George El Khouri Andolfato e Eloise De Vylder
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19/03/2008 - 00h09

Reconstruindo Bryan Anderson

Brian Mockenhaupt*
Da Esquire
Ele voltou para casa após seu turno dois meses no Iraque antes do prazo de um ano, 16 quilos mais leve e cerca de 60 centímetros menor, com as pernas amputadas

As pernas de Bryan Anderson continuam caindo. Magro mas forte, ele iniciou seu segundo turno no Iraque pesando 61 quilos, num corpo de 1,70 metro. Ele voltou para casa após seu turno dois meses antes do prazo de um ano, 16 kg mais leve e cerca de 60 centímetros menor, sem ambas as pernas na altura de metade da coxa, sem seu braço esquerdo abaixo do cotovelo e sem seu dedo indicador direito. Ele aprendeu a caminhar de novo, a viver sua vida. É um dos cerca de 750 amputados das guerras no Iraque e Afeganistão.

Eles são homens jovens com pressa. Eles andam de bicicleta, correm maratonas e carregam seus filhos, satisfazendo nosso desejo de resultados rápidos e soluções elegantes. Suas exigências de membros artificiais, com desempenho próximo da carne e osso que perderam, estão canalizando dólares para tecnologias de ponta para membros robóticos que se movem com o pensamento.

Mas a normalidade permanece esquiva, o que traz Bryan Anderson, 26 anos, a Oklahoma City em um dia frio de outono para uma consulta com sua equipe do Hanger Orthopedic Group. As pernas continuam caindo, ele disse. E continuam deixando machucados.

Anderson usava suas próteses de pernas continuamente, sem tocar na cadeira de rodas por meses. Mas na metade do ano passado um ponto vermelho do tamanho de uma espinha apareceu na ponta de sua perna esquerda. A área inchou e ficou mais sensível, tão dolorosa que ele não conseguia usar suas próteses. A liberdade que tinha conquistado foi perdida. Médicos do pronto-socorro drenaram o fluído da área infectada e o encheram de antibióticos.

A infecção cedeu, mas outras dores surgiram com o atrito de suas pernas contra os encaixes, fazendo a pele se soltar. E, fora a dor, as próteses continuamente escapavam do encaixe. O corpo muda diariamente -alimentos salgados o expandem, o suor o encolhe -, um problema que é pior para Anderson. Sua perna esquerda tem cerca de 20 centímetros de comprimento, enquanto sua perna direita tem metade disto, o que dificulta um bom ajuste.

"Você precisa comer", diz-lhe Randy Richardson. "Ganhe algum peso." Richardson ensina aos amputados como se virarem no mundo real, em supermercados e campos de golfe. Um membro maior significaria mais tecido mole para fixação do encaixe. E as pernas de Anderson também são muito magras.

Chad Simpson, o guru do Hanger para ajuste de próteses, aperta a perna direita de Anderson, pressionando com seus polegares a pele com marcas rosadas e roxas. Em sua última visita ao Hanger, Anderson começou a chamar Simpson de "Goose" (ganso), como a personagem de Anthony Edwards em "Top Gun". O mesmo corpo magricela, cabelo cor de areia e pequeno bigode. No momento, Goose está tentando encontrar o ponto de pressão que Anderson sentia no encaixe. Para complicar esta busca, a perna de Anderson pode enganá-lo. Quando os cirurgiões cortaram sua perna, eles puxaram pele da parte traseira para a frente. Como conseqüência, quando ele sente dor na parte traseira de sua coxa, o ponto de pressão pode estar na frente.

"Já está sentindo o mesmo?", pergunta Simpson.

"Não."

Simpson aperta de novo. Bryan Anderson uiva. "Sim", ele diz. "É aí."

Parte da culpa pela dor é dos pequenos esporões ósseos que pressionam a pele, um problema causado por ferimentos de explosão. As explosões fazem com que estilhaços e fragmentos penetrem nos membros, desintegrando o osso e deixando pequenas partículas ósseas no tecido ao redor. Os ossos ainda querem crescer, levando - por um processo chamado ossificação heterotópica - a formações que parecem como uma couve-flor. E apesar de Anderson ter tido essas formações removidas enquanto estava em Water Reed, algumas permaneceram.

Somando-se à dor, os nervos dos amputados freqüentemente procuram o membro perdido. Eles crescem e se enrolam em si mesmos, formando neuromas, pequenos nós de sensibilidade, fábricas de dor intensa. As bolas nervosas podem ser particularmente ruins caso se formem perto da pele ou sejam envolvidas em tecido de cicatrização. Pele cicatrizada, endurecida, que Anderson possui em abundância, poderia ser considerada uma barreira conveniente entre o encaixe e as pontas afiadas do osso cortado. Mas o tecido não cede e estica como a pele mais resistente, flexível, que cerca as cicatrizes, de forma que, quando Anderson flexiona e torce suas pernas, a pele pode romper e rasgar.

Anderson enfia uma meia de náilon preta em sua perna esquerda, depois a enfia no encaixe. Simpson puxa a meia para fora por um buraco no fundo do encaixe, que se agarra ao membro. Se Anderson apenas enfiasse seu coto no encaixe, a pele esticaria contra as laterais, empurrando o osso para baixo. O uso da meia assegura um encaixe verdadeiro, puxando o membro para baixo.

Simpson rosqueia um pequeno tampão plástico no buraco, selando-o e criando o vácuo que segurará a perna. Eles encaixam a perna direita e Anderson fica em pé, com uma mão natural e outra artificial segurando as barras paralelas da sala de fisioterapia. Um comercial de recrutamento do Exército passa na TV montada perto do teto, no fundo da sala. Um soldado, com rifle engatilhado, corre por um campo. Anderson caminha na direção dele.

"A aparência está boa, irmão", diz Simpson. "Você parece que está prestes a correr, está com bastante impulso."

Um barulho rápido e forte interrompe o progresso. O vácuo no encaixe foi perdido, liberando o membro. Obter sucção suficiente na perna direita é difícil porque ela é muito curta, com pouca área de superfície para aderência do encaixe. E suas pernas estão transpirando devido ao esforço, o que deixa o encaixe muito escorregadio para um encaixe firme. Botox poderia corrigir isto, paralisando os nervos que estimulam as glândulas sudoríparas. Por ora, Anderson espalha antitranspirante Arrid na sua perna e a recoloca no encaixe.

