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19/03/2008 - 00h05
Ganhando a batalha, perdendo a guerra

James H. Willbanks*
The New York Times
Em Fort Leavenworth, Kansas

Esse inverno é o quadragésimo aniversário da ofensiva Tet, que provou ser o ponto de virada na Guerra do Vietnã. Quando ela terminou, os estrategistas americanos no Vietnã desistiram de procurar a vitória no campo de batalha para encontrar uma forma de se desvencilhar. É instrutivo lembrar que os norte-americanos e exércitos aliados de fato pararam os inimigos e causaram muitas mortes.

Nos últimos meses de 1967, depois de mais de dois anos de amargo combate no Vietnã, muitos norte-americanos acreditavam que a guerra havia se degenerado em um empate sangrento. O general William Westmoreland, o comandante senior, não via isso dessa forma; de acordo com sua principal estatística - a contagem de corpos - as forças norte-americanas e aliadas estavam fazendo um avanço significativo. Sob as críticas do crescente movimento antiguerra em casa, o presidente Lyndon Johnson decidiu transformar o otimismo de Westmoreland no ponto focal de uma campanha de informação para convencer o povo americano que estávamos vencendo a guerra.

Em meados de novembro de 1967, ele trouxe o general de volta para os EUA para defender o ponto de vista. Ao chegar à base Andrews da Força Aérea, Westmoreland disse aos repórteres que o esperavam que estava "muito, muito confiante" pelos eventos recentes. Em uma aparição no programa "Meet the Press" dois dias depois, ele disse que as tropas americanas poderiam começar a se retirar "dentro de dois anos ou menos". Durante um discurso no National Press Club, ele defendeu que "chegamos a um ponto importante em que podemos começar a ver onde está o fim". Ele consistentemente dava um relato otimista de como as coisas estavam indo na guerra, claramente acreditando que haviam passado pelo ponto de virada.

Enquanto Westmoreland falava, todavia, os comunistas do Vietnã preparavam uma ofensa por todo o país designada para "libertar" o sul do Vietnã, que havia sido marcada para começar no início do Tet, o ano novo lunar.

Nas primeiras horas da manhã de 31 de janeiro de 1968, as forças comunistas atacaram repentinamente com uma fúria nunca antes vista. Mais de 80 mil soldados do exército do Vietnã do Norte e a guerrilha vietcong lançaram ataques praticamente simultâneos contra as principais cidades, vilas e instalações militares da Zona de Desmilitarização ao sul do delta do Mekong. Eles atacaram 36 das 44 capitais provinciais, cinco das seis maiores cidades e 64 capitais distritais. Eles tomaram e ocuparam Hue, a antiga capital imperial, e mandaram 11 batalhões para Saigon para atacar seis alvos, incluindo a embaixada norte-americana.

Com algumas poucas exceções - em Hue, Khe Sahn e Cholon - a maior parte da luta da fase inicial da ofensiva terminou em poucos dias conforme as forças norte-americanas e sul-vietnamitas superaram a surpresa inicial e responderam com poder de fogo superior. A revolta civil com a qual as forças vietnamitas estavam contando não se materializou. Os comunistas sofreram casualidades horrendas, algumas estimativas chegam a um número tão alto quanto 40 mil mortos. As perdas continuaram a crescer conforme as batalhas prosseguiram durante os meses de outono. No momento em que a ofensiva chegou ao fim, os vietcongs já estavam paralisados; a maior oposição até o resto da guerra seria feita pelo exército do Vietnã do Norte.

Os norte-americanos haviam tido uma vitória tática. Mas o cenário drástico e a ferocidade da ofensiva e as imagens vívidas das batalhas nos noticiários de televisão convenceram muitos americanos de que o governo Johnson havia mentido, e a credibilidade do presidente caiu vertiginosamente. Talvez mais importante que isso, a ofensiva tremeu a própria autoconfiança do governo e levou a uma reavaliação da estratégia americana. Quando Westmoreland pediu por mais 206 mil tropas adicionais para "tirar vantagem da situação", o presidente negou.

Em 31 de março de 1968, Johnson foi à televisão nacional para anunciar uma suspensão parcial da campanha de bombardeio contra o Vietnã do Norte e o pedido de negociações. Ele então deixou o público chocado ao anunciar que não iria concorrer à reeleição. No ano seguinte, o presidente Richard Nixon começou a longa retirada americana do Vietnã, abrindo caminho para o triunfo das forças comunistas em 1975.

Os historiadores normalmente relutam em fazer comparações entre eventos históricos, e isso é verdade principalmente para o Vietnã e o Iraque, porque as duas guerras têm mais diferenças do que semelhanças. Dito isso, todavia, as ações militares americanas de hoje podem tirar uma lição geral da ofensiva Tet, que é a importância de não dourar a pílula de uma situação militar por razões políticas.

Para evitar os sentimentos antiguerra, Johnson e Westmoreland encorajaram o que acabou se revelando como falsas expectativas sobre as possibilidades no Vietnã, e sua percepção americana colorida da ofensiva Tet, aumentou a lacuna de credibilidade do presidente para um ponto de ruptura. Uma vitória tática transformou-se numa derrota estratégica e levou Johnson praticamente à abdicação. O general Tran Do do Vietnã do Norte reconheceu que a ofensiva falhou em atingir seus objetivos, mas notou que a reação pública nos Estados Unidos foi um "resultado favorável".

O general David Petraeus, comandante das forças de coalizão no Iraque, é um estudante da Guerra do Vietnã cuja dissertação de doutorado em Princeton leva o título "O Exército americano e as lições do Vietnã". Claramente, ele internalizou as lições, porque ao discutir o início e o progresso da guerra no Iraque ele calculadamente evitou criar falsas expectativas e disse repetidamente que haveriam tempos difíceis pela frente. O secretário de defesa Robert Gates também foi cuidadoso da mesma forma em comentários recentes sobre reavaliar os planos de redução de tropas nesse verão. A sabedoria de suas abordagens se tornará ainda mais evidente se os insurgentes do Iraque empreenderem uma ofensiva à la Tet esse ano - especialmente com uma eleição presidencial acontecendo e o futuro do compromisso militar americano no Iraque estar suspenso na balança.

*James H. Willbanks, diretor do departamento de história militar da Faculdade para o Comando e Staff Geral das Forças Armadas dos Estados Unidos, é autor do recém-lançado "The Tet Offensive: A Concise History" ("A Ofensiva Tet: Uma História Concisa")


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