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19/03/2008 - 00h06
Cinco anos após a invasão no Iraque, soldados americanos procuram um sentido para sua missão
Robert W. Gee Cox Newspapers
Em Bagdá, Iraque
Esta semana marca o quinto aniversário do início da guerra no Iraque, o que a torna um dos mais longos conflitos militares no exterior da história americana.
O capítulo inicial da guerra de choque e temor há muito perdeu espaço para novas narrativas dos erros do governo Bush, uma insurreição sangrenta e um crescente número de iraquianos e americanos mortos. Um marco mais macabro deverá ser atingido neste mês ou no próximo: 4 mil baixas militares americanas.
É por este prisma que as lembranças da invasão, antes saudada como uma missão cumprida, são passadas a limpo. Mas aqueles que travaram a primeira guerra há cinco anos lembram da derrota de Saddam Hussein com orgulho.
Cinco soldados da Companhia Charlie, 1º Batalhão, 64º de Blindados da 3ª Divisão de Infantaria, cujos tanques lideraram a marcha americana a Bagdá, consideram suas experiências e a guerra cinco anos depois.
'Era como se a guerra tivesse acabado'
Cinco anos depois, Brett Waterhouse está de volta ao Iraque para lutar em uma guerra que ele e seus companheiros achavam ter vencido.
"Era como uma visita familiar, só que tínhamos tanques", lembrou Waterhouse de suas visitas a lares em Bagdá nos dias que se seguiram à tomada da capital iraquiana pelas forças americanas, em abril de 2003.
A Companhia Charlie operava os checkpoints, incluindo um na entrada de um rico bairro de Bagdá naquela que viria a se tornar a Zona Verde, o centro internacional fortificado da cidade.
Os moradores do bairro freqüentemente vinham receber os soldados com presentes como alimentos, chá e flores, ele lembrou.
"Nós aceitávamos tudo e comíamos bem", disse Waterhouse, atualmente com 40 anos e um 1º sargento, originalmente de Gainesville, Flórida. "O tempo todo que passamos lá foi como se fosse uma grande família. (...) Era como se a guerra tivesse acabado."
Os iraquianos recorriam aos soldados para proteção, oferecendo dicas, se apresentando voluntariamente para servirem como intérpretes e até mesmo ajudando a espalhar o arame farpado pelo bairro. "Nós aprendemos às pressas como sermos uma força de paz e embaixadores", disse Waterhouse.
Considerando a recepção calorosa, ele disse: "Eu não achei que voltaríamos para Bagdá".
Os administradores americanos que entraram em Bagdá conseguiram uma reversão dos ganhos iniciais, e os soldados que substituíram sua unidade, ele disse, "estragaram a ligação que desenvolvemos" ao tratarem todos os iraquianos como inimigos. Mas agora, ele disse, a guerra "parece estar seguindo na direção certa".
Ainda assim, ele e seus companheiros estão praticamente fazendo o mesmo hoje que fizeram há cinco anos, freqüentemente com menos sucesso: tentando fornecer segurança ao país e trabalhando para conquistar a confiança dos iraquianos.
'Todo mundo volta diferente' Há cinco anos, Jose Mercado era 1º sargento da Companhia Charlie, seu soldado alistado mais graduado. Ele foi sargento de pelotão durante a Guerra do Golfo de 1991. Ele atualmente está servindo de novo em Bagdá, desta vez como sargento ajudante.
Dentre seus quase 27 anos no Exército, ele disse sobre a invasão ao Iraque em 2003: "Aquela foi a maior".
"Aquilo foi o Super Bowl (a final do futebol americano). Todo soldado quer entrar em combate. A maioria quer entrar em combate por causa dos filmes que assistiu. A forma como Hollywood a retrata."
Mas ele disse que os efeitos psicológicos a longo prazo de combate intenso freqüentemente são ignorados.
"Você não pensa nas mortes, nas pessoas inocentes que matará e nos efeitos posteriores que terá quando voltar para casa. Você não é mais a mesma pessoa", disse Mercado. "Todo mundo volta diferente. Ela muda você completamente."
Durante a guerra, os combatentes reprimem as emoções para sobreviver, ele disse.
"Mesmo após todo este tempo, eu diria que consegui 50% das minhas emoções de volta", disse Mercado no mês passado, em seu escritório no quartel-general da 3ª Divisão de Infantaria, no Campo Vitória, em Bagdá.
Mercado, 45 anos, que cresceu em Nova York e Porto Rico, disse que planeja se aposentar do Exército no próximo ano e espera poder lecionar matemática. Seu filho, Jonathan, está na Guarda Nacional Aérea, e sua filha, Melissa, serve na Guarda Costeira.
