A guerra mostrou uma de suas faces mais cruéis e desconhecidas quando fotos de soldados americanos torturando prisioneiros iraquianos na prisão de Abu Ghraib ganharam destaque ao redor do mundo. As primeiras imagens foram divulgadas pelo programa "60 Minutos", da rede americana CBS, em 28 de abril.
A desmoralização das tropas americanas aumentava na proporção em que eram divulgados indícios de que os maus-tratos eram incentivados por generais, oficiais do
Exército e agentes da CIA (agência americana de informações). Ainda no início de maio, o Exército dos EUA puniu sete envolvidos. As
investigações pararam no baixo escalão -a patente mais alta entre eles é a de sargento.
Em dezembro, novas fotografias de torturas a prisioneiros iraquianos foram divulgadas por jornais americanos.
Política
O calendário político para o Iraque cumpriu as suas metas. Em 2004 o país passou a ser governado por um presidente interino, teve uma Constituição aprovada, uma Assembléia Nacional marcou eleições para 2005, mas as tropas aliadas entraram no segundo ano de invasão ao Iraque sem conseguir levar a paz ao país.
Houve o crescimento dos contra-ataques dos insurgentes: seqüestros se tornaram arma de guerra. A então segura zona verde (complexo superprotegido que comporta casas de integrantes do governo iraquiano, além das embaixadas americana e britânica) tornou-se um alvo recorrente.
Longe de resolver a situação caótica do país, o início da transição de poder aos iraquianos começou com a assinatura de uma Constituição provisória em março, depois de vários adiamentos entre os líderes das diferentes facções políticas, étnicas e religiosas.
A Carta é a mais liberal do mundo árabe: determina que o islã seja a religião oficial do país, mas não sua base legal; que as mulheres ocupem 25% dos assentos da Assembléia Nacional interina, e que os curdos mantenham suas milícias autônomas. O documento também inclui uma longa lista de garantias a liberdades e direitos civis. O texto não agradou o principal líder religioso do Iraque, o aiatolá Ali al Sistani.
Em continuidade ao processo de transição, toma posse em junho o governo interino iraquiano, dois dias antes da data prevista, em uma cerimônia discreta e privativa em Bagdá. O país volta a ser reconhecido pela ONU.
No entanto, o novo governo "soberano" interino do Iraque não exerce poder sobre os cerca de 160 mil soldados da força multinacional, que permanecerá no país sob o comando norte-americano até "o tempo que for necessário". Os Estados Unidos mantêm assegurado ainda o controle sobre a economia do país.
Seqüestros
O número estimado de rebeldes no Iraque passou de 5.000 para 20 mil nos últimos seis meses, segundo o Instituto Brookings, de Washington. Até o dia 24 de dezembro, segundo a Iraq Coalition Casualty Count, 1.324 soldados da tropa norte-americana morreram desde o início dos conflitos (março de 2003).
A conseqüência mais evidente disso se traduziu em um número cada vez maior de ataques a autoridades - de diplomatas a líderes regionais e seqüestros.
Os casos mais comoventes foram de duas italianas voluntárias, já libertadas, e de Margaret Hassan, diretora da organização humanitária Care International no Iraque, ainda desaparecida.
Em troca da libertação, quase sempre mesmo pedido: que os países abandonem a coalizão e saiam do Iraque. Os insurgentes obtiveram alguns resultados: as Filipinas, por exemplo, retiraram seus 51 soldados do país em troca da vida de um refém.
Destruição e reconstrução
Do processo norte-americano de reconstrução, vê-se somente a destruição. Segundo a ONG britânica Medact, 12% dos hospitais iraquianos sofreram danos durante a guerra e os dois principais laboratórios sanitários do país foram destruídos. Além disso, alguma doenças controladas antes da invasão liderada pelos EUA em março de 2003, como a diarréia e a tifóide, registraram um aumento no número de casos porque os problemas de segurança estão limitando o acesso aos centros médicos.
De acordo com os planos da Casa Branca, os investimentos em infra-estrutura servirão como base para o renascimento da economia iraquiana. Mas enquanto isso não acontece, invadido e invasor somam seus custos.
O Iraque vê seu prejuízos com uma taxa de desemprego alta (de 30% a 40% da população economicamente ativa) e perdas de até US$ 200 milhões com oleodutos, freqüente alvo de sabotagens.