Ele dá alguns poucos passos. Simpson e Richardson observam, com expectativa.

"Protética é uma ciência e arte", diz Richardson. "Cada membro tem um formato único, e esta forma precisa ser considerada para que haja o encaixe e fique confortável. Se você apertar um local, isto cria um problema em outro ponto. Há sempre trocas entre contenção, conforto e controle. Não se trata apenas de andar. Ele precisa ser capaz de sentar, levantar-se, entrar em um carro, descer um degrau, ter controle e estabilidade para fazer estas coisas. O encaixe é o que determinará quanta mobilidade ele conseguirá."

Anderson retira sua perna, senta na cadeira de rodas e sai para fumar com Tim Bialek, um amigo de casa, um sujeito de ombro largo, cavanhaque e cabelo castanho encaracolado. Anderson o chama de "Sunshine", porque ele parece um sujeito que lhe daria um soco no queixo no bar por tocar música ruim na jukebox, mas que na verdade nunca o faria. Anderson costuma viajar com amigos, já que precisa da ajuda de alguém para lidar com os desconfortos, de circular por aeroportos a colocar suas pernas pela manhã.

É hora de fazer um novo encaixe para Bryan. Simpson leva os encaixes internos ao laboratório do Hanger, uma área de bancadas brancas lotadas com tornos, sopradores térmicos, esmeris e serras, em que técnicos produzem encaixes para pernas e braços.

Nada é fácil para amputados bilaterais como Anderson. Com apenas alguns poucos centímetros de perna, caminhar exige três a cinco vezes mais energia. Ele carece de duas dúzias de músculos da perna e de parte de outros nove da coxa, o que o deixa com pouca força ou controle. Mesmo quando estamos parados, os músculos de nossa perna são ativados e relaxam continuamente em uma sinfonia de pequenos movimentos que nos mantêm equilibrados e eretos.

Mas perder os músculos, nossos meios de locomoção, é apenas parte do problema. Nossos nervos nos dizem como nos movermos e nos transmitem informação constante de dezenas de milhares de sensores dentro de nossos músculos, juntas e pele. O entendimento do corpo, de seu lugar no espaço, conhecido como propriocepção, nos permite realizar uma tarefa sem nos concentrarmos no movimento. Nós podemos caminhar sem olhar para baixo e dirigir um carro sem observar os pedais de freio e aceleração. Nós sabemos para onde vão nossos pés. Nós podemos descer escadas de olhos fechados, pois nossos corpos podem sentir o ritmo, mas um erro de cálculo no último degrau pode nos fazer pisar no chão cedo demais ou pisar em espaço morto. Anderson tem esta sensação várias vezes ao dia, algo semelhante a percorrer uma pista de obstáculos em pernas de pau ou com ambas as pernas dormentes.

Com seu novo encaixe com maior conforto, Anderson descansa sua prótese de mão no corrimão e desce uma elevação com passos desajeitados. Ele cai de joelhos, uma queda em câmera lenta, mas apóia o braço no corrimão e se levanta. Ele desce e sobe uma elevação repetidas vezes.

"Uau. Muito impressionante. Muito", diz Richardson.

Quando as pernas permanecem firmes, Anderson move-se no ar rarefeito da normalidade, virando-se sozinho sem precisar pedir ajuda a outros. "Eu odeio dar qualquer trabalho adicional a alguém. Ele odeia ser tratado de forma diferenciada. Anderson, Sunshine e Timmy, o amigo deles, vão se mudar para um novo condomínio em breve, em Rolling Meadows, nos arredores de Chicago, um local sem nenhuma facilidade para deficientes. "Se puder aprender a viver minha vida sem elas, eu vou ficar bem", ele diz.

Simpson sorri, como um pai cujo filho acabou de bater no valentão da escola.

"Esta é nossa missão", ele diz.

O pessoal do Hanger faz uma pausa para o almoço. Em vez de comerem, Anderson e Sunshine reviram a pilha de folhetos que Sunshine pegou no hotel, presentes dos amigos em casa para sua viagem a Oklahoma. O Museu do Caubói parece ser uma opção óbvia, até que Anderson vê o folheto de uma pista de kart. Ele é atraído por velocidade, e os karts atingem quase 60 km/h.

Pena que sua cadeira de rodas não é tão rápida. A cadeira costumava fazer cerca de 13 km/h, até que ele disse a um técnico que ela era lenta demais, então ele conseguiu melhorá-la para cerca de 19 km/h. Isto proporcionou uma grande noite em Washington, D.C., no ano passado, quando Anderson correu por calçadas vazias puxando Timmy em um skate, visitando todos os monumentos. Mas esta é uma velocidade real, respeitável, acelerando por uma pista lisa de concreto e derrapando em curvas, com as mãos firmes no volante e músculos do pescoço flexionados.

A garota na caixa registradora nos informa as exigências básicas, que se somam a uma regra: se nos machucarmos, nós não processaremos.

"Todos vocês estão com calçados fechados?", ela pergunta.

Anderson está usando tênis, mas ele diz assim mesmo: "Eu preciso deles?"

"Todos precisam", ela diz, sem olhar para baixo.

"Mesmo se eu não tiver os pés?"

Ele espia por sobre o balcão e fica pálida por um momento. "Oh", ela diz. "Está tudo bem."

Anderson lhe dá um sorriso doce, e ela não parece ter se importado com a brincadeira.

Com seu estranho movimento oscilante, ele caminha até o fundo do prédio onde os karts estão estacionados. Os dois sujeitos que cuidam da pista trazem um dos dois karts adaptados com controles manuais para aceleração e freio. Anderson balança a cabeça. "Eu não uso equipamento para deficiente", ele diz. Em vez disso ele usará suas pernas artificiais para acionar o acelerador e freio e guiará com sua mão boa.

Anderson e Sunshine me deixam para trás na primeira corrida, mas na segunda eu me saio bem, fazendo as curvas corretamente com o equilíbrio certo de aceleração e frenagem. Eles disputam atrás de mim, empurrando um ao outro contra as paredes baixas. Eu vejo Anderson se aproximando enquanto passamos por uma curva fechada, mas com a bandeira branca, restando uma volta, eu estou certo de que conseguirei me manter à frente. Ele se aproxima, mas eu ainda mantenho uma vantagem de 15 metros. Apenas mais duas curvas. E na última curva ele me ultrapassa, me empurra para fora do caminho e recebe a bandeira quadriculada.