Ele defendeu a decisão de invadir o Iraque -"Valia a pena. Nós fizemos a coisa certa", ele disse- mas ele se tornou filosófico sobre a natureza da guerra.
"Por que as pessoas querem matar umas às outras? Por que um homem deseja matar outro homem?", ele disse.
Ele ganhou um senso de mortalidade, ele disse, e um apreço pelos desafios da vida cotidiana nos Estados Unidos. Tudo, ele disse, é "um problema pequeno em comparação a ser baleado".
'Eu quero que termine' Roger Gruneisen se formou em West Point em 2001, serviu como tenente e líder de pelotão durante a invasão de 2003 e voltou em 2005 para uma segundo turno no Iraque. Em junho de 2006, ele deixou o Exército como capitão, após concluir o serviço exigido.
Os dois outros líderes de pelotão da Companhia Charlie também se aposentaram do Exército, ressaltando a atual dificuldade das forças armadas em manter oficiais com experiência em combate.
Gruneisen disse que sua segunda filha nasceu durante seu segundo turno e que decidiu partir para poder dedicar mais tempo para criá-la.
"Há muito sentimento conflitante. Eu teria dificuldade em deixar minha filha agora", disse Gruneisen, que vive em Lexington, Kentucky, e trabalha como gerente de qualidade para a General Electric.
"Ver a 3ª (Divisão de Infantaria) voltar para lá me deixa com um leve sentimento de culpa. Mas servi dois turnos de dois anos."
Apesar de ter deixado o Exército, ele disse que acompanha atentamente as notícias da guerra, ouvindo sobre as baixas americanas e se perguntando se reconhecerá os nomes.
"Eu apenas espero que a gente consiga deixar aquele país com alguma estabilidade, cientes de que alguns desses rapazes morreram e que realmente significou algo. Não que algum dia terá valido totalmente a pena", ele disse. "Em grande parte eu quero que termine para que possa prosseguir com minha vida e parar de acompanhá-la."
'Os rapazes sabiam como matar' Jabari Williams, na época um sargento assistente, liderou os soldados na oração antes de cruzarem a fronteira entre o Kuwait e o Iraque em meio à neblina antes do amanhecer de 21 de março de 2003.
Também foi uma exortação: "Foi para isto que treinamos. Nós estamos prontos. Agora é para valer", ele disse aos seus companheiros.
"A partir daquele momento estava valendo", ele lembrou recentemente em Bagdá, para onde voltou para seu terceiro turno.
"Eu estava orgulhoso. Eu sabia que daquele momento em diante, nós faríamos história."
Dentro das fileiras do Exército, e especialmente no Iraque, os soldados tendem a ver sua missão com metas táticas em mente, isolada dos aspectos políticos e morais mais amplos de uma guerra justa. Williams parecia indiferente a como a história poderia julgá-lo hoje.
"Eu não me interesso muito por política, mas minha medida de sucesso é levar todos meus rapazes para o Iraque e trazê-los todos de volta para casa", disse Williams.
Para os soldados em combate, a sobrevivência se torna o motivo para travar a guerra.
"Como chefe de artilharia, eu tinha confiança de que os rapazes sabiam como matar. Eu me orgulhava e me empolgava em ver como transcorreria", disse Williams, 31 anos, de McDonough, Geórgia, que foi promovido a 1º sargento e ainda serve no mesmo batalhão.
A unidade de 79 soldados não perdeu nenhum homem. Dois sofreram ferimentos graves. Oito soldados foram condecorados. Eles sobrepujaram seu adversário, matando um número incontável de iraquianos em uma série de batalhas, incluindo as duas incursões em Bagdá, o ataque decisivo contra a capital do Iraque.
'Eu apenas quero que os soldados voltem para casa' Jeremy England, 29 anos, que era um tenente líder de pelotão em 2003 e que deixou o Exército para trabalhar no setor de construção em Mobile, Alabama, passou a questionar a guerra.
"O argumento para a guerra era falho desde o início", ele disse. "Nós provavelmente estaríamos bem mesmo sem ter ido para lá. Mas agora que estamos lá, nós temos um compromisso."
Ainda assim, ele disse, "eu só me interesso pelos soldados. Eu apenas quero que os soldados voltem para casa. Trazê-los de volta para casa".
Ele disse que sua nova carreira como dono de um pequeno negócio é muito mais complicada do que servir como soldado, mas que considera sua experiência de cinco anos atrás no Iraque como o momento definidor de sua vida.
"Eu estava muito orgulhoso do que vivenciei lá. Nós fomos, lutamos na guerra, o fizemos bem e sobrevivemos", ele disse. "Eu penso nisso todo dia." UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)

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