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05/11/2006 - 06h00
Entrevista com João Santana - parte 1: "Lula sempre se beneficia na situação de vítima"

Marqueteiro petista faz relato inédito e revela que estratégia sobre crítica à privatização tucana estava montada desde o início

FERNANDO RODRIGUES
ENVIADO ESPECIAL DA
FOLHA A SALVADOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve sua reeleição ao fato de ter virado, no imaginário do eleitorado mais pobre, uma figura dupla: um "fortão" igualmente humilde que virou poderoso e ao mesmo tempo uma vítima, um "fraquinho" sob ataque das elites.

Essa é uma das explicações usadas pelo publicitário João Cerqueira de Santana Filho para o sucesso da empreitada que acompanhou de perto nos últimos meses.

Mais cerebral e dado a reflexões quase acadêmicas (cultiva uma biblioteca com mais de 3.000 livros) e muito menos mercurial que seu antecessor, Duda Mendonça, o marqueteiro atual de Lula desenvolveu uma análise própria sobre o caso de amor do eleitorado com o presidente: a teoria do "fortão" e do "fraquinho" -ele usa termos mais eloqüentes, mas criou esses enquanto falava à Folha "para ficar mais publicável".

Lula alternaria esses dois papéis no imaginário do brasileiro das classes mais pobres. Depois que se elegeu presidente em 2002, o petista passou a ser uma projeção de sucesso para as camadas C e D da população. "É um deles. Chegou lá", diz Santana. Nesse momento, a personagem é o "fortão", que "rompeu todas as barreiras sociais e conseguiu o impossível, tornando-se um poderoso".

Já quando "Lula é atacado, o povão pensa que é um ato das elites para derrubar o homem do povo que está lá. 'Só porque ele é pobre', pensam. Nesse caso, vira o bom e frágil 'fraquinho' que precisa ser amparado e protegido", elabora Santana.

O marqueteiro não criou essa teoria do nada. Durante 77 dias sucessivos foi alimentado por pesquisas. A cada 24 horas, o instituto Vox Populi entrevistava 700 eleitores para a campanha do PT em todo o país. Ao mesmo tempo, também diariamente, oito grupos de 12 pessoas eram entrevistados por cerca de uma hora e meia por especialistas -as chamadas pesquisas qualitativas. As "qualis" eram transmitidas em vídeo, ao vivo, pela Internet por meio de uma conexão segura para o microcomputador de Santana.

Em 77 dias, o publicitário de Lula teve a opinião, portanto, de 53,9 mil entrevistas quantitativas e de 7.392 qualitativas -mais do que a maioria das teses universitárias que tentam entender o que pesam os eleitores brasileiros.

Baiano de Tucano (a 250 km de Salvador, no meio do sertão), aos 53 anos, Santana assessora Lula desde 24 de agosto de 2005. Foi essa a data da reunião no Palácio do Planalto na qual ouviu a seguinte frase de Lula: "A situação é incerta. Se eu for o candidato, você vai fazer a minha campanha". Naquele momento, no auge do escândalo do mensalão, a imagem da administração petista estava no chão: só 28% de aprovação, segundo o Datafolha.

Antes de se tornar publicitário, Santana foi jornalista. Estudou na Universidade Federal da Bahia. Foi ligadíssimo ao suíço Walter Smetak (1913-1984), um dos papas da música experimental dos anos 60 e que adotou a Bahia como sua terra. Smetak é até hoje para ele uma das maiores referências.

No seu Estado, trabalhou no "Jornal da Bahia" e foi chefe do escritório local do jornal "O Globo", tendo também trabalhado para "Veja". Em Brasília, foi do "Jornal do Brasil" e diretor da revista "Isto É" -nessa última publicação, foi um dos autores da reportagem com o motorista Eriberto França, que provocou a queda de Fernando Collor de Mello em 1992. Por esse trabalho, o baiano ganhou o Prêmio Esso daquele ano.

