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17/03/2008 - 19h27
Empresária é presa acusada de manter menina de 12 anos em cárcere privado

Sebastião Montalvão
Especial para o UOL, em Goiânia

Atualizada às 20h02

A empresária de construção civil Sílvia Calabresi de Lima, 42 anos, foi presa no final da manhã desta segunda-feira (17), em Goiânia, acusada de cárcere privado e tortura. A vítima, L., uma menina de 12 anos de idade, foi encontrada pela equipe de policiais acorrentada pelas mãos e pés na área de serviço de um apartamento onde ambas moravam, no Setor Marista, bairro nobre da capital goiana.

A acusada nega o crime. Sílvia Calabresi disse que adotou a menina porque esta seria órfã e não tinha quem cuidasse dela. "Eu não amarrei, nem torturei ninguém. A culpa disso tudo é da minha babá. Eu ia demiti-la e ela sabia disso. Fez isso para se vingar de mim". A babá, Vanice Maria Novaes, 23, foi presa no final da tarde após prestar depoimento, por suspeita de coautoria do crime.

Mantovani Fernandes/o Popular/AE
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Além de Silvia, da vítima e da babá, moravam no apartamento o marido da acusada, um filho menor do casal e a mãe da acusada. "Encontramos a menina amarrada às grades da janela, amordaçada e apresentando sinais evidentes de tortura", informou a delegada da DPCA (Delegacia de Proteção à Criança e Adolescente) Adriana Accorsi. A polícia pretende ouvir os demais moradores do apartamento e também vizinhos do prédio.

No apartamento foram apreendidas cordas, correntes, cadeados, mordaça e dois alicates com marcas de sangue, objetos que a polícia acredita terem sido utilizados para prática de tortura. A menina apresentava lesões recentes e outras já cicatrizadas na língua. "Isso evidencia que esse tipo de tortura acontecia com freqüência e há muito tempo", disse a delegada.

L. também apresenta sinais de queimadura que a polícia suspeita terem sido ocasionadas por ferro de passar roupa. Ferimentos indicam que ela teria tido as unhas das mãos e dos pés arrancadas.

Para evitar marcas evidentes de cordas e correntes, a vítima era obrigada a usar luvas nas mãos e sacos plásticos nos pés. Apesar disso, quando os policiais a encontraram no apartamento, os pés e as mãos da vítima estavam muito inchados.

Como todo o condomínio é habitado, existia a preocupação com eventual barulho nos momentos de tortura. Para evitar isso, a acusada teria feito, em massa odontológica, um molde do interior da boca da vítima. O molde era colocado e, posteriormente a boca era tapada com uma espécie de esparadrapo.

Foi assim, amordaçada, que L. foi encontrada e resgatada pela polícia. Ela estava de pé, amarrada à janela do apartamento. As duas mãos, com luvas, estavam para cima. Os pés estavam acorrentados na altura dos tornozelos.

"É de uma barbárie sem tamanho. Eu nunca vi nada igual. E não tinha idéia de que isso pudesse acontecer em qualquer lugar. Ainda mais aqui, no nosso prédio", afirmou uma vizinha que preferiu não se identificar.

Mãe biológica aparece
Na verdade, L. não é órfã. Ela foi entregue a Silvia pela mãe, J.D.S., há dois anos. A mãe biológica, que mora na cidade de Pires do Rio, no interior do Estado, nega que tivesse qualquer conhecimento da situação. Ela disse que já trabalhou na casa da acusada e que só permitiu que a filha fosse morar com a empresária porque recebeu a promessa de que em Goiânia ela teria melhor possibilidade de dar continuidade aos estudos.

"No tempo que eu morei na casa dela, nunca vi nada de anormal. E, para mim, essa notícia de que minha filha estava sendo torturada caiu como uma bomba. Não consigo acreditar", afirmou a mãe, que tomou um ônibus em Pires do Rio e chegaria à Goiânia ainda no início da noite de hoje. "Quero levar a minha filha de volta", afirmou.

J.D.S. é separada do pai de L., que tem destino ignorado. Ela sabe apenas que ele mora no município de Trindade, região metropolitana da capital.

O padrasto de L., Marcos Vinicius de Oliveira, afirma que até hoje não havia suspeitado que Silvia maltratasse a menina. Entretanto, lembra que há cerca de um ano, a menina apareceu com um edema grave no olho e chegou a ter traumatismo craniano. "Na época, ficamos preocupados. Mas a menina nos disse que havia sofrido um acidente, que havia caído da escada. Nunca imaginamos que poderia ser alguma coisa assim", disse Marcos, que trabalha em uma granja em Pires do Rio.

Por não se tratar de uma adoção oficial, o Juizado de Infância e Juventude de Goiânia não tinha conhecimento na situação. A reportagem tentou entrar em contato com o juiz Maurício Porfírio, responsável pelo juizado, mas não conseguiu retorno até o final da tarde.


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