Há quem aposte que a retomada do crescimento econômico brasileiro será um "vôo de galinha" e não é sustentável a longo prazo. Pode ser. Mas até a chegada de dezembro de 2005, quando mais um balanço da economia for feito, Palocci pode comemorar os resultados de 2004.
A economia cresceu de maneira vigorosa em 2004. De janeiro a setembro, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas pelo país no ano) cresceu 5,3% em relação aos nove primeiros meses de 2003. Só no terceiro trimestre deste ano a expansão foi de 6,1%, o melhor resultado desde 1996.
As previsões são otimistas. Segundo relatório da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe, órgão vinculado à ONU), a economia brasileira deve crescer mais de 5% neste ano, o melhor desempenho em dez anos de Real.
O Brasil produziu mais em 2004. E para suprir a demanda interna e externa, abriu postos de trabalho. O desemprego nos seis principais centros metropolitanos do país caiu para 10,5% da população economicamente ativa em outubro, o nível mais baixo nos últimos três anos. Segundo as contas do IBGE, foram criadas 774 mil novas vagas formais em um ano.
Apesar das boas notícias, muitos brasileiros não sentiram ainda os efeitos do crescimento econômico. O rendimento médio do trabalhador acumula altos e baixos durante o ano. Em outubro, por exemplo, a média dos vencimentos era de R$ 900,20, contra R$ 915,30 em setembro. Em relação a outubro do ano passado, houve um discreto aumento real de 2,6%.
"Exportar ou morrer"
Dita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a frase "exportar ou morrer" tornou-se uma das bandeiras do governo Lula. Nunca o Brasil exportou tanto quanto em 2004. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, a previsão é fechar o ano com vendas de US$ 95,3 bilhões no mercado internacional.
A disparada das exportações fez a balança comercial pender a favor do Brasil. Somando-se tudo o que se vendeu, menos tudo o que se comprou, o país caminha para fechar o ano com superávit comercial de US$ 33 bilhões. Com mais reservas e, portanto, menos vulnerável às oscilações do mercado internacional, a economia brasileira foi vista com menos desconfiança. O risco-país caiu para menos de 400 pontos, atingindo os menores níveis desde 1997, às vésperas da crise asiática.
A indústria brasileira exporta carros, fogões, geladeiras, celulares e aviões. Mas o que faz diferença para as contas externas do governo não está no pátio das fábricas, mas nos campos do interior do país. O agronegócio é responsável por apenas um terço das exportações brasileiras, mas o saldo comercial dos produtos agropecuários deve atingir US$ 35 bilhões - superior à totalidade do superávit comercial brasileiro previsto para o ano. Entre os muitos casos de sucesso, destaque para a soja e para a carne.
Mercado financeiro
Diversas variáveis fazem a diferença para se ganhar ou perder dinheiro no mercado financeiro. Entre elas estão o tempo de investimento, o momento de comprar e de vender os ativos, a rentabilidade da aplicação. Contudo, quem apostou no dólar em 2004 muito provavelmente teve prejuízo. A moeda norte-americana começou o ano a R$ 2,903. No final de dezembro, oscilava entre R$ 2,6 e R$ 2,7, o que deve garantir ao dólar o seu segundo ano consecutivo de desvalorização frente ao real.
A Bolsa de Valores de São Paulo não repetiu o excelente desempenho de 2003, quando valorizou-se quase 100%, e caminha para fechar o ano com ganhos de 17,81%, graças principalmente a uma arrancada nos últimos meses do ano. A caderneta de poupança, durante muitos anos a modalidade preferida de investimento dos brasileiros, deve render por volta de 10%. Portanto, ganhou mais quem acreditou no "vilão" do crescimento: os juros. A opção da economia brasileira em conter a inflação aumentando a taxa básica de juros garantiu um retorno superior a 15% aos investidores - sem os riscos do mercado de ações.
Os juros que voltaram a subir no final do ano. Começou janeiro em 16,5%, iniciou um discreto movimento de queda no primeiro semestre mas acabou terminando 2004 em 17,75%. A culpa, dizem as autoridades monetárias, é da inflação, que por sua vez está relacionada à retomada do emprego e do crescimento econômico. Juros altos deixam o crédito mais caro e freiam o consumo. Menos compras significam menos inflação, simples assim.
Há motivo para preocupação com a inflação? A equipe econômica de Lula acredita que sim. O indicador de preços oficial do governo, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado), passou de 0,44% em outubro para 0,69% em novembro. No ano a inflação acumulada é de 6,68%, acima da meta de 5,5% para 2004. Vale lembra que há uma margem de tolerância de 2,5 pontos percentuais para cima ou para baixo.