Em 1990/91, Santana teve uma experiência no exterior. Estudou na universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos. "Foi um ano sabático, pago pela Fundação Loyola. Freqüentei sobretudo cursos de ciência política e relações internacionais", relata. Nos anos 70 até o início dos 80, teve uma fase de "desbunde". Fez uma incursão pelo mundo musical e artístico. Ajudou a fundar o grupo Bendegó, uma banda que misturava ritmos regionais e rock progressivo. Com o codinome "Patinhas", redigiu várias letras de músicas com o parceiro Kapenga. Algumas fizeram sucesso, como "Sinal de Amor e de Perigo", cantada pela hoje sumida Diana Pequeno. No meio da letra está um de seus melhores aforismos: "O desejo é forte, mas não salva".

A tarefa de Santana agora foi substituir outro marqueteiro da Bahia, Duda Mendonça, afastado da posição no ano passado depois de revelar em público ter recebido cerca de R$ 10 milhões do valerioduto. No passado, Santana e Mendonça foram sócios, mas se desentenderam em 2001. A associação foi desfeita e os dois mantiveram apenas uma fria e distante relação.

Santana, que considerou o maior erro da campanha a fuga de Lula do debate no primeiro turno, diz ter cobrado R$ 13,750 milhões do PT pelo trabalho publicitário, nos dois turnos. No meio da semana passada, nos dias 1º e 2 de novembro, deu sua primeira entrevista desde o início da campanha eleitoral. Falou à Folha em duas sessões, com um total de seis horas de conversa na sala e na varanda do seu apartamento no corredor da Vitória, em Salvador.

Fez uma reflexão sobre a dificuldade de tocar no tema corrupção ao longo da campanha. Era como mexer cirurgicamente em um "tumor no cérebro", diz ele. "Muitas vezes, a medicina ainda não tem como fazer uma intervenção cirúrgica direta. O risco não compensa. É o caso da questão ética na campanha. Houve uma dúvida sobre se deveríamos estourar ou não o tumor, no sentido de tratar extensivamente do assunto. Decidi tratar o problema de forma homeopática." Funcionou.

Mas daí veio o dossiegate. A preocupação de parte do eleitorado com a ética foi aguçada. O sucessor de Duda Mendonça usou então o que chama de "monstro vivo": o discurso sobre privatização sugerindo que os tucanos venderiam mais empresas públicas. A abordagem depreciativa sobre a venda de estatais, revela, "não surgiu por acaso, nem foi fruto de uma intuição temporária".

Indagado se houve manipulação da percepção negativa que o eleitorado tem sobre a venda de empresas estatais, o publicitário baiano nega. "Eleição é disputa de poder. É um combate quase sanguinário. Todos estão querendo espaço. Para ter espaço é preciso dar um empurrão, um solavanco numa pessoa. Ou até uma atitude mais agressiva, metafórica ou fisicamente. Usar um tema como privatização é muito mais honesto do que tentar assacar contra a honra do outro candidato."

A seguir, trechos da entrevista:

FOLHA - Qual foi o momento mais tenso da campanha?
JOÃO SANTANA -
O da eclosão do dossiê. Era uma sexta-feira, dia 15 de setembro. Presenciei a hora em que Gilberto Carvalho, de manhã, no estúdio, recebeu um telefonema. Ele ficou lívido. O presidente não foi informado na hora, pois estava se preparando para gravar. Mas posso assegurar a você que foi algo que pegou a todos de surpresa.

FOLHA - Como reagiu o presidente?
SANTANA -
Ele só soube na parte da tarde. Eu não vi. Só sei que no dia seguinte, era um sábado, ele me ligou logo cedo. Eram umas 7 horas da manhã. Ele me disse: 'João, estão falando de uma maluquice de um dossiê contra o Serra. Queria recomendar fortemente que não use de maneira nenhuma nada contra ele no programa'.

