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28/10/2004 - 17h50
Estudo dos EUA diz que 100 mil civis morreram no Iraque

Por Patricia Reaney

LONDRES (Reuters) - Dezenas de milhares de iraquianos foram mortos desde a invasão norte-americana de 2003, disseram especialista em saúde pública dos EUA, em um relatório que aponta a ocorrência de 100 mil "mortes em excesso [evitáveis]" em um intervalo de 18 meses.

O aumento no índice de mortes se deve em grande parte aos bombardeios norte-americanos contra cidades e aldeias do Iraque.

"Fazendo estimativas conservadoras, achamos que cerca de 100 mil mortes em excesso, ou mais, aconteceram desde a invasão do Iraque em 2003", disse Les Roberts, da Escola Johns Hopkins Bloomberg de Saúde Pública, em estudo publicado na revista médica The Lancet.

"O uso do poderio aéreo em áreas com muitos civis parece estar matando muitas mulheres e crianças", disse Roberts à Reuters.

O estudo foi divulgado a poucos dias das eleições presidenciais dos EUA, na qual a guerra do Iraque é uma questão crucial.

A mortalidade no Iraque já estava alta antes da guerra, por causa das sanções da ONU que dificultavam o acesso a alimentos e remédios. Mesmo assim, os pesquisadores se disseram chocados com o que descobriram.

Os novos dados se baseiam em pesquisas feitas no Iraque em setembro. Foram comparadas as mortes ocorridas no país nos 14,6 meses que antecederam à invasão e nos 17,8 meses posteriores, com base nos relatos de moradores de casas aleatoriamente escolhidas dentro de bairros selecionados.

As estimativas anteriores, com base em relatos da imprensa e de ONGs, davam conta de 16.053 mortes civis e de 6.370 militares entre os iraquianos. Desde o começo da guerra, 849 militares dos EUA foram mortos em combate e ataques e 258 morreram em acidentes ou incidentes sem relação com a luta, segundo o Pentágono.

Gilbert Burnham, que colaborou na pesquisa, disse que a ação militar dos EUA foi "muito ruim para os civis iraquianos".

"Não esperávamos o nível de mortes provocadas pela violência que encontramos neste estudo, e esperamos que isso leve a alguma discussão séria sobre como os objetivos militares e políticos podem ser atingidos, de maneira que não sejam tão nocivas às populações civis", afirmou ele à Reuters.

Os pesquisadores escolheram 33 áreas e sortearam 30 casas em cada uma, registrando a data, a circunstâncias e a causa das mortes. Eles concluíram que o risco de uma morte violenta após a invasão é 58 vezes maior do que antes.

Até o começo da guerra, as principais causas de morte no país eram ataques cardíacos, doenças crônicas e acidentes. Tudo mudou com o conflito.

Dois terços das mortes violentas registradas no estudo ocorreram em Falluja, cidade dominada pelos rebeldes, 50 quilômetros a oeste de Bagdá. Há frequentes bombardeios norte-americanos no local.

"Nossos resultados precisam de mais verificações e deveriam levar a mudanças para reduzir o número de mortes de não-combatentes nos bombardeios", acrescentou Roberts no estudo.

Richard Horton, editor da revista The Lancet, afirmou que a pesquisa apresentada neste mês foi revista por outros cientistas e editada rapidamente por causa da sua importância. "Essas conclusões também despertam questões para aqueles que estão muito longe do Iraque -- nos governos dos países responsáveis por uma guerra preventiva", afirmou ele em editorial.

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