"Eu só tenho um membro e vocês têm quatro, mas fiquei em primeiro lugar", ele diz. "Adoro isso."

Da pista de kart, nós dirigimos a grande picape vermelha até o Hi-Lo Club, um bar perto do Hanger que Sunshine avistou naquela manhã. Nós entramos no ambiente escuro, com nossos olhos se adaptando após o sol do meio-dia. Caminhar até o bar apresenta problemas para Anderson, incapaz de ver as variações no piso, pequenas elevações ou desníveis. Ele caminha com a mão estendida, cambaleando um pouco, mais parecendo um bêbado repleto de cerveja do que um homem com sede pedindo sua primeira.

"Vocês vieram para a cidade para o torneio de boliche?", pergunta o barman, Michael.

"Boliche?", diz Sunshine.

"O Torneio de Boliche Gay Internacional", diz Michael.

Sunshine se vira para Anderson com um sorriso torto, sobrancelha erguida e voz baixa: "Isto é um bar gay?"

Anderson dá uma olhada para o salão. As únicas pessoas presentes são duas garotas sentadas em uma mesa de canto, perto da jukebox.

"Cara, elas devem ser lésbicas", diz Anderson.

Anderson finalmente termina sua cerveja, e Michael, que diz que o bar tem clientela mista, pergunta se ele gostaria de algo mais forte.

"Não", diz Anderson, mas então faz uma pausa. "Por outro lado, acho que vai uma dose."

Ele chama as garotas. "Vocês gostariam de beber comigo?"

"Claro!", responde uma delas.

Todos vão até o fundo do bar e erguem seus copos.

"Vocês são daqui?", Anderson pergunta para as garotas.

A garota com o copo de aperitivo balança a cabeça afirmativamente. "Somos daqui."

"Vocês estão, hã, juntas?"

As garotas trocam olhares. Elas riem. "Às vezes. É complicado."

Anderson adora isto, sentado em um bar às vezes hetero, às vezes gay, em Oklahoma, tomando cerveja e drinques no almoço e conversando com duas garotas às vezes hetero, às vezes gay. Mas ao mesmo tempo ele odeia tudo. Se já não tivesse conversado com ele sobre momentos como este, eu nunca imaginaria quão desconfortável isto pode deixá-lo.

Muitos soldados feridos deixam seus ferimentos dominá-los; eles se transformam em seus ferimentos. A forte personalidade de Anderson o faz superar isso, ofuscando o que foi perdido. Ainda assim, conversar com garotas não é como costumava ser. "Eu não gosto nem um pouco", ele diz. "Eu me sinto como se fosse meia pessoa. Eu não consigo tirar isso da minha cabeça. Eu sei que melhorará com o tempo, mas ainda não melhorou."

O caminhar começa no hospital, assim que as cirurgias terminam e os membros estão cicatrizados o suficiente para suportar o peso, com tarefas simples, mas impossíveis: pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, pé direito, não caia para frente. Amputados como Anderson procuram o Hanger, a mais antiga empresa de próteses, para ajustes sofisticados e em busca de dicas para uso no mundo real que podem tornar o dia muito mais suportável.

O fundador da empresa, James Edward Hanger, juntou-se ao Exército Confederado em junho de 1861, mas se viu pego no meio de um combate um dia após ter se alistado. Um bala de canhão caiu em sua perna esquerda, que um cirurgião da União posteriormente amputou acima do joelho, tornando o universitário de 18 anos o primeiro amputado da Guerra Civil.

Descontente com a perna de pau que recebeu, Hanger usou madeira de um barril de carvalho para esculpir sua própria prótese. Ao final de guerra, ele estava produzindo pernas para os soldados da União e Confederados com joelhos, tornozelos e pés articulados. Os negócios prosperavam. Cinqüenta mil homens perderam membros na guerra. Durante a Primeira Guerra Mundial, ele abriu filiais em Paris e Londres, pronto para os novos clientes da nova guerra.

À medida que os Estados Unidos se tornavam mais prósperos, e a medicina militar avançava, a maré mudou do trauma para o mundano. Um homem que perde uma perna no Camboja ou Afeganistão atualmente muito provavelmente pisou em uma mina terrestre. Nos Estados Unidos, ele provavelmente é diabético. Alimentada por dietas poucos saudáveis e por pouco exercício, a diabete agora é responsável por grande parte das amputações, seguida de perto por outras doenças vasculares, câncer e defeitos de nascença.

A amputação por trauma representa menos de 10% dos amputados americanos, mas eles compensam em tragédia o que perdem em número. Como o sujeito que parou para ajudar uma mulher e seu bebê -em seu aniversário- e foi atropelado por um carro, que esmagou suas pernas. Ou o sujeito que subiu em uma perfuratriz para limpá-la, enquanto outra pessoa desatenta a ligou. Ou o sujeito cuja viagem de pesca foi estragada quando um jacaré comeu seu braço. Ou o menino que escorregou na grama molhada e perdeu seu pé no cortador de grama que o pai estava dirigindo. Ou o funcionário de companhia elétrica que queimou ambos os braços na linha de força.

"Limpar seu traseiro vai ser bem difícil", diz Anderson. "Bem, há alguns truques para isto", diz Chuck Anderson, que é especializado em próteses de braços. "Usar o calcanhar é um modo. Você põe seu pé sobre o vaso sanitário e coloca o papel higiênico no calcanhar. Você se senta sobre o calcanhar e depois deixa o papel cair no vaso."

"A vida é uma droga", diz Bryan Anderson. "É um mundo cruel." Ele diz isso com um sorriso torto. Ele sabe como é a piada, acordar no hospital e lembrar que perdeu suas pernas, pensando que perdeu apenas as pernas. Ao mover sua mão esquerda para coçar o rosto e em vez disso se espetar com um coto. Analisando o estrago na mão direita, ainda lá, mas por pouco, remontada com pinos de metal que atravessam a pele. Olhando para o teto. Alguns fazem piada.

Mas de alguma forma ele imagina que é como devia ser. Se não fosse uma bomba, poderia ter sido um ônibus. Ou aquele jacaré. Mas passar um ano no Iraque certamente aumenta as chances. A guerra tem um modo previsível de arrancar membros, e as guerras no Iraque e Afeganistão mantêm o ritmo. Cerca de 600 perderam um braço ou uma perna; 150 perderam uma combinação de ambos. E quatro, incluindo Anderson, possuem a distinção desagradável de serem triplamente amputados.

