Quarta-feira, 1º de setembro, 9h30 da manhã. Fim das férias de verão no hemisfério norte. Crianças voltam às aulas em uma escola desconhecida de uma república desconhecida na distante Rússia. Cinqüenta e três horas depois, o mundo assistia perplexo à morte de 339 pessoas no mais sangrento atentado terrorista de 2004.
A pequena cidade de Beslan, na Ossétia do Norte, jamais imaginou estar na capa de todos os jornais, revistas semanais e portais de Internet. E jamais estaria, não fosse a tomada da Escola Média Número Um por um grupo de terroristas que reivindica a independência de outra república russa, a Tchetchênia, essa sim já conhecida no noticiário internacional, exatamente por essa luta.
Foram 53 horas de ameaças e negociações frustradas. E de angústia, amplificada pela falta de informação sobre o total de reféns, sobre o número exato de seqüestradores e sobre a disposição das autoridades em ceder às exigências.
Até onde se sabe, os seqüestradores planejaram o ataque durante meses, e aproveitaram as férias para plantar explosivos no ginásio e demais instalações escolares. A julgar pela quantidade de bombas no local, a operação tinha desde o seu início um caráter suicida.
As crianças não puderam se alimentar ou beber água durante as 53 horas em que permaneceram como reféns dos terroristas tchetchenos. Para matar a sede, começaram a beber a própria urina. Uma das sobreviventes contou ao canal russo de televisão NTV que ela e seus colegas da cidadezinha de Beslan urinavam dentro de garrafas e depois, para beber, usavam as roupas como filtro atado ao gargalo.
Segundo a versão oficial, um grupo de civis armados decidiu agir por conta própria, disparando contra os terroristas, o que deflagrou uma reação dos seqüestradores e precipitou uma ofensiva dos militares. Explosões, tiros, e invasão se sucederam.
Libertados, meninas e meninos seminus corriam para fora do colégio à procura de seus parentes. Pais com filhos no colo buscavam ajuda médica. Mulheres choravam sobre corpos de crianças enfileirados num gramado.
A reação internacional foi imediata. O presidente russo Vladmir Putin foi acusado de não saber negociar a crise e dar um fim precipitado ao cerco. Contudo, ainda sob o efeito do atentado, Putin conseguiu endurecer as leis contra o terrorismo no país, com medidas que autorizam ataques preventivos contra nações ou organizações que possam ameaçar a Rússia.
Madri, dois anos e seis meses depois
Dia 11 de março de 2004, exatos dois anos e seis meses depois dos atentados contra o World Trade Center, em Nova York (EUA), o terrorismo islâmico voltou a dar mostras de sua força.
Dez bombas explodiram entre 7h39 e 7h41 em algumas das principais estações de trem e metrô de Madri, capital da Espanha. A carnificina deixou um saldo de 202 mortos, dezenas de feridos e uma triste marca: o 11 de março madrilenho tornou-se o pior atentado terrorista na Europa desde 1988, quando líbios explodiram um avião 747 da PamAm sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia. Entre as vítimas estava o brasileiro Sérgio dos Santos Silva.
"Dava para ver o trem aberto, estraçalhado, e pessoas feridas saindo dos vagões. Tinha muito sangue, muita gente em pedaços, gritando de dor e de frio." A descrição, publicada na Folha de S.Paulo, é do jornalista brasileiro Bruno Lourenço Dias, 31, que chegou à estação Atocha poucos minutos após o atentado.
O então primeiro-ministro José Maria Aznar foi às emissoras de TV e acusou o grupo separatista basco ETA pelos atentados. O premiê queria mostrar eficiência e rapidez nas investigações para encontrar os autores, já que isso poderia gerar dividendos políticos para seu partido, que disputava uma nova reeleição para dirigir a Espanha, que aconteceria apenas quatro dias depois.
Contudo, Aznar não conseguiu colher os frutos eleitorais que esperava. Seu Partido Popular foi derrotado nas urnas e ele cedeu lugar ao socialista José Luis Rodríguez Zapatero, em uma das principais reviravoltas políticas do ano da Europa.
Após o fechamento das urnas, emergiu a real justificativa do ato dada pelos terroristas, ligados à rede Al Qaeda, de Osama bin Laden: o apoio do então primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar à invasão do Iraque pela coalizão comandada pelos Estados Unidos e o envio de tropas espanholas para o país do Oriente Médio.
Como sua primeira medida, Zapatero retirou do Iraque as tropas da Espanha, um dos principais pilares da coalizão liderada pelos EUA - decisão criticada por George W. Bush.