FOLHA - E o que se passou depois disso?
SANTANA -
Na segunda-feira o presidente precisava ir para a ONU, em Nova York. Não tínhamos como colocar o presidente no programa. A saída foi ler uma mensagem dele, condenando o ocorrido e relatando as providências tomadas. Foi o que fizemos e deu resultado.

FOLHA - Nesse período também houve a propaganda em que cenas de aplausos foram inseridas para dar a impressão que eram para Lula na ONU. Qual foi a intenção?
SANTANA -
Foi um erro absurdo de edição. Assumo como erro, pois parece até mentira. A equipe toda de comunicação tinha 150 pessoas. Uma editora fez a inserção dos aplausos de maneira errada, no primeiro corte do material bruto vindo de Nova York. Podem até achar que eu estou mentindo, mas foi o que aconteceu. Um erro. Aliás, o único.

FOLHA - Quando ficou claro que haveria segundo turno?
SANTANA -
Só na antevéspera, na sexta-feira, com o resultado das pesquisas, depois que ele não foi ao debate da TV Globo.

FOLHA - E foi na sexta-feira, dia 29 de setembro, que ficou claro nas pesquisas que haveria segundo turno?
SANTANA -
Foi uma perda de seis a sete pontos, algo que não tinha acontecido antes na campanha. O fato é que foi só pós-debate na TV Globo. Quando surgiu o dossiê, o efeito, nos primeiros dias foi mínimo ou nem teve efeito. Nós chegamos até a crescer dois ou três pontos nos dias subseqüentes ao tal dossiê.

FOLHA - Por que aconteceu a queda pós-debate?
SANTANA -
Uma parcela do nosso eleitorado ficava sempre esperando uma explicação mais detalhada, vinda diretamente do presidente. Eram pessoas predispostas a compreender, mas queriam ouvir alguma coisa da boca dele. Eles achavam que o debate era o melhor cenário para isso. Quando o presidente não foi, veio o que chamamos do 'voto bronca' nas classes C e D. E também teve um segmento da classe média baixa que viu um componente de soberba na ausência do presidente no debate. Essa percepção acabou aguçada. Foi o 'voto castigo'.

FOLHA - Mas questão ética era sempre o pano de fundo?
SANTANA -
Esta foi a inquietude que dominou toda campanha. Até criei uma teoria sobre o problema da questão ética. Chamei de "teoria do tumor no cérebro".

FOLHA - Explique.
SANTANA -
Muitas vezes, quando se detecta um tumor cerebral, a medicina ainda não tem como fazer uma intervenção cirúrgica direta. O risco não compensa. É o caso da questão ética na campanha. Vale ou não vale a pena tratar o assunto diretamente, nos perguntávamos. O grande escândalo era de agosto de 2005, com os vários depoimentos na CPI dos Correios. O presidente se manifestou na época. Ficou claro, para a maioria da população, que o presidente não teve nenhuma participação direta. Quando começou a campanha, houve uma dúvida sobre se deveríamos estourar ou não o tumor, no sentido de tratar extensivamente do assunto. Decidi tratar o problema de forma homeopática. O presidente falou dele, logo no primeiro programa e fez abordagens esporádicas durante a campanha. Tudo se acomodou. Mas o episódio do dossiê reviveu uma situação de inquietude do eleitor de Lula. E esse eleitor esperou a presença do presidente no debate.

FOLHA - O presidente errou ao não ir ao debate?
SANTANA -
Errou. Eu disse isso a ele antes. Depois, ele até reconheceu. Num debate, estando presente, raramente você perde. Estando ausente, é sempre maior o risco de ser derrotado.

FOLHA - E se ele tivesse ido e a candidata Heloísa Helena se colocasse numa condição de vítima e desafiasse o presidente, deixando-o encurralado?
SANTANA -
Claro, sempre havia esse risco. O imponderável circunda qualquer eleição. Mas algumas coisas são fáceis de prever. O político Lula, depois que se tornou presidente, sempre que esteve em situação de vítima saiu lucrando. É uma outra teoria minha, a do 'fortão' e a do 'fraquinho'. Duas características que convivem, paradoxalmente, no mesmo personagem.

