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01/08/2006 - 19h56
Intelectuais brasileiros divergem sobre liderança de Fidel

Por Fernanda Ezabella e Carmen Munari

SÃO PAULO (Reuters) - Antigos admiradores de Fidel Castro, José Serra (PSDB), candidato ao governo de São Paulo, e Fernando Morais, autor do livro "A Ilha", demonstram ânimos diferentes quando o assunto é Cuba e Fidel Castro.

As expectativas em relação ao futuro da ilha de regime comunista cresceram depois que o presidente cubano passou por uma cirurgia de emergência e transferiu temporariamente o comando de poder para seu irmão Raúl Castro, na segunda-feira.

"Fui um grande admirador do Fidel, na época da Revolução Cubana (1959) e nos primeiros anos da década de 1960. E hoje para mim, infelizmente, devo dizer, o Fidel é uma decepção", disse Serra.

O ex-prefeito, de 64 anos, foi um dos fundadores, em 1962, da Ação Popular, organização clandestina de estudantes católicos que pregava o socialismo. Como presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), no ano seguinte, participou de manifestações de apoio ao governo do presidente João Goulart. Com o golpe de 1964, exilou-se na Bolívia e depois no Chile.

Informado sobre a cirurgia intestinal do presidente cubano, Serra não demonstrou consternação. "Não fico triste com a doença dele, aliás não fico triste com a doença de ninguém. Desejo que ele se restabeleça."

Na hipótese da morte do dirigente, previu mudanças, mas evitou qualificá-las. "A curto prazo não sei dizer o que poderá acontecer, mas haverá mudanças significativas. Porque Fidel é o elemento que solda o regime e na ausência dele eu não sei se haverá as mesmas condições para isso", afirmou.

Fernando Morais, que frequenta Cuba desde 1974 e esteve no país comunista em 2005 quando almoçou com Fidel, disse que mandou um telegrama de condolências ao líder cubano e espera por uma melhora.

"Precisamos de Fidel saudável", disse Morais à Reuters. "No momento em que o atrevimento dos Estados Unidos chega ao absurdo do que estamos vendo, no Iraque, Irã, na Venezuela, a presença de alguém como Fidel é essencial."

600 atentados

Para Morais, é muito difícil prever o que acontecerá com a ilha no caso da morte de Fidel, mas disse que o líder já estava preparado para ser substituído há muito tempo, uma vez que dizia ter passado por algo com 600 tentativas de assassinato.

O escritor assina a apresentação de uma novo livro sobre Cuba, "Fidel Castro -- Biografia a Duas Vozes", escrito por Ignacio Ramonet, diretor do jornal Le Monde Diplomatique, que a editora Boitempo lança neste mês no Brasil.

"Abertura lá é o seguinte, enquanto tiver bloqueio americano, não tem conversa", disse o escritor, que acredita que o pior na ilha ficou para trás. "É um país pobre, que tem o PIB da Daslu, mas que apesar disso tem IDH melhor do que muitos Estados norte-americanos."

O escritor Eric Nepomuceno, autor do livro sobre a Revolução Cubana "Caderno de Notas", acredita que a ilha poderá passar por mudanças e aberturas em todos os sentidos num futuro sem Fidel, contanto que não se mexa na essência das conquistas da Revolução.

"Há uma série de pontos que foram alcançados pelo povo cubano que não tem volta, como as garantias de saúde, educação, moradias, mesmo que precárias", disse Nepomuceno, tradutor de Gabriel García Márquez. "E há também a dignidade do cubano que só quem conhece muito Cuba consegue entender."

"Cuba não é um país que dá para medir como qualquer outro", disse. "Tem de ver que ele sobrevive sozinho, diante daquele monstro que está ali do lado, pronto para devorá-lo."

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