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29/12/2004 - 18h10
Beslan e Madri, as duas faces do terror em 2004

Pai carrega filho
ferido em Beslan
Um matou 339 pessoas, na maioria crianças, em uma escola primária de Beslan, na remota Ossétia do Norte. Outro deixou 202 mortos em estações de trem e metrô da cosmopolita Madri, capital da Espanha. Em 2004, o terrorismo vitimou inocentes e voltou a mostrar ao mundo uma de suas faces mais cruéis. Leia abaixo um resumo dos dois atentados que marcaram o ano.

Daniel Pinheiro
Da Redação

Quarta-feira, 1º de setembro, 9h30 da manhã. Fim das férias de verão no hemisfério norte. Crianças voltam às aulas em uma escola desconhecida de uma república desconhecida na distante Rússia. Cinqüenta e três horas depois, o mundo assistia perplexo à morte de 339 pessoas no mais sangrento atentado terrorista de 2004.

A pequena cidade de Beslan, na Ossétia do Norte, jamais imaginou estar na capa de todos os jornais, revistas semanais e portais de Internet. E jamais estaria, não fosse a tomada da Escola Média Número Um por um grupo de terroristas que reivindica a independência de outra república russa, a Tchetchênia, essa sim já conhecida no noticiário internacional, exatamente por essa luta.

Foram 53 horas de ameaças e negociações frustradas. E de angústia, amplificada pela falta de informação sobre o total de reféns, sobre o número exato de seqüestradores e sobre a disposição das autoridades em ceder às exigências.

Até onde se sabe, os seqüestradores planejaram o ataque durante meses, e aproveitaram as férias para plantar explosivos no ginásio e demais instalações escolares. A julgar pela quantidade de bombas no local, a operação tinha desde o seu início um caráter suicida.

As crianças não puderam se alimentar ou beber água durante as 53 horas em que permaneceram como reféns dos terroristas tchetchenos. Para matar a sede, começaram a beber a própria urina. Uma das sobreviventes contou ao canal russo de televisão NTV que ela e seus colegas da cidadezinha de Beslan urinavam dentro de garrafas e depois, para beber, usavam as roupas como filtro atado ao gargalo.

Segundo a versão oficial, um grupo de civis armados decidiu agir por conta própria, disparando contra os terroristas, o que deflagrou uma reação dos seqüestradores e precipitou uma ofensiva dos militares. Explosões, tiros, e invasão se sucederam.

Libertados, meninas e meninos seminus corriam para fora do colégio à procura de seus parentes. Pais com filhos no colo buscavam ajuda médica. Mulheres choravam sobre corpos de crianças enfileirados num gramado.

A reação internacional foi imediata. O presidente russo Vladmir Putin foi acusado de não saber negociar a crise e dar um fim precipitado ao cerco. Contudo, ainda sob o efeito do atentado, Putin conseguiu endurecer as leis contra o terrorismo no país, com medidas que autorizam ataques preventivos contra nações ou organizações que possam ameaçar a Rússia.

Madri, dois anos e seis meses depois

Dia 11 de março de 2004, exatos dois anos e seis meses depois dos atentados contra o World Trade Center, em Nova York (EUA), o terrorismo islâmico voltou a dar mostras de sua força.

Dez bombas explodiram entre 7h39 e 7h41 em algumas das principais estações de trem e metrô de Madri, capital da Espanha. A carnificina deixou um saldo de 202 mortos, dezenas de feridos e uma triste marca: o 11 de março madrilenho tornou-se o pior atentado terrorista na Europa desde 1988, quando líbios explodiram um avião 747 da PamAm sobre a cidade de Lockerbie, na Escócia. Entre as vítimas estava o brasileiro Sérgio dos Santos Silva.

"Dava para ver o trem aberto, estraçalhado, e pessoas feridas saindo dos vagões. Tinha muito sangue, muita gente em pedaços, gritando de dor e de frio." A descrição, publicada na Folha de S.Paulo, é do jornalista brasileiro Bruno Lourenço Dias, 31, que chegou à estação Atocha poucos minutos após o atentado.

O então primeiro-ministro José Maria Aznar foi às emissoras de TV e acusou o grupo separatista basco ETA pelos atentados. O premiê queria mostrar eficiência e rapidez nas investigações para encontrar os autores, já que isso poderia gerar dividendos políticos para seu partido, que disputava uma nova reeleição para dirigir a Espanha, que aconteceria apenas quatro dias depois.

Contudo, Aznar não conseguiu colher os frutos eleitorais que esperava. Seu Partido Popular foi derrotado nas urnas e ele cedeu lugar ao socialista José Luis Rodríguez Zapatero, em uma das principais reviravoltas políticas do ano da Europa.

Após o fechamento das urnas, emergiu a real justificativa do ato dada pelos terroristas, ligados à rede Al Qaeda, de Osama bin Laden: o apoio do então primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar à invasão do Iraque pela coalizão comandada pelos Estados Unidos e o envio de tropas espanholas para o país do Oriente Médio.

Como sua primeira medida, Zapatero retirou do Iraque as tropas da Espanha, um dos principais pilares da coalizão liderada pelos EUA - decisão criticada por George W. Bush.

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