FOLHA - Como isso ocorre?
SANTANA -
Há uma profunda identificação do povo com ele. O fenômeno ocorre depois do rito de passagem que o transformou em presidente e deu-lhe toda a glória inerente ao processo. Passou a existir uma projeção das camadas C e D da população. Lula é um deles. Chegou lá. Os 60% da população que se identificam com Lula enxergam o presidente como o fortão, o igual que rompeu todas as barreiras sociais e conseguiu o impossível, tornando-se um poderoso. É algo que mexe profundamente com auto-estima das pessoas. Lula, nesse caso, é o 'fortão', o 'libertador' da minha teoria.

Por outro lado, quando Lula é atacado, o povão pensa que é um ato das elites para derrubar o homem do povo que está lá. 'Só porque ele é pobre', pensam. Nesse caso, vira o bom e frágil 'fraquinho' que precisa ser amparado e protegido. Jamais houve, no Brasil, tamanha identificação entre um presidente e os setores majoritários da população.

FOLHA - O sr. está dizendo que a população é indulgente com Lula porque se identifica com ele?
SANTANA -
Não. Eles não absolvem nem concedem indulgência ao presidente sabendo que ele tenha alguma culpa. O fato é que as pessoas não enxergaram culpa direta, e não há nenhuma prova contra o presidente. Mas é claro que ele só continuou a ter popularidade porque não há nenhuma prova de culpa nos processos todos. Se fosse estabelecida a culpa direta do presidente, não haveria DNA que o salvasse.

O grande absurdo de leitura nesse processo é dizer que o brasileiro tem um padrão ético baixo ou que esqueceu a ética na hora de votar. É uma das maiores injustiças com o eleitor brasileiro. Nenhum eleitor do Lula tapou o nariz ao votar no presidente.

FOLHA - Por quê?
SANTANA -
O eleitor brasileiro só votou no Lula porque tinha certeza de que ele era inocente.

FOLHA - Mas nos grupos de pesquisas qualitativas não tinha aquela frase-síntese do "se eu estivesse lá eu fazia a mesma coisa"?
SANTANA -
Não é bem assim. Eu chamaria essa atitude de cinismo igualitário. É assim: 'Todo mundo faz coisa errada. Política também tem coisa errada. Ninguém consegue fazer política sem fazer coisa errada'. Mas esse sentimento não foi majoritário. O fato a ser dito é: o pobre não votou no Lula achando que o presidente estava em um estado de pecado. As pessoas tinham plena convicção de que o presidente não teve culpa direta.

FOLHA - Por analogia, então, posso deduzir que um traço da maioria do eleitorado brasileiro é não punir uma pessoa pobre que dá a arma ao assassino? Só tem culpa quem puxa o gatilho?
SANTANA -
A analogia não tem sentido. Repito, apesar de certas teorias de olhar superior, o povo brasileiro é muito rígido consigo mesmo. Ele cria os filhos com forte rigor moral e seus mitos são puros e de bom coração.

FOLHA - Quais foram os momentos importantes de recuperação da imagem do presidente Lula depois dos escândalos de 2005?
SANTANA -
Para ficar no campo da mídia, primeiro, foi a entrevista ao 'Fantástico', no final do ano [edição de 1º de janeiro deste ano]. Depois, a entrevista ao 'Jornal Nacional' [durante o primeiro turno]. Dois exemplos fora de um ambiente de propaganda eleitoral.
O mais interessante é que a mídia achou que Lula foi mal nessas entrevistas. Os eleitores acharam que ele foi bem. É fascinante que a leitura da mídia seja tão diferente de um amplo setor da sociedade. A percepção da mídia raramente se distancia do que é o segmento social dela, que é a classe média.

