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16/09/2005 - 17h10
Silêncio absoluto na capital do jazz
NOVA ORLEANS, EUA, 16 set (AFP) - Quase três semanas depois que a música silenciou na passagem devastadora do furacão Katrina, ninguém ainda se anima a afirmar se algum dia Nova Orleans, berço indiscutível do blues e do jazz, voltará a ser a mesma.
O furacão Katrina conseguiu o que nenhuma guerra mundial, depressão econômica ou tensões raciais haviam conseguido: silenciar esta cidade cheia de bares, clubes e músicos de rua que dia e noite prestavam um tributo ao jazz.
O ritmo melodioso com solos de trompete foi substituído nos últimos dias por um novo som: os ruídos altos, baixos, agudos e graves e máquinas, tratores, os zumbidos de geradores e de helicópteros militares.
Pelo menos o histórico bairro francês, composto de quarteirões que concentravam a indústria do jazz e que atraía milhões de turistas a cada ano, ficou praticamente intacto depois da passagem do Katrina, que derrubou um dique que protegia esta cidade erguida sob o nível do mar.
Mas a alma da cidade, alimentada pelos músicos, exilou-se definitivamente. A esta altura muitos deles já encontraram trabalho em outras cidades americanas, após terem perdido suas casas.
Os bairros marginais, que em sua época viram nascer virtuosas gerações de jazzistas, foram abandonados completamente e hoje parecem povoados fantasmas.
A estátua-marco da cidade de Nova Orleans, a do mestre Louis Armstrong, considerado o pai do jazz, permanece altiva e solitária em meio à água negra e enlameada.
Perto dali, o Congo Square, onde nasceu o jazz com ritmos tribais dos escravos do século XIX, estava de portas fechadas, resguardado por dois soldados da 82ª Divisão Aerotransportada.
A poucos metros, a Basin Street, rua que inspirou o tema "Basin Street Blues", está repleta de lixo por todos os lados e parcialmente bloqueada por um ônibus que foi saqueado e queimado.
Se Armstrong vivesse é difícil imaginar que vendo sua cidade-natal transformada em um caos de águas pestilentas, sujas e ruas que lembram as de um povoado fantasma voltasse a cantar "What a Wonderful World".
Mas embora Nova Orleans esteja de luto, sua pregação musical continua chegando a todas as partes, afirma Paul English, que lidera o NOAHleans, um novo grupo dedicado a encontrar locais para todos aqueles músicos deslocados.
"Nova Orleans pode ter silenciado nesta noite, mas sem dúvida a música de Nova Orleans está viva e goza de boa saúde, o espírito de Nova Orleans está vivo", disse English à AFP.
Vários artistas de Nova Orleans estão procurando seus colegas em outras cidades americanas para compartilhar apresentações e receber o calor de um público que os espera de braços abertos, garantiu English. É assim que o mais genuíno dos ritmos carregados de sax e melodias contagiosas agora se apreciar em Memphis (Tennessee, sul) ou Minneapolis (Minnesota, norte), por exemplo.
A tragédia de Nova Orleans afetou um número importante de artistas de renome mundial que mais uma vez demonstraram seu talento em típicos clubes lotados de gente e fumaça, lembraram Harry Connick Junior e Wynton Marsalis, que recentemente declararam ao jornal francês Le Monde que sentem essa catástrofe como "uma grande e profunda perda". (Por Stephen Collinson)

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