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28/02/2007 - 11h00 Sai nova edição de livro sobre o empresário e publisher da Folha
Da Redação Escrito pelo jornalista Engel Paschoal, o livro traça uma biografia de Frias de Oliveira, desde os seus primeiros anos até os dias de hoje, mostrando a construção de um grupo de empresas de comunicação que inclui três jornais (Folha, Agora e Valor, este em sociedade com a Globo), o UOL, um instituto de perquisas (Datafolha), uma editora de livros (Publifolha) e a sociedade numa grande gráfica (Plural). O livro traz, também, depoimentos de personalidades, entre jornalistas, políticos e empresários. Figuram nesta lista, entre outros, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, os empresários Lázaro Brandão e Antônio Ermírio de Moraes, o ex-ministro Antônio Delfim Netto e os jornalistas Janio de Freitas, Clóvis Rossi e Elio Gaspari. Leia abaixo resenha do jornalista Aldo Pereira para a nova edição da obra. Livro documenta a conversão do empresário Octavio Frias ao espírito do jornalismo Aldo Pereira especial para o UOL Um dos críticos, Paulo Nogueira, escreveu na revista Época que "A Trajetória de Octavio Frias" de Oliveira é "peça de propaganda", escrita em "tom hagiográfico". De fato, em rigoroso sentido técnico, acadêmico-literário, "Trajetória" não é biografia. Não é daquelas obras que expõem a vida e a personalidade de alguém com a veracidade atestada, ou discutida, a partir de documentação histórica de variadas e acreditadas proveniências; não tem relatos e opiniões de adversários, concorrentes e detratores, como pessoas importantes geralmente têm (Charles de Gaulle certa vez indicou que todo homem de caráter faz inimigos).
A iniciativa teve origem no 9º Congresso Nacional de Jornalismo Empresarial, Assessoria de Imprensa e Relações Públicas, patrocinado em 2006 pela Telefonica e organizado pela Mega Brasil Comunicação. Os participantes atribuíram a Frias o Prêmio Personalidade da Comunicação de 2006, homenagem igual antes prestada a empresários da mídia e jornalistas, entre os quais Mino Carta, Roberto Civita, Alberto Dines, Ruy Mesquita e José Hamilton Ribeiro. No caso de Frias, a Mega Brasil também propôs, e Frias aceitou, que uma coletânea de dados biográficos seus, em forma de livro, complementasse a homenagem. Que uma obra dessas produza efeito de propaganda, não se discute. Mas, afora o mencionado proveito documental, é preciso levar em conta que a iniciativa não partiu de Frias. Aliás, quem tiver convivido com ele sabe que a sugestão de pavonice casa mal com uma de suas duas ou três timidezes, a de chamar atenção para sua pessoa. A própria foto da capa do livro, decerto a melhor que JR Duran pôde bater e Armen Loussinian pôde escolher, não é de alguém satisfeito ou familiarizado com poses. Frias sempre relutou em dar entrevista. E, que eu saiba, nos mais de quarenta anos em que controla o jornal, assinou uma única matéria (o editorial intitulado "Banditismo", que saiu na primeira página da Folha de 21 de setembro de 1971; era protesto e desafio em resposta a atentados e ameaças de morte da Aliança Libertadora Nacional e da Vanguarda Popular Revolucionária). Ter aceitado o projeto e colaborado para sua materialização terá sido, creio, uma concessão de Frias a sugestões e pedidos que amigos e familiares lhe têm feito há mais de dez anos. Também plausível é que os argumentos decisivos para o convencimento dele tenham ressaltado seu tácito compromisso com o registro histórico devido ao público e à família.