FOLHA - A que o sr. atribui esse suposto divórcio de interpretações?
SANTANA -
Ao fato de a mídia ser de uma extração social de classe média. Dificilmente se liberta desses condicionantes. Ao contrário. Ela revigora essa percepção. É, ao mesmo tempo, vício e defesa.

FOLHA - O presidente e o PT consideram ter sido tratados de maneira incorreta pela mídia. Qual é a sua avaliação?
SANTANA -
No geral, a mídia se comportou bem em relação ao governo do Lula e em relação à campanha. No geral. Em alguns momentos específicos, não. Prefiro não falar de maneira específica. A apuração de alguns fatos não foi de acordo com o que mandam os bons preceitos jornalísticos.

FOLHA - Mas o sr. acha que houve algum movimento deliberado de parte da mídia para tentar prejudicar a candidatura Lula?
SANTANA -
Prefiro acreditar que não, afinal dediquei boa parte da minha vida ao jornalismo.

FOLHA - O episódio do dossiê contra tucanos permanece obscuro. O presidente deu declarações contraditórias. Primeiro, falou que Ricardo Berzoini não tinha envolvimento. Depois, que cobrou explicações de Berzoini e não recebeu resposta...
SANTANA -
Não vi contradição. O que o presidente quis dizer é que não chegou para ele, antes ou depois, uma versão inteira dos fatos. Isso é verdade. Esse tal de núcleo de inteligência, toda campanha tem.

FOLHA - Mas uma personagem central, Jorge Lorenzetti, era o churrasqueiro do presidente. Como era possível não terem se falado sobre nada?
SANTANA -
Mas nesse período todo, nos últimos 90 dias, eu nunca vi nem cruzei com essa pessoa nem com os outros citados.

FOLHA - Eles nunca apresentaram nenhum material?
SANTANA -
O Lorenzetti até tentou marcar conversas comigo, mas eu nunca o recebi, até mesmo porque não sabia quem era nem o que fazia. Para dizer que não teve nada, ele me mandou um e-mail, em setembro, reclamando que eu não o recebia. E foi isso.

FOLHA - Mas o sr. não avisava ao presidente a respeito dessas tentativas de contato?
SANTANA -
Claro que não, pois eram centenas de tentativas como essas. Não fazia sentido eu mencionar. Recebia cerca de 150 e-mails por dia, com sugestões de todo tipo.

FOLHA - Como foi pensada a mudança de enfoque da campanha no segundo turno, e, mais especificamente, como foi definida a abordagem a respeito do tema privatização?
SANTANA -
Esse é um tema riquíssimo que foi muito bem pensado. Nós tínhamos alinhado alguns dos temas de intensa fragilidade e de imensa comoção política. Estava em primeiro lugar a privatização. Não usamos no primeiro turno porque não houve necessidade de embate direto.

FOLHA - A forma como o assunto foi usado não se prestou a deseducar o eleitor? Propagou-se a noção de que a privatização em si é algo ruim...
SANTANA -
Foi deseducativo de acordo com determinado ideário. Para o 'consenso de Washington', sim. No Brasil, para alguns setores, revigorou-se um sentimento cívico. Não faço juízo de valor, mas o fato é que a privatização se apresenta no imaginário brasileiro com uma série de emoções políticas que poderiam ser, do ponto de vista tático, utilizados pela gente.

FOLHA - Quais eram essas emoções?
SANTANA -
Primeiro, há um eixo profundo, histórico. Um eixo cívico-épico-estatizante que vem de Getúlio Vargas, com a campanha 'o petróleo é nosso'. O outro eixo são 'as tramas obscuras'. Não quero questionar como foram feitas as privatizações no governo FHC, mas o fato é que o processo ficou na cabeça das pessoas como se algo obscuro tivesse ocorrido.

Foi erro de comunicação do governo FHC, que poderia ter vendido o benefício das privatizações de maneira mais clara. No caso da telefonia, teve um sucesso fabuloso. As pessoas estão aí usando os telefones. Em outros setores, mais afastados e difusos, era mais difícil de explicar e ficou a impressão de que não trouxe benefício, de que foi algo obscuro _o caso da mineração, por exemplo.