Anderson é jovem e forte, tranqüilo e trabalhador, características comuns entre os feridos de guerra e excelentes em um paciente. Ele dá informações precisas e detalhadas sobre dores ou problemas em suas próteses, assim como possui o empenho e resistência para se ater à sua terapia. Ele tenta, cai e tenta de novo. "Eu perguntei aos meus médicos como era usar próteses antes da guerra", diz Anderson. "'Em grande parte era ser como os idosos', eles disseram. Agora há todos estes garotos que estão fazendo coisas impressionantes com próteses, que lhes dizem o que precisam melhorar."

Desde seu ferimento, Anderson praticou wakeboarding, andou de jet-ski, escalou rochas, jogou golfe e esquiou na neve. Ele competiu em um torneio de arco e flecha e conduziu uma bicicleta por 177 quilômetros em dois dias usando manivela. "E agora ando de skate", ele diz.

Ele me mostra um vídeo em seu celular, de um parque local de skate. Anderson está sentado no skate, correndo na direção de uma rampa, Sunshine correndo atrás com a mão plantada em suas costas. Sunshine dá o empurrão final e Anderson sobe a rampa, se lança quase meio metro no ar e então cai de lado. Na tentativa seguinte, ele pousa corretamente. É como Anderson age. Alguém sugere algo, ele diz OK e vai de cabeça. "E quando você percebe, eu estou voando no ar", ele diz.

Ele apenas precisa dos membros para tornar isto possível e o desempenho fica bem aquém da expectativa. Os campos de batalha sempre foram laboratórios para testar e desenvolver novas técnicas médicas, e a guerra que tirou os membros de Anderson está estimulando a busca por melhores próteses como nunca. "Esta é uma das coisas boas do governo. Toda vez que há guerra, ele destina bastante dinheiro e pesquisa com as quais todos podem se beneficiar", diz Chuck Anderson.

O financiamento de projetos de próteses cresceu significativamente nos últimos seis anos. A Agência de Projetos de Pesquisa Avançada da Defesa, ou Darpa, está bancando um dos programas mais ambiciosos, o projeto de Próteses Revolucionárias de US$ 85 milhões, que visa construir uma prótese de braço que se iguale ao braço humano em funcionalidade até o próximo ano. Grande parte da tecnologia que torna estas novas próteses possíveis -até mesmo viáveis - vem dos avanços para alimentar nosso apetite por aparelhos melhores.

Motores mais poderosos, baterias menores e processadores mais rápidos levam a próteses mais ágeis, mais leves, mais fortes. A tecnologia nos fortalece, ajuda a nos movermos mais rapidamente e por distâncias maiores do que conseguiríamos por conta própria, processam números maiores, chegam a mais pessoas, matam mais pessoas. Mas, para os amputados, quanto mais louca a tecnologia, mais próximos eles chegam da normalidade. A fusão de homem e máquina está diante de nós, o extraordinário permitindo o comum.

Agora, o dia-a-dia de Anderson é mais ou menos assim: ele passa por Rolling Meadows algumas horas antes de sair para Oklahoma. Para frear basta um aperto, e, para acelerar, basta empurrar para baixo. Sua mão direita segura uma esfera no topo do volante. Ele poderia usar os pedais, mas está se locomovendo sem as pernas hoje, esperando pelos ajustes de Hanger.

Anderson dirige com fria indiferença pela tarefa e sem a timidez que eu esperava. Ele se joga no trânsito e ultrapassa os motoristas lentos. Ele coloca um álbum do Rise Against na fila do iPod, e digita uma mensagem de texto com seu polegar enquanto gira o volante, com um cigarro pendurado na boca. Ele diz que fumar o poupou de ser o único amputado dos quatro membros da guerra. Se ele não estivesse fumando um trago de seu cigarro na hora, a explosão teria levado seus dois braços.

Quando fala sobre a explosão, Anderson algumas vezes diz: "Quando foi explodido" ou "Quando foi ferido", mas na maioria das vezes diz: "Quando sofri o acidente". Não que tenha sido tanto um acidente. Os construtores fizeram a bomba com cuidado, colocando cinco objetos explosivos penetrantes em ângulos diferentes, assegurando a cobertura máxima, depois colocando o dispositivo no concreto e o disfarçando como uma pedaço de calçamento.

Se a patrulha estivesse dirigindo mais rápido, a uns 65 quilômetros por hora, o caminhão estaria na posição perfeita para matar a todos os passageiros da Humvee. Mas os veículos engatinharam pela rua naquela manhã. A roda da frente passou pelo sensor infravermelho e a bomba explodiu, destruindo a frente do caminhão e espalhando metal fundido suficiente na cabine para tirar fora as pernas e braço de Anderson.

O explosivo de penetração havia se tornado a arma preferida na seção do leste de Bagdá que a companhia de polícia militar de Anderson patrulhava. A confecção é basicamente simples, mas terrivelmente efetiva: uma carga em forma de caixa envolta por um disco côncavo de cobre. O calor e a força da explosão fazem com que o cobre se torne um jato quase líquido capaz de cortar através de centímetros de material blindado. O efeito no corpo de Anderson pode ser comparado ao de Darth Vader cortando o braço de Luke com um sabre de luz.

Ele voltou para casa em novembro de 2006, depois de um ano no hospital, com uma grande recepção no aeroporto e uma escolta de 150 motocicletas da Guarda Patriota. Sua família estava numa limusine. Ele desfilou no sidecar de uma moto.

Depois de pegar Sunshine, fomos para um posto de gasolina. Um Red Bull para Sunshine, uma Pepsi e cigarros para ele. Ele jogou algumas moedas num cofrinho de plástico em forma de pretzel próximo ao assento do motorista, que guardava alguns meses de troco de lojas de conveniência e drive-through.

"No primeiro ano, eu não pegava o troco, e ponto final", diz ele. "Não conseguia sentir que tinha moedas no bolso. Não consigo tirá-las do bolso. Eu sempre dizia 'Guarde o troco', mesmo que fossem 95 centavos. Eu não queria ter de lidar com isso. Depois pensei: talvez eu esteja perdendo muito dinheiro".

