ontem pela PF no âmbito dos inquéritos das fake news e dos atos antidemocráticos Imagem: Reprodução/Twitter

Mariana Sanches

Da BBC News Brasil, em Washington

08/09/2021 17h54Atualizada em 08/09/2021 18h27

Jason Miller, o ex-porta-voz de Donald Trump e CEO da rede social GETTR, deu uma entrevista na quarta-feira (8) ao programa War Room de Steve Bannon, também ex-assessor de Trump, sobre o interrogatório a que foi submetido pela Polícia Federal, no aeroporto de Brasília, em 7 de setembro.

A Bannon ele disse que temeu ser mandando a uma "Guantánamo brasileira", afirmou que o STF é uma "mistura de Departamento de Justiça com FBI e tudo o mais" e chamou os agentes da Polícia Federal que atuam nos inquéritos do STF de "gestapo", a polícia secreta da Alemanha Nazista.

Miller, que veio ao Brasil dar uma palestra em evento conservador e propagandear sua plataforma online que tem atraído a direita global, foi ouvido no âmbito dos inquéritos das Fake News e dos Atos Antidemocráticos, ambos conduzidos pelo ministro Alexandre de Moraes.

O interrogatório do ex-porta-voz de Trump enfureceu o presidente Jair Bolsonaro, que afirmou em discurso na avenida Paulista que Moraes "interceptou um cidadão americano para ser inquirido". Para Miller, ser citado por Bolsonaro no discurso, "foi uma das maiores honras da minha vida".

Ao comentar as manifestações pró-governo, Bannon afirmou que havia entre 3 e 4 milhões de pessoas na avenida Paulista. A Polícia Militar de São Paulo estimou o público em 125 mil pessoas.

Tanto Bannon quanto Miller são dois ex-auxiliares de Trump que mantêm relações cada vez mais próximas com a família Bolsonaro. Bannon já disse considerar a eleição do Brasil "a segunda mais importante do mundo".

'Homens do Lula'

Nesta quarta-feira, ele disse se tratar de "um evento global", cujo resultado está "intrinsecamente ligado" às eleições para o Congresso americano de 2022 nos EUA. No mesmo programa, chamou Bolsonaro de "Trump dos Trópicos" e afirmou que os ministros do Supremo Tribunal Federal "são todos homens do Lula".

"Ele são todos homens do Lula, certo? Esses são todos de esquerda, que soltaram da prisão um criminoso marxista transnacional para tentar derrotar o nacional-populista Bolsonaro", disse Bannon, em uma alusão à anulação pelo STF dos processos da Lava Jato contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o principal adversário de Bolsonaro no pleito de 2022.

Da atual composição da Corte, no entanto, apenas três dos 11 ministros foram indicados por Lula. O principal antagonista de Bolsonaro, Alexandre de Moraes, foi uma indicação de Michel Temer.

Miller comparou Alexandre de Moraes com a juíza progressista da Suprema Corte dos EUA Sonia Sotomayor.

"Imagine se Sonia Sotomayor tivesse os poderes de ser juíza, investigadora e executora da pena. É tão louco, eu ouvi sobre isso o tempo todo em que estive lá", afirmou Miller, que se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro, e seus filhos, o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Nos discursos em sete de setembro, Bolsonaro disse expressamente que não pretende mais cumprir ordens judiciais de Morais.

À audiência americana, Miller deu uma explicação sobre o sistema judicial brasileiro.

"Quando nós falamos em lutar contra a máquina estatal, quando falamos em lutar contra as elites globais, a burocracia, deixe-me dizer o quão louco é o sistema no Brasil. Os brasileiros são ótimas pessoas. O presidente Bolsonaro é fantástico. Milhões de excelentes patriotas. Seus juízes da Suprema Corte, entretanto, efetivamente têm o poder do DoJ (Departamento de Justiça), do FBI e de tudo o mais".

"Há uma preocupação genuína com essa Gestapo, essa polícia secreta que trabalha para o Supremo Tribunal. Porque, como eu disse, o juiz do Supremo Tribunal pode usar a lei para te perseguir e ter investigações secretas. Eles podem fazer e eles fazem. Realmente é um outro nível", afirmou Miller.

A BBC News Brasil entrou em contato com Miller, mas ele não respondeu até a publicação desta reportagem. Seus advogados afirmaram em nota que ele segue à disposição das autoridades brasileiras.

Segundo Miller, os investigadores da PF disseram que cumpriam ordens de Moraes e começaram a fazer perguntas, em um diálogo que ele descreveu assim: "(PF:) Para quem você trabalha? (Miller:) Eu sou o CEO da GETTR. (PF:) Quem te paga? (Miller:) Minhas finanças não são da sua conta (PF:) Quem são seus aliados aqui? Queremos que você liste os nomes de todos que estão aqui te ajudando".

Nesse ponto, de acordo com Miller, ele pediu para ligar para a embaixada americana e chamar um advogado. O STF e a PF não comentaram o caso.

Guantánamo

Miller acabou liberado após a chegada do funcionário da Embaixada e de um advogado. Mas de acordo com o ex-porta-voz de Trump, antes que isso acontecesse, os policiais federais teriam tentado fazê-lo assinar um documento em português, que ele não compreendia.

"Em dado momento, eles colocam este pedaço de papel na minha frente e dizem 'basta você assinar este pedaço de papel, dizendo que você não tem nada a dizer, então você pode sair daqui e entrar no avião'. (Eu respondi:) 'Gente, eu não falo português. Não vou assinar um documento com valor legal'. Eu vou ao cinema desde que eu era criança e sei como isso funciona. Você assina e no momento seguinte você está na versão deles da Baía de Guantánamo", afirmou, se referindo à prisão que os americanos mantêm em Cuba para deter supostos envolvidos em atos de terrorismo. Alguns prisioneiros estão ali há décadas sem um julgamento.

Segundo Miller, àquela altura, a responsável pela tradução entre os agentes e o ex-porta-voz de Trump era uma funcionária do aeroporto que coordenava a partida da aeronave do grupo.

'Derrota de Bolsonaro seria sentença de morte para Trump'

Para Bannon, como o Brasil é "o terceiro país mais importante do Hemisfério Ocidental", atrás de EUA e Canadá, "elites globalistas", como o presidente francês Emmanuel Macron, estão "sempre tentando colocar suas mãos na Amazônia" e nas riquezas brasileiras. E a presença de Miller, que para ele fura o bloqueio dos "oligarcas do Vale do Silício" com sua rede social, pode ter soado como ameaça e justificado a ação contra o ex-porta-voz de Trump.

Miller concordou com a interpretação, e adicionou o Partido Comunista Chinês à lista de inimigos.

"As elites globalistas estão essencialmente sempre tentando encontrar uma maneira de tirar qualquer populista do poder em qualquer lugar do mundo. E realmente há esse sentimento de que se eles forem capazes de derrubar Bolsonaro, então isso seria a sentença de morte para o presidente Trump ou eventualmente para (Viktor) Orban (presidente da Hungria) ou até para (Narendra) Modi (primeiro-ministro da Índia)", afirmou Miller.

Miller expressou preocupação de que Bolsonaro possa ser preso. O presidente é alvo no inquérito das Fake News, depois de ter feito uma live usando informações falsas para questionar o sistema eleitoral. Seus filhos Carlos e Flávio também enfrentam processos por suspeita de terem operado "rachadinhas" em seus gabinetes, o que eles negam.