FOLHA - Sim, mas estamos aqui falando de uma percepção dos eleitores, do imaginário da população, não necessariamente do que de fato ocorreu. Nesse sentido, não é desonesto se beneficiar de uma idéia geral que vigora na sociedade? Algo que possivelmente o próprio presidente da República sabe que não é a verdade completa?
SANTANA -
Não. Eu trabalho com o imaginário da população. Em uma campanha nós trabalhamos com produções simbólicas. Não considero que exista aí desonestidade, pois o tema foi, pelo menos, discutido. É bom que a população fale e reflita sobre esses temas. No primeiro turno, analisando as pesquisas, eu vi que essa discussão poderia ser retomada. Enxerguei ali um 'monstro vivo' que poderia ser jogado.

FOLHA - Mas se foi só uma tática para encurralar o adversário fica então reforçada a tese de que houve uma certa desonestidade intelectual. Ou, para usar a expressão do candidato tucano, uma "mentirobrás"?
SANTANA -
Não é bem assim. Para começar, o presidente não foi reeleito por causa da polêmica sobre privatização. E essa até foi uma tática sobre a qual eu tinha dúvidas sobre o efeito. O fato é que adversário teve a oportunidade de responder. Mas não o fez. Tivesse ele uma resposta pronta, objetiva, o impacto teria sido reduzido.
Por exemplo, o Alckmin poderia mostrar objetivamente o uso de telefones, de computadores, de internet. Uma crônica escrita por um simpatizante tucano me deliciou. Ele se queixava da falta de coragem dos tucanos de enfrentar os debates. E até dizia que o Lula se apropriava dos argumentos e benefícios da privatização. Onde tinha celular? No programa do Lula. Onde tinha computadores? No programa do Lula. Dei gargalhadas quando li isso.

FOLHA - Em resumo, pelo que o sr. diz, não houve desonestidade porque o candidato tucano se recusou a responder?
SANTANA -
Exatamente. Podemos dizer que houve duas fugas de debate extremamente negativas por parte dos candidatos. A de Lula, no primeiro turno, quando não foi ao debate promovido pela Rede Globo. A segunda fuga de debate ocorreu quando Geraldo Alckmin não quis debater a privatização.

A nossa fuga foi um fato objetivo, pois houve o debate num lugar e horário pré-determinados. Mas o erro foi consertado no segundo turno, com Lula indo a todos. A fuga deles foi mais metafórica, pois a discussão foi recusada pela campanha tucana. Pegou na veia.

FOLHA - Por que, na sua avaliação, o candidato Alckmin se recusou a entrar de maneira mais firme nessa discussão de privatização?
SANTANA -
Porque não é fácil. Toda vez que vejo colegas em dificuldade eu tento me colocar do lado de lá. Eles sabiam dessa percepção generalizada e ruim sobre privatização que vigorava na cabeça da maioria dos eleitores. Seria uma atitude de risco para eles, em menos de 15 dias, tentar explicar para a população os benefícios da privatização, algo que em oito anos o FHC não fez.

FOLHA - A citação ao governo FHC de maneira positiva teria ajudado?
SANTANA -
De jeito nenhum. A assimilação de FHC pela campanha do Alckmin foi um problema. Esse foi um ponto que nós trabalhamos também, de maneira até certo ponto, maliciosa. Era muito difícil para eles. O fato é que FHC, por mais respeito que se tenha a ele, ficou com uma imagem pública péssima por causa do seu desempenho final, e não a média dos oito anos. A coisa que a gente mais gostava na campanha do Lula era quando o FHC aparecia. Toda vez que ele aparecia, a gente subia uns dois ou três pontos. Isso não é piada. É verdade. As nossas pesquisas mostravam. E, evidentemente, a campanha do outro lado sabia disso. Então, como iriam em 15 dias de segundo turno reverter tudo isso e tratar abertamente da privatização? Ficaram encalacrados, eu não gostaria de estar no lugar deles.