Fomos à Sears para comprar uma TV de tela plana para sua nova casa, depois nos dirigimos ao banco. Anderson se arremessa sozinho do assento do motorista para a cadeira de rodas, corre pelas calçadas, depois volta rapidamente para o assento da van alguns minutos mais tarde. Sunshine, sentado no banco de trás, por pouco não tira seus pés do caminho a tempo.

"Preste atenção, cara".

Sunshine já levou várias topadas nas canelas e já teve os pés esmagados mais de uma vez. "Posso dizer uma coisa", diz ele, "não é prazeroso".

A cadeira de rodas pesa 113 quilos e custa US$ 25 mil. Anderson tem três, como parte de um acordo de patrocínio com a fabricante Quantum Rehab. Ele vai a eventos em todo o país, dá alguns autógrafos e faz sugestões para melhorar o produto. Façam as cadeiras mais parecidas com um carro, disse aos fabricantes. Coloquem algumas conveniências. Apoiadores de copos, talvez um iPod conectado.

A companhia está construindo uma cadeira especial para ele agora, com um logo cromado do Super-Homem e luzes azuis e vermelhas. "As pessoas que estão em cadeiras de rodas basicamente vivem nelas. Mas não há compartimentos para nada", diz ela. Disse a eles que as cadeiras precisam ter um visual mais bacana. Elas parecem tão deficientes, é ridículo. Eles têm de fazer com que pareça um privilégio andar em uma cadeira de rodas elétrica."

Assim são os empregos. Trabalhar com a companhia de cadeira de rodas tem sido bem tranqüilo. Se ele não tivesse sido ferido, estaria de volta na American Airlines em Chicago, gerenciando uma equipe de solo para carregar bagagem e mover os aviões.

A maioria de seus colegas de Exército também está lá fora, trabalhando. Crenshaw cuida da segurança de armas nucleares. Kenny, seu antigo líder de equipe, trabalha em construção. Ele ligou para Kenny hoje cedo para cumprimentá-lo pelo aniversário, e a conversa se voltou para o Exército, o que sempre vai acontecer. Ambos sentem falta daquela vida, principalmente por causa das amizades. Eles sentem falta de seu canto no quartel, no fim do corredor, quatro quartos, oito amigos, fazendo tudo juntos, trabalhando e bebendo e planejando seus futuros.

"Todos nós pensávamos que podíamos fazer tanta coisa de nossas vidas fora do Exército", diz Anderson. "Eu imaginava que assim que deixasse o Exército eu iria começar a correr. Quando isso aconteceu comigo, meu plano de vida não mudou muito na realidade. Só porque isso aconteceu não significa que eu ainda não tenha os mesmos objetivos."

O objetivo principal é passar tempo com seus amigos. "Eu planejo ficar rico", diz ele, apesar de não saber bem como fazer isso. "Publicidade. Tornando-me uma celebridade". Anderson já atingiu uma certa fama, aparecendo na capa da revista Esquire em janeiro de 2007 e sendo entrevistado pelo ator James Gandolfini no documentário "Alive Day Memories", da HBO.

Ele precisa do dinheiro para construir o conjunto de apartamentos, uma versão mais elaborada do canto dele no quartel. "Acredito que as pessoas que levaram bem a vida merecem boas coisas em retorno. Então para todos os meus amigos em quem acredito, que acredito serem pessoas de bom coração, quero ir para a Califórnia comprar 40 ou 50 acres e construir 15 ou 20 casas para eles. Minha casa vai ser como um parque temático. Vai ter motocross, pista de kart, campo de beisebol, salão de festas".

Bill Dunham, um representante da Hanger que perdeu a perna direita durante a invasão dos EUA ao Panamá, anda na minha direção com passos poderosos, cada passo direito acompanhado de um ruído meio robótico de desenho animado. Em vez de uma prótese de perna normal, do mesmo tipo que Anderson usa, Dunham usa a Power Knee, a primeira prótese de perna elétrica do mundo. Em vez de simplesmente dar resistência, a perna ajuda o usuário com músculos mecanizados. Usar essa perna requer muito menos energia do usuário, principalmente para tarefas como subir escadas ou ladeiras.

É claro, ainda é um pouco incômoda e sujeita a falhas. Antes de subir escadas, Dunham calibra a perna andando pelo saguão, acertando o ritmo de sua perna real à protética, e então ele se agacha até o calcanhar para colocar no modo de subida.

Enquanto ele estava no corredor conversando com colegas, a perna interpretou mal a variação de peso e mudou de modo, jogando Dunham no chão num segundo. "Pelo menos está aqui. Esperamos apenas que a segunda geração seja bem melhor e supra as expectativas dos amputados", diz Dunham. "Você tem de dizer a ela o que fazer, o que não é algo que os amputados queiram encarar. Quero só viver minha vida."

A Power Knee é bacana, apesar de desajeitada, uma promessa de melhores próteses no futuro. Mas o trabalho mais fantástico está sendo desenvolvido não longe da casa dele, no Insituto de Reabilitação de Chicago.

Numa sala de conferências com vista para o lago Michigan, Jesse Sullivan se recosta numa poltrona estendendo e contraindo dos dedos de sua mão esquerda, ausente, sem concentração. "Durante quase toda minha vida adulta, eu usava as mãos para contar uma piada. Se cortarem minhas mãos, não consigo dizer uma palavra", diz ele. "Talvez porque eu seja hiperativo, mas gosto de me mexer."

O ex-trabalhador de 61 anos de uma companhia de eletricidade do Tenessee tocou num cabo de força em 2001, recebendo 7.200 volts através dos braços. Ele perdeu ambos na altura dos ombros. Ele usa um braço direito antiquado, um sistema de elásticos, cabos e juntas com uma pinça de metal no lugar da mão. Para mover o braço, ele contrai os músculos das costas, puxando os elásticos amarrados ao membro. Com o queixo ele pode empurrar três pequenas alavancas montadas próximas a seu pescoço. Cada uma delas impede um movimento, do ombro, do cotovelo ou da mão. Se ele bloqueia o movimento do ombro e contrai os músculos das costas, a energia vai para o cotovelo e para a mão.

A complicada série de bloquear, contrair e desbloquear mudou pouco durante os últimos cem anos. Mas o lado esquerdo de Sullivan é um verdadeiro cyborg. Uma fonte de fios corre desde o braço robótico preto e prateado para o seu peito, e outros mais entram em três caixas pretas em suas costas que sustentam pilhas e processadores.

