Por Marcelo Teixeira
SÃO PAULO (Reuters) - Um novo foco de febre aftosa foi identificado no Brasil, o maior exportador mundial de carne bovina, pouco mais de um ano depois do último registro. E desta vez a doença atingiu o principal Estado produtor de bois no país, o Mato Grosso do Sul, até então considerado livre da doença.
O registro ameaça um setor que contribuiu com 3,13 bilhões de dólares para o comércio externo brasileiro no período dos últimos 12 meses até setembro, já que muitos importadores poderão proibir os embarques para eliminar o risco de contágio.
A Rússia, maior cliente de carne bovina e suína do Brasil, com compras totais destes dois produtos próximas de 1 bilhão de dólares somente em 2005, já informou oficialmente que poderá restringir as importações.
O foco de febre aftosa foi identificado em um rebanho bovino no município de Eldorado, extremo no sul do Mato Grosso do Sul, a cerca de 45 quilômetros do Paraguai, informou o Ministério da Agricultura nesta segunda-feira.
"O Laboratório Nacional Agropecuário confirmou o diagnóstico para a febre aftosa em amostra colhida em bovinos na fazenda Vezozzo", informou o ministério em um comunicado.
"Após a confirmação da doença, foram adotados os procedimentos de emergência, incluindo o sacrifício de todos os 582 animais da propriedade."
Até 2004, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Mato Grosso do Sul abrigava o maior rebanho bovino do país, com 24 milhões de cabeças.
O Estado também é um dos maiores exportadores de carne bovina, onde estão localizadas unidades processadoras dos principais frigoríficos do país, como o Bertin e o Independência.
Mato Grosso do Sul era considerado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) como região livre de febre aftosa com vacinação, status que poderá perder se não tiver controlado o foco da doença até a próxima inspeção semestral.
O Estado estava incluído no chamado "circuito exportador", definido pelo governo para demarcar a região considerada apta para vender carne ao exterior.
O ministério informou que interditou a fazenda onde foi registrado o foco da doença e que está realizando inspeções em propriedades em um raio de 25 quilômetros do local do foco.
O governo está instalando postos de fiscalização e vai restringir o movimento de pessoas e animais na região.
A Secretaria Federal de Agricultura no Mato Grosso do Sul informou que ainda não há definição sobre a origem da doença, que está sendo investigada.
O município afetado fica a apenas 45 quilômetros da fronteira com o Paraguai, cujo governo informou nesta segunda-feira não possuir animais doentes e que implantará um plano de alerta.
"Não há animais paraguaios infectados. Estamos enviando pessoal técnico de Assunção para reforçar nossos escritórios em Salto de Guairá (município próximo ao foco)", afirmou à Reuters Hugo Corrales, diretor do Servicio Nacional de Calidad Y Salud Animal (Senacsa).
EMBARGO
O foco no Mato Grosso do Sul é o primeiro desde 1999 no Estado e o mais recente no Brasil desde os dois focos registrados no ano passado, em junho, no Pará, e em setembro, no Amazonas.
Agora há expectativa quanto a eventuais embargos de países importadores do produto brasileiro.
"É preocupante. Quando ocorreram os focos no Pará e no Amazonas, a Rússia, por exemplo, proibiu carne do país inteiro", afirmou o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria. "A dúvida é se os países irão proibir apenas o Mato Grosso do Sul ou se vão proibir também outras áreas."
Segundo Tito Rosa, a cotação do boi gordo já estava caindo no mercado brasileiro, com os frigoríficos exportadores, incertos do impacto que a notícia terá em seus negócios, saindo do mercado.
Na BM&F (Bolsa Mercantil e de Futuros), em São Paulo, o contrato futuro de boi gordo caiu 3,17 por cento na abertura dos negócios e atingiu o limite de baixa. Depois houve uma pequena recuperação e ele fechou a 57,87 reais por arroba, baixa de 2,98 por cento.
O setor de carnes brasileiro tem apresentado franco crescimento e a expectativa era de que pudesse ultrapassar o complexo soja para liderar em receita entre as commodities.
O mercado estima que as vendas de carne bovina, suína e de frango somem cerca de 8 bilhões de dólares em 2005.
CONTROLE EM ATÉ 6 MESES
No final da tarde, o secretário nacional de Defesa Agropecuária, Gabriel Alves Maciel, falou a jornalistas, em Brasília, que o governo vai buscar controlar a situação em um prazo de 3 a 6 meses.
Maciel, assim como o ministro Roberto Rodrigues, tem criticado o contingenciamento de recursos para a área de sanidade animal e vegetal.
O orçamento inicial de 167 milhões de reais da Secretaria de Defesa Agropecuária foi reduzido pelo Ministério da Fazenda para 37 milhões. Após longas negociações, o volume foi elevado para 90 milhões de reais, mas a Agricultura ainda busca liberar o restante.
"Agora eles (área econômica) vão ficar muito mais sensíveis ao quadro (de sanidade animal no país)", afirmou Maciel, acrescentando que o governo ainda não havia recebido eventuais notificações de proibição de compras por parte de outros países.
O secretário disse que o número de animais doentes até o momento chegava a 153 do total de 582 cabeças do rebanho. Todos eles estão sendo sacrificados.
(Reportagem adicional de Daniela Desantis, em Assunção)
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