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01/12/2005 - 00h14
José Dirceu: de superministro a deputado cassado
SÃO PAULO (Reuters) - Principal articulador político da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, José Dirceu de Oliveira e Silva, 59 anos, chegou a ser chamado de superministro, primeiro-ministro e homem-forte do governo petista, mas foi dos primeiros a cair com a crise.
Dez dias após as denúncias do mensalão feitas em junho pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), Dirceu deixava a Casa Civil. Quase seis meses depois, perdeu seus direitos políticos por oito anos nesta quarta-feira. Dos mais de dez parlamentares envolvidos nas acusações, apenas Dirceu, que nega as acusações, e o próprio Jefferson perderam os mandatos.
O homem-símbolo da esquerda no governo já tinha sido atingido em fevereiro do ano passado pelas denúncias de cobrança de propina realizada por seu ex-auxiliar Waldomiro Diniz, um caso ocorrido em 2002, antes da posse do presidente Lula. Dirceu nunca se recuperou completamente do episódio e abriu o flanco para a oposição incomodá-lo.
Na Casa Civil, onde ficou por 30 meses, era responsável tanto pelo gerenciamento administrativo do governo quanto pela articulação política. Costurava os apoios no Congresso para as votações de interesse do Planalto e chegava a coordenar acertos para mudanças ministeriais, como no final de 2004, quando acabou desautorizado pelo presidente Lula em convites já acertados.
Apesar dessas incursões na articulação política, no início daquele ano viu seu ministério ser desmembrado para que o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) assumisse os contatos com o Congresso e os partidos.
Na gestão, reunia-se com ministros sistematicamente e cobrava --como hoje sua sucessora Dilma Rousseff-- maior eficiência na execução orçamentária. Divergiu com o ministro Antonio Palocci (Fazenda) mais de uma vez ao apontar o alto patamar dos juros como impeditivo ao crescimento.
Muitas dessas críticas eram vazadas, outras assumidas e algumas desconversadas dias depois, com o argumento de respeito à política econômica e ao próprio Palocci.
Com os dados positivos do crescimento econômico a partir de 2004, Palocci foi cada vez consolidando suas posições e o apoio do presidente Lula.
Para Lula, os dois funcionavam como pêndulo no governo. Dirceu deixou a Casa Civil em junho deste ano. Sua saída rendeu uma carta aberta feita pelo presidente na qual expressou "apreço pela lealdade, dedicação, competência e honestidade no trato da coisa pública". Lula mandou-lhe ainda o tradicional recado da esquerda: "A luta continua".
Já Dirceu previu ao sair que continuaria governando o Brasil como deputado, não conseguiu.
Sombra A proximidade de Dirceu com Lula foi sempre vista com ambiguidade. Afinal, quem fazia a cabeça de quem?
O próprio Dirceu se incumbiu de responder. Logo após a vitória de Lula em 2002, Dirceu rebateu o título de uma revista que naquela semana havia estampado: "O homem que fez a cabeça de Lula". "Não fui eu que fiz a cabeça do Lula. Ele é que fez a minha", declarou.
Para a eleição de Lula, Dirceu inaugurou alianças inusitadas para o PT que incluíram partidos como o PL, do industrial e vice-presidente José Alencar, e figuras como o ex-presidente José Sarney (PMDB), além dos óbvios PCdoB e PSB.
Dentro do partido que presidiu por sete anos (1995-2002), operou o "PT light", afastando os radicais da direção.
Ainda alinhado com a esquerda, porém bem mais moderado do que no passado, o "PT light" apoiou o acordo realizado em agosto pelo Brasil junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI). "Sem esta posição do PT a favor da estabilidade, o Brasil já teria sido empurrado para o calote", disse Dirceu durante a campanha.
Presidente do partido desde 1995, Dirceu já havia coordenado as campanhas de Lula em 1989 e 1998. Na tentativa de Lula de 1994, Dirceu se candidatou ao governo de São Paulo, perdendo para Mário Covas.
Prisão e plástica Dirceu entrou para a política como líder estudantil durante o regime militar (1964-1985), quando cursava Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. Com a cassação de políticos opositores e o controle dos sindicatos, o movimento estudantil era a maior frente de contestação ao regime naquele momento.
Em 1968, então presidente da entidade dos estudantes paulistas (UEE-SP), foi preso em Ibiúna (SP), durante a realização do célebre congresso da UNE. Foi libertado no ano seguinte junto com outros presos políticos trocados pelo embaixador norte-americano Charles Elbrick --que havia sido sequestrado no Rio de Janeiro pela luta armada.
Com a nacionalidade cassada e banido do país, exilou-se em Cuba até 1975, quando retornou clandestinamente ao Brasil e se instalou no Paraná. Desembarcou com o rosto modificado, fruto de uma cirurgia plástica, e adotou nova identidade. Casou, teve um filho, e só revelou à mulher sua verdadeira identidade quando a anistia foi anunciada, em 1979.
Retornou então a Cuba, desfez a cirurgia plástica e entrou no Brasil no mesmo ano, agora de forma legal. Ainda em 1980, se separou da mulher.
Em Cuba, recebeu treinamento militar, mas não chegou a ser guerrilheiro.
"Treinei guerrilha, sim, mas não gostava daquilo, não me envolvi, não era minha", declarou anos depois. Mas devem ter vindo da militância, do treinamento e da clandestinidade o senso de organização e o pragmatismo que lhe apontam e que ele levou ao governo, além da determinação que demonstrou enquanto se defendeu das acusações de corrupção no PT.
Eleito deputado federal pela terceira vez em 2002, mas não de forma consecutiva, Dirceu foi um dos fundadores do PT em 1980. "Assinei a ata de fundação com o sentimento de que acabava de readquirir meus direitos políticos e minha nacionalidade. O PT entrou em minha vida para não sair mais", afirmou na época.
Mineiro de Passa Quatro, Dirceu chegou a São Paulo em 1961 e, por conta do exílio, acabou se formando em Direito pela PUC em 1983. Fez pós-graduação em Economia na mesma universidade.
(Por Carmen Munari)

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