Nesse momento ele está em exibição, mostrando-se diante de uma sala cheia de especialistas em próteses. "Faça uma pinça com os dedos", pede o Dr. Todd Kuiken, diretor do Centro de Engenharia Neural para Medicina Biônica RIC.

Sullivan junta então seu dedo indicador ao polegar.

"E o meu favorito", diz Sullivan, "a posição de usar a furadeira".

Ele fecha o punho, com o polegar fechando-se sobre os outros dedos, e o indicador estendido. "Tenho uma furadeira Makita que foi terrivelmente negligenciada durante anos", diz. "Tenho coisas a fazer."

Ele controla o braço exatamente como você contra o seu - como pensamento. Os nervos agem como as linhas telefônicas do corpo, dando instruções. Corte o membro, e essas instruções ficam paradas a meio caminho, então Kuiken deu a elas um novo destino.

Fã do "Homem de Seis Milhões de Dólares" quando criança, ele passou a maior parte de sua vida adulta inventando meios de integrar próteses ao sistema nervoso. Ele chama o processo de reenervação dirigida do músculo. Cirurgiões abriram o ombro de Sullivan e pescaram os quatro nervos da largura de um lápis que controlam os movimentos do braço e da mão. Eles cortaram o músculo peitoral de Sullivan - que não tem mais nenhuma função - em quatro partes e colocaram um nervo em cada. Dentro de cinco meses, os nervos cresceram dentro da musculatura. Eles voltaram à vida.

Quando Sullivan pensa em fechar o punho, o cérebro envia a mensagem através do nervo mediano até o músculo peitoral, que age como um amplificador, aumentando a força do sinal elétrico de alguns milhões para alguns milhares de avos de volt. Pequenos eletrodos de metal grudados ao peito de Sullivan enviam o sinal para um processador, que envia a informação para fechar a mão.

Esses fracos sinais elétricos controlam o braço protético mais complexo e capaz já construído. O braço que Sullivan está usando para demonstração foi construído para o projeto de próteses Darpa da DEKA Research and Development, companhia fundada por Dean Kamen, inventor do Segway scooter, um andador elétrico. Com dez graus de movimentos entre ombros, cotovelo, pulso e mão, o braço pode imitar muitos movimentos humanos, cumprindo a promessa da Darpa de construir um braço comercialmente viável em 2007.

Para a segunda prótese, a ser entregue em 2009, a Darpa quer maior durabilidade e destreza. Se o Pentágono quisesse mandar soldados amputados de volta ao campo de batalha, essa seria a escolha mais apropriada, um braço construído pelo Laboratório de Física Aplicada da Universidade John Hopkins feito de aço endurecido e alumínio usado em aviões. "Você pode dar um soco numa parede de tijolos sem quebrá-lo. É impossível quebrá-lo", diz Steve Clark, engenheiro mecânico do Laboratório de Desenvolvimento em Biomecatrônica da RIC, que ajudou a desenhar a mão do braço protético, chamado de Proto 2.

O cotovelo e o ombro podem carregar 20 quilos cada. A mão tem 15 motores, pouco maiores do que um confeti, e será capaz de segurar com nove quilos de força. A próxima geração será à prova de poeira, à prova d'água por muitos metros e terá um poder de manipulação melhor e mais habilidoso para, por exemplo, tocar violão.

Esse nível de sofisticação obviamente apresenta obstáculos - os braços não servem de nada sem um veículo para enviar as intenções do usuário. "Você pode ter um sistema muito, muito elaborado, mas como pode controlá-lo?", diz Blair Lock, gerente do laboratório da RIC. "Como é que o homem controla a máquina? Construir essa ponte é que é o desafio."

O braço esquerdo que Sullivan usa tem quarto áreas de eletrodos que traduzem os sinais em quatro ações simples: ombro para cima, ombro para baixo, mão aberta, mão fechada. O braço de Anderson trabalha da mesma forma, com eletrodos nas juntas pegando sinais dos músculos que sobraram do braço. O punho construído por ele vira para a esquerda e a direita. A mão abre e fecha. Isso pode ser melhor do que usar elásticos e cabos, mas o corpo é capaz de muito, muito mais.

Os nervos carregam mensagens complexas e sutis, e aí está a diferença entre simplesmente fechar a mão e procurar um centavo num bolso cheio de moedas, chaves e pedaços de papel. A sutileza é perdida a menos que os sinais possam ser traduzidos em um conjunto de instruções úteis.

Então a equipe de Kuiken criou uma máquina para capturar esses impulsos, cobrindo o peito de Sullivan com uma dúzia de eletrodos. Esse ruído elétrico alimenta um programa de reconhecimento de padrões que decodifica os sinais, os traduz em algoritmos e os guarda em uma biblioteca de movimentos. Cada impulso elétrico único equivale a um movimento específico, feito com uma intensidade específica. "A máquina captura todos e reconhece os padrões, da mesma forma que você lembra de uma pessoa, de como são seus olhos, seu nariz e o seu cabelo", diz Lock, que ajudou a construir o programa. "Dou um nome aos traços que eu reconheço, e o computador faz a mesma coisa."

Com o braço conectado a um computador, Sullivan segue uma série de 22 comandos exibidos em uma tela. Agarrar ferramenta. Pinçar os dedos. Estender o ombro. Rotação do pulso. Ele mantém cada movimento por dois segundos, sincronizando o braço aos sinais de seu cérebro. Com o braço calibrado, Sullivan precisa apenas imaginar um movimento. O processador do braço casa os impulsos nervosos com movimentos que constam da biblioteca, e então coloca o membro em ação.

Lock ainda está refinando a interface. Sullivan precisa imaginar o mesmo movimento cada vez, como, por exemplo, o movimento exato de sua mão ao pegar e girar uma maçaneta, ou então o computador não consegue decifrar o sinal e escolher o movimento apropriado. E se os eletrodos mudam de posição no peito de Sullivan, os sinais podem ficar confusos.

Uma vez que Anderson ainda tem a maior parte dos músculos que controlam sua mão, ele poderia contornar alguns desses problemas. No fim do corredor do laboratório de biomecatrônica, Richar Weir está construindo implantes de sensores mioelétricos que podem ser injetados nos músculos - apesar de ter de usar uma agulha bem grande - para gravar e transmitir sinais nervosos. Com um implante de 2 por 12 milímetros em cada um dos 18 músculos que controlam o movimento da mão, a intensidade e duração do impulso elétrico pode ser capturada com mais exatidão, o que significa mais instruções sutis para a mão.