O esquema de "Trajetória" reparte seu conteúdo em duas metades. A primeira delas é um relato cronológico de caráter biográfico (ou, em maior medida, autobiográfico, já que baseado em relatos e material do próprio Frias). Elementos de drama e comédia afloram na composição narrativa de uma progressão ao longo de ilusões e desilusões, uma destas a que viveu aos 20 anos com a chamada Revolução Constitucionalista de 1932. Suposta causa em favor do restabelecimento da ordem constitucional, a insurreição de fato buscava restaurar o poder econômico perdido por São Paulo com a crise financeira de 1929 e com a deposição do presidente paulista Washington Luís em 1930. No livro, Frias mostra que já naquela idade tinha visão intuitiva de realidades camufladas por cortinas de propaganda: "Aquilo era sacanagem dos paulistas da UDN (União Democrática Nacional). Sempre achei isso. Por que nenhum filho de gente importante estava lá? Só estavam o povinho ou os ingênuos como eu." Então, por que se alistou? Frias, mulherengo confesso de aventuras juvenis, explica: "Você saía na rua e pegava um bonde - era bonde aberto, com estribo -, e as moças se levantavam, vinham para o estribo e, com ironia, ofereciam o lugar delas para a gente, como que dizendo: 'Você é mais fraco do que eu. Então vá sentar-se que eu fico aqui de pé.'" Alistou-se para não passar por covarde, mas voltou ileso, sem glórias nem bravatas: "Graças a Deus, eu nunca acertei um tiro em alguém. Ao menos, que eu visse." A narrativa da vida anterior à compra da Folha abrange a de traumas suficientes para arrasar qualquer pessoa menos determinada. Em 1955, viu morrerem sua primeira mulher, Zuleika, e um irmão, José: o carro que Frias dirigia com eles na Via Dutra entrou na traseira de um caminhão carregado de tubos projetados para fora da carroçaria. Para expiar a culpa, deu à família de Zuleika todo o dinheiro que então possuía. Ficou a zero. Percalços financeiros ainda piores sobreviriam para sincopar seu intermitente flerte com a fortuna, até o triunfo decisivo da construção da Estação Rodoviária, em sociedade com Carlos Caldeira Filho. A partir daí, uma sucessão de astutos negócios completaria o enriquecimento da dupla; entre esses, a compra da Folha ao advogado José Nabantino Ramos e seus dois sócios, Alcides Ribeiro Meirelles e Clóvis Medeiros de Queiroga. Queiroga, cunhado de Frias, apresentou as partes e facilitou a transação. A segunda parte abrange etapas de "conversão" de Frias, de negociante a jornalista (improvisado segundo modelo de criação própria). O processo de "iluminação", contudo, passa antes por intermediárias personificações no mundo dos negócios. Imagino que as reminiscências colhidas por Paschoal tenham sido necessariamente filtradas e contextualizadas num discurso congruente. E que, nessa operação, alguns pontos relevantes da história tenham sobrado, ou nem sequer lembrados.
Thomson visitou o Brasil em 1963, logo depois de Frias e Caldeira haverem comprado o jornal. Todos os publishers da grande mídia brasileira deram merecida atenção à impressionante história de sucesso que o precedia. Inclusive, naturalmente, Frias, que exercitou na ocasião seu inglês (aprendido fora da escola, como tudo mais). Note alguns dos paralelos nas histórias de ambos. Thomson contou a Frias como, filho de barbeiro, deixara de estudar aos 14 anos. Durante dez anos economizou cerca de 20 mil dólares - e perdeu tudo numa aventura imobiliária. Voltou a ganhar dinheiro vendendo receptores de rádio no interior. Antes dos 40 anos, Thomson nunca dera atenção à imprensa como negócio. Então, em 1934, comprou um semanário do interior com 3 mil dólares emprestados. Em 1953, ele já controlava 18 diários no Canadá e expandira seus negócios aos Estados Unidos e ao Reino Unido. Thomson nunca foi jornalista, nem cultivou nenhum interesse especial por esse ofício. Outro ponto que surpreendeu e interessou particularmente a Frias: cada um dos editores da cadeia de Thomson tinha liberdade plena na determinação da linha editorial, contanto que esta não comprometesse a circulação, a receita dos anúncios, o controle de custos e a produtividade do equipamento. Para ele, jornal era indústria, com necessidades de produção e distribuição essencialmente industriais. Chegou a comprar jornais sem haver lido neles uma única linha, só o balanço. Idealistas do jornalismo, para quem o ofício era sacerdócio de uma religião cívica, desdenhavam e repeliam o que lhes parecia uma filosofia cínica e materialista. Mas, aos poucos, foram percebendo que a sanidade econômica de um jornal é condição para cumprimento mais eficaz de sua função informativa independente. Sem falar, de resto, na vantagem, por todos reconhecida, de receber o salário em dia. Com esse evangelho, Thomson acabou por ganhar respeitabilidade. Esse publisher deve ter oferecido a Frias, se não modelo, decerto providencial inspiração. Ou, talvez, apenas confirmação de uma direção que começava a delinear-se. De fato, futuramente, Frias aproveitaria a capacidade gráfica ociosa da Folha para editar ao mesmo tempo também dois outros jornais de linhas muito diferentes: a Folha da Tarde, engajada com a ala repressiva do regime militar, e o pasquim sensacionalista Notícias Populares. Thomson teria aprovado. Já então, contudo, Frias começava a passar pelo que se pode chamar de sua conversão. Como no livro inteiro, Paschoal se põe discretamente à margem de descrições e interpretações subjetivas. Prefere que o perfil de Frias se delineie contra um cenário anedótico, pelo qual o leitor aprende que, mesmo enquanto assimilava o espírito do jornalismo, Frias nunca teve pretensão de redator. Como leitor, porém, poucos lhe superariam a perspicácia semântica. Quando fazia edição de texto dum editorial, muitas vezes se exasperava com a momentânea incapacidade própria de expressar a mudança pretendida. Tentava, gaguejava, hesitava, e podia romper o bloqueio com exasperado pedido de socorro ao editorialista que o estivesse assistindo: "Redige, porra!" O livro não inclui esta específica referência, mas recorre a material equivalente. Por exemplo, ao citar Mário Sérgio Conti, que relembra no livro Notícias do Planalto uma instrução dada por Frias a Marcelo Coelho, que então coordenava os editoriais: "Vai lá, Marcelo, e chama ele de filho-da-puta numa linguagem bonita." É uma história que se entrelaça saborosamente com a evolução da Folha, a qual deixava aos poucos de ser instrumento conservador do establishment e ascendia ao calidoscópio de fatos e opiniões que hoje espelha o mosaico do cotidiano sócio-político do Brasil. Ao longo do livro, o leitor também vai tomando conhecimento de outras influências que promoveram a metamorfose concomitante de Frias; afora integrar a função jornalística do jornal com imperativos gerenciais de caráter industrial, ele também o conduzia no gradual afastamento da visão exclusiva de empresário. A princípio, afora o ângulo empresarial, talvez essa visão não fosse muito além do mito heróico do repórter como alter ego do Super-homem. Mas passaria a discernir ângulos mais sutis no cotidiano de sua atividade. Percebeu com crescente nitidez que, como sua recente experiência bancária ensinara, o mais importante item no patrimônio de um jornal, como no de um banco, é a confiança do público. É pela brechas naturais dessa armadura de credibilidade que certos interesses econômicos e políticos buscam infiltrar manipulações e entorpecimento da informação: pelo solapamento da confiança do público na mídia.
