Indígenas encaram bloqueios antes de começar manifestação contra estrada

La Paz, 24 abr (EFE).- Os indígenas da Amazônia boliviana vão enfrentar diversos bloqueios de partidários do presidente Evo Morales a poucas horas de começar nesta quarta-feira a segunda caminhada rumo a La Paz contra a construção de uma estrada impulsionada pelo governante e financiada pelo Brasil em menos de um ano.

Como denunciou nesta terça-feira em entrevista coletiva em La Paz Fernando Vargas, o líder dos nativos do Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), os bloqueios são organizados por seguidores de Morales para impedir que o acesso de seu grupo ao ponto de partida marcada para a caminhada.

Os contrários às manifestações montaram barricadas e abriram buracos nas estradas de acesso aos povoados de San Ignácio de Moxos e Yucumo, partes do roteiro dos indígenas amazônicos para chegar ao ponto de encontro, a localidade de Chaparina, no centro da Bolívia, a 350 quilômetros de La Paz.

Perto da localidade de Quiquibey, outro grupo de camponeses começou nesta terça-feira mais um bloqueio para pedir a construção de uma estrada secundária na região, protesto que também interrompe a passagem rumo a Chaparina.

Conforme os ministros, Morales pediu aos partidários que terminem os bloqueios, mas eles não atendem ao pedido do líder, que suspendeu a agenda pública há dois dias por uma infecção.

A ministra de Comunicação boliviana, Amanda Dávila, declarou nesta terça-feira que o Governo negocia com os bloqueadores para acabar com as interrupções das vias e acrescentou que respeitará a passeata indígena, porque "não convém ao Governo o bloqueio".

Para Vargas, há dias ocorre outro bloqueio na localidade de Rurrenabaque que impede o abastecimento dos indígenas que participarão da caminhada, embora os bloqueadores reiterem que a motivação da manifestação é por demandas locais.

"Não estamos indo para guerra. A manifestação é pacífica. Mas se necessário for dar a vida pelo território, pelo meio ambiente, para que respeitem a dignidade dos povos, vamos fazer", declarou Vargas sobre os riscos de choque com setores governistas.

Vargas declarou em recente entrevista a Agência Efe que os nativos da Amazônia não querem "derrubar" Morales, mas só impedir que atue como "totalitário", em resposta às acusações governistas de suposto complô.

"Nós jamais pensamos e jamais dissemos que vamos derrubar Governos ou algo parecido (...). Nosso interesse é que este Governo aprenda a respeitar os direitos dos povos indígenas", defendeu Vargas.

Os nativos elegeram Chaparina para iniciar a manifestação. Em setembro do ano passado, centenas de camponeses governistas bloquearam a passagem e depois a Polícia os reprimiu de forma tão violenta que Morales inclusive foi condenado pela atuação das autoridades.

Aquela mobilização, apesar de tudo, chegou a La Paz de forma triunfal e obrigou Morales a ditar uma lei proibindo a estrada no Tipnis, financiada por um banco estatal brasileiro e alocada por uma construtora também brasileira.

Após uma manifestação contrária aos camponeses, indígenas e produtores de coca promovida pelo Governo, o líder convocou consulta prévia sobre a estrada, embora as obras já tenham sido contratadas há anos com a empresa OAS.

A estrada está projetada para unir o departamento central de Cochachamba com o amazônico e nortista de Beni, cortando ao meio a reserva ecológica.

A primeira manifestação, que durou 66 dias, abalou a imagem de indigenista e ecologista de Morales, que defende a estrada no Tipnis e impulsiona uma intensa campanha para evitar que vários grupos nativos se somem ao protesto.

Os indígenas amazônicos acusam Morales de utilizar contra eles, os produtores de folha de coca, matéria-prima da cocaína, que querem a estrada para ampliar suas plantações.

O líder, que continua sendo líder de sindicatos dos cocaleiros, rejeita essa acusação e defende a via como necessária para a integração da Bolívia.

O dirigente indígena Félix Becerra, líder do Conselho Nacional de Ayllus e Markas do Qullasuyu (Conamaq), que reúne aimaras e quíchuas de planalto andino, anunciou que enviou cem delegados à manifestação em defesa do Tipnis.

Becerra, sentado na entrevista coletiva junto a Vargas, apontou que Morales, mestiço de origem aimara, "só defende no discurso a Madre Tierra", não os indígenas que querem levar isso à prática e aprofundar as reformas.

Estudos citados pelos nativos amazônicos assinalam que 18 anos depois da construção da estrada mais de 600 mil hectares de floresta, 65% da zona floresta do Tipnis, terão sido destruídos.



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