Weir, o diretor do laboratório, também desenvolveu um método diferente para decodificar esses sinais. Em vez de usar o reconhecimento de padrões, ele construiu um braço protético - com ossos, músculos, tendões e ligamentos - para recriar o movimento humano. Então em vez de casar os sinais nervosos a tarefas prescritas, o modelo prevê como o braço humano se move baseado nas informações enviadas pelos sensores. Como o braço responde quando um dos músculos do antebraço se contrai 30% por três segundos? Agora acrescente os outros 17 músculos, contraindo e relaxando em infinitas combinações. Esse reservatório de possibilidades é o software que dirige o braço e transforma a intenção em ação.

Tudo isso resolve apenas metade dos problemas para os amputados. Mesmo com esse nível de controle, Anderson ainda quebraria um ovo ao tentar segurá-lo. Os nervos funcionam num circuito fechado; eles enviam instruções, mas também captam informações sobre pressão, calor, textura, dor. A falta de capacidades sensórias nas próteses atuais faz com que os amputados não tenham feedback de seus movimentos.

Uma conseqüência inesperada da cirurgia de Sullivan está ajudando a resolver esse problema. Conforme os nervos de seu braço cresceram no peito depois da cirurgia, Sullivan começou a sentir o braço. E não eram dores fantasmas. Ele sentia o braço, a mão, os dedos. Os nervos sensórios cresceram na musculatura. Ele pode distinguir pressão e calor em alguns dos dedos. Depois de um longo dia de terapia, ele acorda com os músculos do braço doloridos - músculos que não existem. No chuveiro, ele sente a água correr pelo seu braço.

Os próximos braços Darpa terão sensores nas pontas dos dedos ligados a "tactors", pequenos botões de metal no pedaço de pele reenervado do paciente. Anderson poderia ter esses nervos sensoriais colocados em seu antebraço, dando a ele novas sensações na mão. Se ele pegasse um ovo, o "tactor" seria comprimido delicadamente contra a pele, dizendo a ele com que intensidade ele estava segurando. Se ele fumasse um cigarro muito próximo do filtro, o sensor esquentaria, avisando sobre o calor.

Anderson pode se beneficiar ainda mais quando essa tecnologia chegar às pernas. Se ele pudesse sentir que estava pisando sobre a calçada, sentir o calcanhar tocando o chão, andar não seria o jogo de adivinhação precário que é agora. Os implantes de Wier poderiam dar a Anderson um melhor controle de seus músculos da coxa, enquanto que a cirurgia de nervos de Kuiken lhe daria o potencial de controlar músculos robóticos das panturrilhas e dos pés. Em vez de os membros fazerem adivinhações, como agora, Anderson poderia dirigir e refinar o movimento.

A essa velocidade, os amputados podem um dia ter membros como os de Will Smith em "Eu, Robô", integrados ao corpo e cobertos com pele sintética, capazes de uma vasta gama de movimentos e muito provavelmente bem mais fortes do que um braço ou uma perna. Mas, para cada avanço feito no desenho de próteses ou das interfaces homem-máquina, existem barreiras enormes e talvez insuperáveis.

"Nossas próteses atuais dão, na melhor das hipóteses, 3 a 5 % de retorno das funções. Se melhorarmos isso em duas ou três vezes, será ótimo, a pessoa vai se sentir bem de fato com elas. Mas isso significa que ainda estariam nos 10% do que o braço pode fazer, então é necessária uma certa humildade aqui", diz Kuiken. "O Homem de Seis Milhões de Dólares" ainda é ficção científica. Ele era um super-humano, e até agora ainda estamos tentando repor uma grande parte do que foi perdido".

O que nos leva de volta à propriocepção, o misterioso e extremamente complicado processo de movimento e feedback sensório que nos diz como nossos corpos se movem no espaço. Mesmo pequenas mudanças - quanto mais perder 70 mil sensores dos braços em uma amputação - podem interromper ou destruir o feedback. Os policiais usam isso para pegar os motoristas bêbados com testes de sobriedade nas ruas. Feche os olhos e leva a ponta do dedo ao nariz. O seu dedo simplesmente sabe aonde ir. Mas se você beber bastante é provável que não consiga nem acertar o rosto. Ou então enfie o dedo no olho.

"A propriocepção é muito importante para retomar a função real e refinada", diz Kurken. "E isso é algo que não consigo fazer. Há uma limitação enorme ao trabalho que estamos fazendo. Precisamos fechar o circuito com informações limitadas. As sensações da pele irão ajudar, mas há muito mais feedbak interno que estamos perdendo. Tentar reparar aqueles 70 mil nervos me parece uma tarefa quase impossível; por outro lado, consigo imaginar como fazer com que um membro cresça novamente, apesar de não ser fácil."

Estrelas do mar e salamandras conseguem fazê-lo. Crianças pequenas podem ter dedos regenerados, e já estamos fazendo com que órgãos cresçam em laboratórios. "Só existem limites até que se consiga descobrir como superá-los", diz Kuiken. "Não espero ver a regeneração de membros durante a minha vida, mas não diria que é impossível que isso aconteça enquanto meus filhos estiverem vivos."

Bryan Anderson tem esperança de ter alguma dessas parafernálias acopladas a seu corpo, ou crescendo nele, nos próximos anos. Por enquanto, ele pode ter o seguinte: um grande aperto de mãos.

Uma das interações físicas mais básicas entre duas pessoas, o aperto de mão, não é um movimento muito complexo. As palmas fazem pressão uma contra a outra, os músculos contraem, os dedos se fecham, colocando pressão e levando a um aperto reconfortante e doador de confiança, uma rápida ligação humana. Mas a mão de Anderson, como a maioria das próteses de hoje, abre e fecha como um alicate, assim parece mais que ele está procurando um ponto de acupuntura na sua mão do que dando um aperto. E esse é na realidade o único movimento que faz a mão dele.

Troy Farnsworth, vice-presidente da Hanger para extremidades superiores, segura um braço protético, o mesmo dispositivo de fibra de carbono usado por Anderson, sentado numa sala nos fundos de um escritório em Oklahoma City. Mas na extremidade do braço há algo extremamente diferente da mão de alicate de Anderson. Os dedos brancos, cobertos por silicone transparente e macio, fazem a mão parecer um esqueleto. Fansworth estende a mão na minha direção, e eu a aperto, pele contra borracha.