Saiu-se bem, é verdade; a Folha está aí. Mas, implicitamente, revela a Paschoal sua preferência por atividades mais concretas ao confessar que teria preferido apenas criar frangos em sua Granja Itambi (eliminada do mercado por concorrentes que dominam a produção do vital insumo agrícola do negócio, a ração): "É muito bom para o empresário produzir coisas palpáveis, como leite, carne, frango. Jornal não é uma coisa palpável." Outra indicação de ele haver aprendido a difícil condução dos negócios "impalpáveis" do jornalismo foi sua explícita denúncia, aos 91 anos, das maquinações pelas quais o governo pretendeu estender à imprensa a sombria estratégia de acobertamento e dissimulação de crimes cometidos por agentes seus. Tampouco a mútua influência educativa de Frias e seu filho Otavio é expressamente exposta no livro, mas transparece implícita nas referências de um ao outro. Pode haver escapado a ambos - tanta coisa a contar! - que a participação de Otavio em passeatas contrárias ao governo, em seu tempo de estudante de direito, deve ter sido ponderada entre pai e filho. Admiração, amor intenso e orgulho de um pelo outro devem ter facilitado receptividade às idéias e aos sentimentos de cada um. A maneira como Otavio narra no livro sua progressiva assunção de responsabilidades e autoridade sugere que a posição tomada pela Folha na campanha "Diretas Já!" manifestava o efeito de sua influência no pensamento político do pai. Por efeito dessa interação, a Folha evoluiu para uma linha pluralista que, segundo diz Alex Periscinoto em seu depoimento, mostra "como se exercita a essência da democracia: o convívio entre os contrários". A sucessão de histórias e casos do livro revela como, a despeito da progressiva deflexão no papel que se propusera ao comprar a Folha em sociedade com Caldeira, Frias em momento algum renunciou à filosofia pessoal do no nonsense. Teimou e ousou, mas sempre na medida do que podia. Quando o filho Luís o convenceu de que o futuro da imprensa poderia estar nos desafios e promessas da Internet, Frias o apoiou resolutamente, mesmo sabendo que partiam para perigosa pescaria em águas turvas. De fato, no comando do Universo Online, o UOL, Luís quase naufragou, como tantos visionários encantados pelas sereias daqueles mares nunca dantes navegados. Enfrentou concorrentes de bolsos profundos e recheados, multinacionais como o Terra, da Telefônica, e o America Online, AOL, este com a retaguarda financeira e a imensidão de conteúdo da Time Warner, o maior conglomerado de mídia do mundo. Luís conta que às vezes vacilava, mas que o pai o encorajava e aconselhava, até que, superada a sangria quase mortal de 2001, o AOL piscou primeiro no jogo do sério, foi embora, e o UOL, fortalecido por aportes de sócios, quitou as dívidas e ganhou fôlego para outros embates. "Trajetória" é uma história como poucas da vida real, e de excepcional valor pelo conteúdo documental. Como comentário final, penso que, além do minucioso índice onomástico que o livro traz no fim, um índice remissivo de eventos, processos e outras referências poderia enriquecer sua utilidade para estudantes, pesquisadores e outros consulentes. Aldo Pereira, 74, é jornalista. Foi subsecretário de redação do jornal O Estado de S. Paulo, secretário de redação de fascículos na Editora Abril e editorialista da Folha. Livro: A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira Autor: Engel Paschoal Editora: Publifolha (2ª edição) Quanto: R$ 44 (328 págs.)
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