FOLHA - Que tipo de imagem emergia nas pesquisas a respeito de FHC?
SANTANA -
Os eleitores achavam que o governo FHC resultou num salário mínimo muito baixo. Que ele tinha privatizado o patrimônio público, 'entregando as riquezas nacionais'. Note que essa imagem quem construiu para si próprio foi o ex-presidente Fernando Henrique. Ele poderia, enquanto estava no governo, ter se esforçado para explicar melhor todos os benefícios que seu governo deixava. Mas não o fez. Agora, a campanha de Lula no segundo turno usou essa percepção deixada pelo governo anterior.

FOLHA - De volta à tática sobre privatização. Ao usar da maneira como usou o imaginário popular o presidente Lula não teria ajudado a alimentar um preconceito sobre o tamanho do Estado?
SANTANA -
Não pense que numa eleição vigora uma situação em que 'os fins justificam os meios'. Não é isso. O debate sobre privatização nunca existiu de fato em tempos passados. Precisa ocorrer de alguma forma. Precisa até voltar a ser incentivado. E quero usar um clichê: dos males, o menor.

FOLHA - Do seu lado, no seu entender, não houve um exagero na forma como foi abordada pejorativamente a privatização?
SANTANA -
Eleição é disputa de poder. É um combate quase sanguinário. Todos estão querendo espaço. Para ter espaço é preciso dar um empurrão, um solavanco numa pessoa. Ou até uma atitude mais agressiva, metafórica ou fisicamente. Usar um tema como privatização é muito mais honesto do que tentar assacar contra a honra do outro candidato, como o presidente Lula foi atacado injustamente. Por exemplo, o dossiê. Você não acha que houve algo esquisito no encaminhamento do dossiê?

FOLHA - Não quero me apropriar do que disse Geraldo Alckmin, mas acredito que esse questionamento deveria ser feito aos petistas, certo?
SANTANA -
Mas por que não perguntar aos Vedoins?

FOLHA - Quem deve perguntar é a Polícia Federal, porque a família Vedoin está formalmente acusada de crimes. Já no caso dos petistas, o presidente da República pode perguntar a eles a qualquer momento sobre o que aconteceu. Ou não?
SANTANA -
O presidente, eu posso assegurar a você, não teve até hoje a versão completa dessa história. Mas a minha formação jornalística me faz crer que houve algum tipo de armação ou armadilha nessa história toda.

FOLHA - Mas falar de maneira enviesada da privatização também foi uma armadilha, certo?
SANTANA -
Mas qual das duas armadilhas é moralmente mais defensável?

FOLHA - Não sei se houve armadilha no caso do dossiê. O fato é que um grupo de petistas com R$ 1,7 milhão estava disposto a comprar o dossiê. E no caso do debate sobre privatização houve também um subproduto propagado pelo presidente da República: privatizar é ruim. E todos sabem que não é esse o conceito que de fato vigora dentro do governo Lula.
SANTANA -
Não. Eu acho que a mensagem passada foi a de que privatizar como eles, os tucanos, fizeram é que é ruim. O debate aqui é quais são os limites éticos dentro de uma campanha política. Não acredito ter rompido nenhum limite com a discussão sobre privatização. E ainda enriquecemos o debate político.

A percepção de que esta foi uma campanha eleitoral vazia, sem debate e inócua é um equívoco. Daqui a 10 ou 20 anos ao se comparar esta campanha com outras anteriores vão concluir que foi uma das mais politizadas que o país já teve. Não houve rendição ao marketing. O eixo central foi crescimento com distribuição de renda, diminuição das desigualdades entre as regiões e as pessoas, inserção soberana do Brasil no mundo e outros. Há discussão essencialmente com mais oportunidade política do que essa? Dizer que é uma pobreza porque foi reduzido a slogan é novamente o baixo entendimento que existe entre o que propaganda e marketing político.

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