Cinco motores movem a mão, um para cada dedo. O processador monitora a quantidade de energia disponível e quando encontra um objeto duro - o motor perde força porque encontrou resistência - envia a força para os outros dedos. O dedo indicador para, os outros continuam funcionando, e um a um os dedos se fecham em torno da minha mão. Em um aperto confiante.

Até agora, a mão só é capaz de receber instruções relativamente simples dos quatro sensores no braço: abrir, fechar, girar para esquerda, girar para a direita. Mas Hanger está trabalhando numa série de sensores capazes de captar a miríade de sinais que os músculos enviam, similares aos sensores implantáveis desenvolvidos no Instituto de Reabilitação de Chicago. Isso poderia permitir elaboradas combinações de movimentos, como batucar com os dedos na mesa.

Apesar de os movimentos atuais parecerem simples, a sofisticação instantaneamente torna a prótese de Anderson primitiva. Farnsworth trouxe a mão para Oklahoma City para fazer uma surpresa para Anderson, que está num quarto no fim do corredor com Sunshine, Simpson e Richards. Menos de 100 pessoas em todo mundo têm essas mãos feitas pela Touch Bionics, que são as mais avançadas do mercado.

Junto com um braço protético, elas custam cerca de US$ 90 mil. Mas se Anderson quiser uma, vai consegui-la. O governo tem sido bom em dar aos soldados amputados o que eles bem quiserem. Num cesto de plástico sob sua cama em Rolling Meadows, Andreson tem mãos para nadar, jogar basquete, sinuca e dirigir motocicleta.

Mas esse é o problema com as próteses, nenhuma mão ou perna é adequada para qualquer coisa. As trocas proliferam. Os dedos e juntas dessa nova mão são elaborados e feitos principalmente de plástico, transformando-a em algo delicado, um sacrifício à durabilidade pela destreza. "Será que ele vai quebrar algo com isso? Posso garantir que sim", diz Farnsworth. "Eles não têm sensações nos dedos, então não têm idéia de quanto torque estão colocando em algo."

E assim funciona o processo de desenvolvimento. Elementos de projetos de pesquisa de ponta - como dar aos amputados a capacidade de sentir pressão e calor - passam para as próteses disponíveis comercialmente, continuamente melhorando sua performance. "Esse ainda é o começo", diz Farnsworth.

Falar sobre isso o deixa entusiasmado, mas, apesar de impressionarem, os equipamentos têm suas desvantagens. "Toda essa nova tecnologia é muito legal, mas no fim das contas a preocupação maior é a pessoa", diz. "E não importa quão bom seja o nosso trabalho, nunca é tão bom quando o que eles tinham e perderam". Ainda assim, a mão é boa pra caramba. Farnsworth sabe disso, e sabia também a cara de criança no Natal que Anderson iria mostrar dentro de dez segundos. Ele coloca a mão dentro do bolso e entra na sala de terapia. "A boa notícia é que você vai poder experimentá-la", diz a Anderson. "A má notícia é que não vai poder ficar com ela".

Farnsworth tira a mão do bolso e Anderson arregala os olhos. Dá para mim. Ele agarra a mão e a observa, impressionado, conforme os dedos se abrem e fecham, abrem e fecham. A última vez que ele teve essa capacidade e de movimento na mão esquerda foi quando ela estava segurando o volante da Humvee.

Anderson estende os dedos, mostra o dedo do meio e depois fecha o punho, encolhendo os outros quatro dedos. E mostra seu feito por todo o quarto.

Farnsworth sorri. Ele já viu essa cena várias vezes. "Talvez seja o movimento mais requisitado", diz ele.

Anderson brinca com a mão, pegando seu telefone, segurando uma garrafa. Ele imagina tudo o que poderia fazer com ela. Nada demais, simples tarefas absurdamente difíceis como segurar a jaqueta para poder fechar o zíper com a mão direita. Mas, ainda assim, enquanto observa as juntas se flexionarem, acompanhadas pelo suave ruído dos motores, ele está consciente de sua fragilidade. Para alguém que normalmente se movimenta como um gorila, movendo-se com os punhos quando não usa suas pernas protéticas, uma mão delicada como essa não duraria muito.

"Se eu conseguir uma dessas, vou precisar de muitas peças de reposição", disse.

Anderson empurra o corpo para fora da cadeira, apoiando as mãos nos braços da cadeira, como de costume. Uma vez fora dela, o polegar já não se movimenta. Ele olha em torno, com uma expressão de expectativa, o rosto de uma criança segurando um item de coleção quebrado. Mas seus olhos também dizem: "Eu falei".

"Na realidade, estou surpreso que tenha quebrado tão rápido", diz Farnsworth, com a avaliação fria de um cientista em relação a uma experiência mal sucedida. "Só assim podemos consertá-la, fazer mudanças e melhorá-la". Anderson tira a mão e a entrega para Farnsworth, que se dirige ao laboratório e a disseca com uma minúscula chave de fenda, procurando a falha.

Anderson coloca sua velha mão no lugar. É boa o suficiente por enquanto.

No almoço, enquanto Anderson atravessava a porta do restaurante Deep Fork, o garçom no balcão de recepção, incrédulo, bateu na pilha de cardápios. "Você é o cara da capa da revista Esquire?", gritou. "Caramba! Sou um grande admirador." O garçom serviu nossas águas e Anderson disse a ele que estava na cidade para ajustar suas pernas.

"Você está andando muito bem", disse ele, e virou-se para Simpson e Richardson. "Vocês devem ser boas pessoas". Quando saiu, Simpson olhou para Anderson, um pouco surpreso. "Fiquei arrepiado", disse.

"Muitas pessoas já me disseram que eu as inspirei", diz Anderson. "Não vejo isso como uma grande coisa. Estou apenas vivendo a minha vida. Eu me acidentei, fiquei melhor, e agora estou tocando em frente, fazendo o que tenho de fazer." Fez uma pequena pausa e deu um risinho sarcástico. "É mais fácil porque não tenho que ir trabalhar todos os dias."

* Brian Mockenhaupt é editor colaborador da Esquire e veterano da guerra do Iraque.



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    Ele voltou para casa após seu turno dois meses no Iraque antes do prazo de um ano, 16 quilos mais leve e cerca de 60 centímetros menor, com as pernas am%>