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28/12/2007 - 09h00
PF esnoba códigos comuns e escolhe nomes curiosos para operações

Ana Luisa Bartholomeu
Em São Paulo

A inspiração pode vir da mitologia: Zeus, Têmis, Vênus, Netuno ou Morpheu. Da Bíblia: Sodoma, Iscariotes ou Zaqueu. Da geografia: Veneza, Roterdã ou Alasca. Do zoológico mais próximo: Rapina, Hiena, Lacraia, Zebra ou Camaleão. Ou até mesmo de um dicionário de inglês: Hurricane, Game Over, Wood Stock, Pen Drive ou Firewall. Para formar a maioria dos nomes das operações da Polícia Federal, o uso de metáforas é liberado.

A prática de batizar as ações teve início com os militares (a Operação Condor, de perseguição e morte de políticos de esquerda nos anos 70, é a de mais triste lembrança). E desde que o DPF (Departamento de Polícia Federal) foi criado, em 1944, o batismo existe na corporação para padronizar uma investigação e facilitar a organização das centenas de réus, investigados, empresas ou órgãos públicos envolvidos nos casos, e que devem prestar contas à Justiça.

No início, os nomes eram usados apenas no âmbito interno do órgão. Com a proliferação de ações pelo país, o órgão - que não confessa - passou a divulgar amplamente os tais apelidos, que acabaram virando tradição e uma discreta, mas existente, jogada publicitária.

Rafael Andrade/Folha Imagem
Segundo balanço da PF, foram deflagradas 188 operações 'de peso' em 2007 no país
NOMES SÃO JOGADA DE MARKETING?
INVENTE TAMBÉM UM NOME CRIATIVO
Perder a conta de quantas operações da PF foram deflagradas neste ano não é difícil. Afinal, segundo balanço da PF, foram 188 ações especiais em 2007 (que culminaram em 2.876 prisões), fora as de menor expressão realizadas nos Estados, que não entraram na contabilidade.

As ações contra o tráfico de drogas lideraram o ranking: foram 35. Na seqüência, apareceram contrabando (29), crimes financeiros (17), crime ambiental (15) e crime previdenciário (14).

A instituição nega a existência de regras para o batismo e diz que ele acontece naturalmente, durante as investigações. O nome pode surgir de uma simples conversa entre os membros da equipe que acompanha determinado caso ou até mesmo de um termo usado pelo investigado durante uma escuta telefônica.

O apelido sempre sugere alguma coisa sobre a operação, mas há o cuidado de não revelá-la por completo. "É só mesclar um pouco de criatividade com um pouco de ironia que os nomes aparecem. Atualmente, a própria ousadia das quadrilhas e dos investigados já nos remete a bons nomes", diz o superintendente da Polícia Federal do Maranhão, Gustavo Gominho.

Gominho assume ser o responsável pelo batismo das operações Alvará, Sentença, Marola e Rapina no Estado. "Marola, por exemplo, é um termo muito usado no Norte, principalmente no Amazonas, para classificar uma conversa mentirosa. Neste caso, os investigados 'vendiam' sentenças falsas de juízes federais do Amazonas. Foi só juntar as coisas", disse, revelando como brinca com as palavras e seus significados.

JOGO DE PALAVRAS DA PF
OperaçãoObjetivo
Duna Brancadesmantelar organização responsável por um dos maiores esquemas de tráfico de cocaína no Nordeste
Pulverizadorinvestigar o envolvimento de suspeitos com o contrabando de defensivos agrícolas, falsificação de produtos e posse de armas de fogo ilegais
Zebradesarticular uma quadrilha formada por empresários, advogados, policiais civis e militares, que atuavam na exploração de jogo do bicho eletrônico
Senhor dos Anéisprender falsificadores de anilhas para pássaros canoros da fauna brasileira
274desarticular quadrilha acusada de prática de cartel em postos de gasolina em João Pessoa (PB); gasolina era vendida a R$ 2,74 o litro
Piratas da Lavouradesmantelar quadrilhas compostas de contrabandistas de agrotóxicos
Bola de Fogodesmontar uma organização criminosa responsável pelo comércio clandestino de cigarros no Brasil
Boneca de Panoprender suspeitos de contrabandear artigos de armarinho, também conhecidos como "mercadorias de R$ 1,99"
Sanguessugainvestigar compra superfaturada de ambulâncias com dinheiro público
Em outra ação, que ganhou o nome de Galáticos, hackers foram presos por desviarem dinheiro de contas bancárias pela Internet. "Os próprios membros da quadrilha deram o nome à operação, ao se considerarem tão 'bons' no crime quanto os jogadores do time do Real Madrid eram com a bola. Além disso, ostentavam carros e artigos de luxo dignos de jogadores renomados de futebol", explicou Gominho.

Sobre a dinâmica dos batismos, José Antônio Dornelles de Oliveira, delegado regional de combate ao crime organizado do Rio Grande do Sul, afirmou que é um verdadeiro trabalho de equipe, tipo mutirão. "Fazemos um 'toró de parpite', um nome mais popular para o 'brainstorm'. De várias opiniões, sempre acaba saindo uma que cai bem", afirmou o delegado.

Dornelles explicou que os nomes das operações funcionam como um código dentro da corporação. "É uma forma de compartimentar o órgão internamente. Só sabem detalhes de determinada operação os agentes que estão envolvidos nela. É mais uma forma de preservar o sigilo."

Segundo o delegado, há a preocupação de não denegrir a imagem de nada nem de ninguém na hora de nomear as operações. "Certa vez colocamos o nome de Cabo Verde em uma operação sobre envio de remessas de dólar para paraísos fiscais. Quando a operação estava para estourar, decidimos mudar o nome para Ouro Verde, para evitar qualquer problema com o país ou com pessoas nascidas lá", disse.

Mas nem todo o cuidado que cerca a escolha do nome pareceu surtir efeito em outubro deste ano, quando a multinacional que fabrica a lâmina de barbear Personna se viu obrigada a emitir uma nota explicando a seus clientes que seu produto nada tinha a ver com a operação homônima da Polícia Federal. O documento explicava que o nome referia-se à máscara do teatro grego, uma vez que as investigações derrubaram nomes importantes que compõe o mundo corporativo.

Em 2004, uma gafe passou despercebida aos olhares menos atentos. A operação que prendeu o empresário Law Kin Chong - considerado o maior contrabandista do país, em junho de 2004, em São Paulo, levou o nome de 'Shogun', um termo japonês. No entanto, o alvo da investigação era um chinês, naturalizado brasileiro. A PF paulista não explicou o porquê do nome, deixando no ar a máxima de que todo apelido tem um significado, mesmo que incompreensível aos olhos e ouvidos dos leigos.

Para a publicitária Marilu Rodrigues, da agência Young, o batismo das operações pela PF não lembra nem um pouco o complexo processo de criação de um nome para uma marca, por mais criativos que alguns nomes possam parecer.

"O nome é um elemento-chave para a identidade e a posterior divulgação de um produto. Se mal trabalhado, pode inclusive arruinar uma marca", explicou, citando como exemplos de mau-gosto as operações denominadas Matusalém e Zumbi, que apuraram fraudes no INSS. Mas como no caso da PF mais importa o conteúdo do que a embalagem, ficam perdoadas as ironias e a falta de conexão de alguns nomes com o objeto da investigação, diz Marilu. "Não comprometendo o resultado da investigação e prendendo quem deve à Justiça, o nome é o que menos importa", finalizou.

Em 2007, uma pesquisa da Associação dos Magistrados do Brasil apontou a Polícia Federal como a instituição com maior credibilidade no país (75,5% dos entrevistados).


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